A conferência “Raízes e Rumo” prolongou-se por quase quatro horas e integrou vários momentos: Jorge Rangel fez as honras da casa; o Cônsul-Geral de Portugal, Alexandre Leitão, interveio na abertura, no âmbito do programa “Junho – Mês de Portugal na RAEM”; houve balanços associativos, assinatura de protocolos e apresentação de um novo portal para a diáspora lusodescendente.

Foi importante registar a presença do Cônsul-Geral, que voltou a sublinhar uma palavra feliz: reciprocidade. Macau e Portugal valorizam-se mutuamente quando esta relação se traduz em cooperação concreta, respeito e benefícios partilhados. E, como todos os corpos diplomáticos obedecem a ciclos de missão e substituição, torna-se ainda mais importante transformar boas relações pessoais em mecanismos duradouros de cooperação.

Entre as várias intervenções, destacaria sobretudo cinco: André Ritchie, Gilberto Camacho, Elisabela Larrea, Daniel Senna Fernandes e Carlos Marreiros. Foram estas vozes que trouxeram mais inquietação, substância e futuro ao debate: transição geracional, identidade em metamorfose, transmissão cultural, visibilidade pública, risco de autofagia interna e, sobretudo, a urgência de passar da conversa à execução.

 

André Ritchie: a geração “jovem” já é presente

André Ritchie foi talvez o mais directo no alerta geracional. Repetiu, com ironia, que já se sente quase “ofendido” quando ainda lhe chamam jovem. Perto dos 49 anos, reconheceu que pode continuar a ser visto como jovem dentro da comunidade, mas já não pertence propriamente à geração do futuro: pertence ao presente.

Recordou que muitos dos chamados “jovens” começaram a participar na vida associativa quando estavam na casa dos 20 anos. Passaram-se muitos anos e muitos têm já família, filhos e outras responsabilidades. No seu caso, referiu que daqui a dois e sete anos os seus filhos estarão provavelmente na universidade. A preocupação desloca-se, naturalmente, para a família e a vida profissional. Por isso, a pergunta torna-se inevitável: onde estão os verdadeiros jovens que deveriam estar a ser preparados para o futuro? Os jovens do futuro têm de começar a estar também nesta sala.

Trouxe ainda um pormenor inspirador: quando o seu falecido pai, Alfredo Ritchie, partiu para Lisboa para estudar em Portugal, esse facto chegou a ser notícia nos jornais. O episódio mostra como, naquele tempo, tirar um curso superior era um grande feito para uma família e para a própria comunidade. Hoje, o contexto é outro, mas a mensagem mantém-se: a identidade só ganha futuro quando vem acompanhada de estudo, preparação e capacidade de responder aos novos desafios.

O seu ponto central foi claro: a transição geracional não pode continuar adiada. Não basta chamar jovens apenas para tirar fotocópias, entregar cartas, aparecer em fotografias ou cumprir função decorativa. Se queremos que participem, é preciso colocá-los no centro da acção, dar-lhes responsabilidade, escutar as suas ideias e permitir que tenham margem para trabalhar.

André deixou ainda uma nota de realismo. Recordou que, quando esteve em funções de chefia na Administração Pública, surgiam macaenses licenciados e regressados a Macau que pareciam esperar prioridade automática no emprego por serem macaenses. Mas a identidade pode ser uma vantagem; não substitui preparação, competência e mérito. As novas gerações têm de estar bem formadas, linguística e profissionalmente, para responder aos desafios de Macau.

 

Gilberto Camacho: identidade em metamorfose

Gilberto Camacho trouxe uma das intervenções mais densas do ponto de vista identitário. Falou de uma comunidade em metamorfose e reconheceu a dúvida que muitos podem sentir: será mais fácil afirmar-se como português, como chinês, ou continuar a assumir essa identidade misturada que é própria dos macaenses? Admitiu que integrar-se simplesmente na identidade maioritária chinesa pode parecer, para alguns, a opção mais cómoda. Mas foi precisamente contra essa simplificação que construiu a sua reflexão: a identidade macaense não deve desaparecer por conveniência, nem ficar presa ao passado; deve encontrar forma actual de continuar a existir.

A sua reflexão passou pela ideia de mistura – não como fraqueza, mas como essência. A identidade macaense vive na combinação entre português, chinês, inglês, patuá, família, história, humor, alimentação e formas próprias de estar. Essa capacidade de ser várias coisas ao mesmo tempo foi apresentada quase como uma força especial da comunidade.

Gilberto recordou a importância do português para compreender a história de Macau e a identidade macaense, mas sem negar o chinês e o inglês. Pelo contrário, defendeu que a comunicação tem de funcionar nos dois sentidos: quem sabe português deve aprender chinês; quem sabe chinês deve poder aproximar-se do português e da cultura macaense.

Um dos pontos mais interessantes foi a defesa do patuá como parte da alma da comunidade. Mesmo reconhecendo a importância de falar bem português, recusou a ideia de que o patuá seja apenas relíquia. Para Gilberto, é o “tempero secreto” da cultura macaense: talvez já não seja língua quotidiana generalizada, mas continua a carregar memória, humor e identidade.

Apontou também caminhos concretos: workshops de português adaptados a jovens que talvez tenham vergonha de falar; maior envolvimento de escolas e associações; promoção da cultura macaense na Grande Baía; espaços onde essa cultura possa ser apresentada de forma clara; e participação de associações não apenas de matriz portuguesa, mas também de outros sectores da sociedade local.

 

Elisabela Larrea: transmissão desde cedo

Elisabela Larrea reforçou a importância da transmissão desde cedo. A cultura macaense e lusófona não deve depender apenas de eventos pontuais ou comemorações. Tem de entrar nas escolas, nas associações e nos espaços de formação dos mais novos.

A sua preocupação foi explicar melhor às novas gerações o que está em causa: história, património, identidade, língua, cultura e legado. Não apenas como passado, mas como algo com utilidade no presente e no futuro. Valorizou ainda o papel das associações como portas de entrada para a comunidade, mas sublinhou que essa transmissão deve abrir-se cada vez mais à comunidade chinesa e a outros sectores de Macau.

 

Daniel Senna Fernandes: visibilidade e reinvenção

Daniel Senna Fernandes trouxe uma intervenção marcada pela urgência. Sublinhou que Macau tem um património intangível valioso – cultura, identidade, teatro em patuá, arquitectura, memória urbana e formas próprias de convivência – mas que muitas vezes a comunidade se sente pouco apoiada, pouco visível e até “órfã”.

Questionou a forma como Macau apresenta e comunica a sua diferença, dando exemplos ligados à arquitectura, à memória urbana e à Vila da Taipa. Numa época dominada pela comunicação visual, redes sociais e promoção turística, talvez seja necessário reinventar a forma como a cultura macaense é apresentada.

Daniel deixou claro que os macaenses não são simplesmente portugueses nem chineses: são uma realidade própria, nascida dessa convivência histórica. E essa singularidade, se for bem trabalhada, continua a ser parte essencial da diferença de Macau.

 

Carlos Marreiros: o risco autofágico

Carlos Marreiros trouxe uma nota de grande lucidez ao falar do risco de uma lógica autofágica dentro da própria comunidade: a tendência para consumir energia em divisões internas, disputas ou ressentimentos, em vez de a transformar em construção comum.

Essa observação tocou num problema recorrente das comunidades pequenas: quando não se organizam em torno de objectivos comuns, acabam por gastar demasiada força dentro de si próprias. Em vez de projectarem capacidade para fora, desgastam-se internamente.

Mas Carlos Marreiros trouxe também humildade e abertura. Reconheceu que, naquela tarde, aprendeu com estes “jovens/veteranos” – expressão feliz para uma geração intermédia que já não é propriamente jovem, mas que também ainda não pertence ao passado. É uma geração com experiência, conhecimento da comunidade e capacidade para contribuir, se lhe for dado espaço e responsabilidade.

 

O que fica

No conjunto, ficou claro que a renovação geracional não pode continuar a ser tratada como promessa indefinida. Há uma geração intermédia que já é presente e uma geração mais nova que precisa de ser chamada a tempo.

A identidade macaense e lusófona não pode ser reduzida a folclore, cerimónia ou memória. Vive nas línguas, nas famílias, nas escolas, nas associações, no patuá, na gastronomia, na arquitectura, na vida quotidiana e na capacidade de ligação entre comunidades.

A comunidade precisa também de se abrir mais: à comunidade chinesa, à Grande Baía, aos jovens de diferentes percursos, às novas linguagens e às novas formas de trabalhar. E, sobretudo, não basta debater. É preciso acompanhamento, coordenação e execução. Sem follow-up, a energia destes encontros perde-se rapidamente.

Macau tem raízes. Mas essas raízes só terão futuro se houver transmissão, abertura, liderança e capacidade concreta de fazer.

 

Rui Marcelo e António Monteiro: o mérito de quem fez acontecer

É justo deixar uma palavra de reconhecimento ao Conselho das Comunidades Portuguesas do Círculo da China, presidido por Rui Marcelo, que no final confessou estar feliz por a conferência ter superado as expectativas. Esse resultado deve também muito ao empenhamento contínuo de António Monteiro, Secretário-Geral do Instituto Internacional de Macau. Os dois ajudaram a fazer acontecer uma iniciativa pioneira. O verdadeiro teste começa agora: transformar a energia deste encontro em continuidade, coordenação e trabalho concreto. Porque abrir espaço ao diálogo é importante; garantir que ele produz caminho é ainda mais decisivo.

 

*Antigo Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM)