Júlia Serra*
Júlia Serra*

Na obra “Figuras de Jade IV”, da autoria do ilustre investigador António Aresta, alguns textos dessas “figuras” aguçaram-me a curiosidade e puseram-me no encalço da ação desenvolvida ao longo dos seus percursos de vida e já esboçada na obra supracitada. Um dos nomes que me surpreendeu foi o de Rafael Ávila de Azevedo (RAA) [1911-1985], açoriano de Angra do Heroísmo que se licenciou em filologia românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, após o Exame de Estado, começou a lecionar no Liceu de Angra do Heroísmo.

A sua carreira como docente foi repartida entre Portugal, Angola, França e Macau, tendo-se distinguido pela problematização em torno da filosofia de educação de matriz portuguesa em África, com intuito de conceber um novo humanismo, fundamentado nos valores africanos e integrando as inovações de vários ramos científicos ancorados na civilização clássica.

Em Macau, lecionou a cadeira de Cultura Portuguesa, entre 1982 e 1984, na Universidade da Ásia Oriental. Em novembro de 1984, com a chancela do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, publicou o livro “A Influência da Cultura Portuguesa em Macau” que se transformou num ícone da cultura macaense. O livro é composto por quinze capítulos, a saber: introdução; o ensino das ordens religiosas: a acção dos jesuítas; o ensino de outras ordens religiosas: agostinhos, dominicanos, franciscanos e claristas; novos caminhos da cultura portuguesa; a presença de Camões em Macau; a literatura de língua portuguesa em Macau; a língua de Macau; o jornalismo em Macau; os escritores do século XIX; o ensino das congregações nos séculos XIX e XX; o apostolado da instrução; a acção cultural do Liceu de Macau; a arquitectura portuguesa em Macau; Macau e a literatura portuguesa no século XX e a influência da cultura portuguesa na actualidade; a concluir, há uma antologia onde constam textos de autores macaenses e residentes em Macau – Venceslau de Morais, José Penajoia, Oseo Acconci, Luís Gonzaga Gomes e Manuel da Silva Mendes.

Pretende o autor, Rafael Ávila de Azevedo (RAA), analisar, nesta obra, a influência da colonização portuguesa na formação cultural, espiritual e social e, sobretudo, o reflexo na formação linguística em Macau.

Após a chegada dos Portugueses, em 1557, “os mandarins e comerciantes de Macau obtiveram a sanção imperial para que se fixassem no pequeno território” (p.8). Apesar de haver mais gente, os portugueses tiveram muitas dificuldades e privações, vivendo em cabanas de junco e, só mais tarde, erigiram construções em madeira. A população foi crescendo e, poucos anos após, contavam-se novecentos portugueses e muitos chineses, o que revela a existência de população diversa e culturas diferentes. Paulatinamente, Macau transformou-se num grande empório comercial onde chegavam as mercadorias que se destinavam à China, Japão, Filipinas e Formosa.

Com a chegada dos navegadores, aportaram também aí os Jesuítas com intuito de evangelizar e de desenvolver uma cultura humanística, sendo considerados os pioneiros da evolução da cultura portuguesa em Macau. Nos finais do séc. XVI, os jesuítas já construíam um colégio “que conferia graus académicos a eclesiásticos e a leigos”, sendo o Colégio de Macau um local de instrução e de aperfeiçoamento no campo das artes. Para além disso, estavam agregadas ao colégio outras afinidades, como lojas e farmácia “botica”, contribuindo toda esta ação conjunta para o progresso e expansão do território.

Outras ordens, com o beneplácito de Lisboa aí se instalaram – Dominicanos e Agostinhos – que se tornaram adversários dos Jesuítas e, após disputas, os monges destas duas ordens foram presos. Encontrava-se, então, Macau na vanguarda do Cristianismo no Oriente, graças à ingente obra dos Jesuítas, e um espaço de cultura portuguesa reconhecido, o que não significava que os falantes sabiam exprimir-se corretamente em português. Foi este o aspecto que mais interessou a RAA para a elaboração da sua obra pois, apesar do empenho, os nativos não aderiam à aprendizagem da língua portuguesa usando o seu dialeto Patoá e, como segunda língua, o inglês, sendo o português utilizado por uma minoria, particularmente, por aqueles que chegavam de Portugal.

Uma das instituições mais significativas construídas pelos Jesuítas foi o Seminário de S. José inaugurado em 1728, com igreja anexa erigida em 1758 – foi até à expulsão dos Jesuítas (1762) o principal polo de cultura portuguesa. Após a expulsão dos jesuítas, o Seminário passou por períodos de decadência até ao séc. XIX. Segundo informação de RAA, em 1862, há uma nova viragem, “passando novamente o Seminário à superintendência dos Jesuítas. Foram internados 41 pensionistas e os externos atingiram o número de 150. Além das aulas de primeiras letras misturava-se o ensino de português e de outras disciplinas como o latim, francês, inglês, filosofia racional e moral. Os professores eram, na sua maioria, de nacionalidade portuguesa, o que reafirmava a presença da nossa cultura em Macau.” (p. 18) Assim, o número de educandos foi crescendo e, em 1864 frequentavam o Seminário 216 alunos. Mais tarde, o próprio Senado decidiu promover a educação pública, tendo em muito contribuído para a autonomia administrativa de Macau.

A presença de Camões, em Macau, foi assinalada por um documento que se refere aos “penedos de Camões” – é um título do cartório dos Jesuítas, de meados do séc. XVIII (1747), em que se incluem nos rendimentos do colégio 280 pardaus provenientes do “chão do campo de Patanes aos penedos de Camões”. (p.31) Além de poeta, Camões passou a ser venerado no seu Jardim e na Gruta que são pontos obrigatórios do Roteiro Turístico e de Homenagem Cultural no território, na data de 10 de Junho – Dia de Portugal. Além do nosso épico, outros grandes epígonos literários se destacaram – Camilo Pessanha, Venceslau de Morais, Bocage, Manuel Mendes – como cultores da língua portuguesa.

E a língua de Macau estudada pelo nosso autor RAA? Nas suas intenções, a língua ou patois de Macau atraiu a atenção dos filólogos portugueses, tendo-os despertado para a investigação, nomeando o Professor Francisco Adolfo Coelho que se interessou pelo estudo dos crioulos, dada a hibridez de povos oriundos de países diferentes e continentes diversos (África, Brasil, Ásia). Na sua peugada, surgiram outros investigadores José Leite de Vasconcelos e, mais tarde, a célebre linguista Graciete Nogueira Batalha, professora no Liceu Infante D. Henrique. O estudo do dialeto de Macau expandiu-se por outros linguistas estrangeiros, nomeadamente, Alan Baxter; felizmente, hoje, há a aprendizagem do português como língua materna e não materna na Escola Portuguesa de Macau, nas escolas Luso-Chinesas. Houve uma evolução diacrónica da Língua Portuguesa e da sua influência em Macau e traduz-se, no presente, no aumento de alunos interessados no português, quer a nível da aprendizagem básica, quer em níveis e graus superiores – esta borbotância linguística e literária não menosprezou o patois e os seus “cultivadores” – caso de Adé.

O estudo da língua abrange várias vertentes: escrita, fonética e fonologia, morfologia, sintaxe e lexicologia, pelo que se torna impossível concentrar, neste texto, uma abordagem profunda e concretizá-la com trechos, remetendo estas “curiosidades” para outros hipotéticos textos. Vamos, então, aos atos de fala e aos seus órgãos articuladores – observa-se uma economia ou simplificação da articulação na falta do fonema no fim da palavra; do glossário chinês-português: africada [ʧ] tchang [´ʧaɳ]ʻchãoʼ, [s] em lugar de [ʃ] pei-si [pe´si] ʻpeixeʼ, l em lugar de [λ] fei-lou [´fêlo] ´filho´ e a sequência vogal + [ɳ] em vez da vogal nasal ou ditongo nasal [´teɳ] ´ter, tem´. A língua chinesa também influiu na reestruturação silábica das palavras portuguesas, como se pode verificar pelos exemplos: i-lei-mang ʻirmãoʼ e so-ku-la ʻsograʼ e no caso do tratamento da consoante [r) que diminui/elimina a posição mais implosiva pó-tá ʻportaʼ e na posição plosiva corresponde a um lateral líquido lou-á ʻruaʼ (Baxter, 2009). Vou terminar este artigo com versos de José dos Santos Ferreira “Adé”, Poéma di Macau

Pa vós , Macau quirido, pequinino,

Nésga di chám pa Dios abençoado,

Macau cristám, qui força di destino

Já botá na caminho alumiado;

Pa vês,iou pensá vém co devoção,

Rabiscá unga poema di amór,

Enfeitado co vós no coraçám,

Pa tém mercê di bénça di sinhór.

 

Segue-se a tradução feita pelo próprio poeta: “Para ti, Macau querida e pequenina/Nesga de terra por Deus abençoada/ Macau cristão, que a força(?) do destino/colocou no caminho iluminado;/Para ti, pensei vir com devoção, /Compor um poema de amor, /Contigo enfeitado no coração, / E assim merecer a bênção do Senhor” (p.59)

Foram apenas retratadas algumas peculiaridades da Língua Portuguesa e da sua influência em Macau, mas não fiz senão uma breve incursão na vertente linguística, pela natureza do texto e com receio de entediar o leitor e de o aprisionar a uma complexa teia linguística.

Aconselho, no entanto, a leitura da obra de Rafael Ávila de Azevedo a todos os que se interessam por cotejar textos literários e apreciar traduções.

Uma obra que ajuda a conhecer a História de Macau e a reconhecer o trabalho de quem dedicou a vida aos problemas da Educação e do Ensino, com vista à transformação de uma cultura mais humanista e aberta ao Outro.

A Influência da Cultura Portuguesa em Macau é uma obra perene que explica como se geraram identidades no seio do hibridismo cultural e como se processou, através empoderamento linguístico, uma mais-valia para os desafios do Futuro.

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau