No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos não apenas a história, a cultura e a língua portuguesa, mas também a capacidade única que essa língua continua a ter de unir povos, geografias e civilizações diferentes.

Em Macau, essa realidade ganhou uma expressão particularmente simbólica em Outubro de 2006, com a realização da primeira edição dos Jogos da Lusofonia. Passados quase vinte anos, continuo a considerar esse momento como um dos mais significativos da afirmação de Macau enquanto plataforma de encontro entre culturas.
Sob o lema “Quatro continentes, uma língua, unidos pelo desporto”, os Jogos reuniram jovens atletas oriundos da Ásia, África, Europa e América do Sul, demonstrando que a língua portuguesa podia ser muito mais do que um património histórico ou cultural. Podia ser também uma ponte humana.
Quando o desporto une pessoas
Naquele tempo, Macau vivia igualmente uma fase importante da sua afirmação internacional, acompanhando a visão estratégica lançada por Pequim através do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Mas enquanto a economia aproxima mercados, o desporto aproxima pessoas.
E essa talvez seja uma das formas mais importantes de diplomacia contemporânea.
A diplomacia silenciosa
Ao longo da minha vida ligada ao movimento desportivo lusófono, aprendi que o desporto possui uma capacidade extraordinária de criar entendimento silencioso entre povos diferentes. Antes de existirem acordos, existe confiança. Antes da cooperação política, existe conhecimento humano. E o desporto cria precisamente esse espaço de convivência, respeito e aproximação.
Mais do que uma competição
Os Jogos da Lusofonia representaram isso mesmo. Não foram apenas uma competição desportiva. Foram uma manifestação concreta de amizade entre juventudes de diferentes continentes, culturas e realidades sociais. Foram também uma demonstração daquilo que Macau consegue fazer de melhor: acolher, aproximar e criar diálogo.
O valor do voluntariado
Existe, porém, um aspecto desses Jogos que merece igualmente ser recordado e valorizado.
Na preparação e realização do evento, Macau contou com uma participação muito significativa de voluntários de diferentes nacionalidades residentes na RAEM. Jovens e adultos, chineses e portugueses, macaenses e membros de outras comunidades uniram-se com um notável espírito de dedicação, devoção e sentido de missão comum.
Mais do que apoiar uma organização desportiva, esses voluntários sentiram que estavam a participar num projecto colectivo que representava Macau perante o mundo.
O legado da coesão social
Esse envolvimento humano constituiu talvez uma das heranças mais belas dos Jogos da Lusofonia. Durante aqueles dias, a diversidade cultural da cidade transformou-se numa verdadeira força de coesão social. Pessoas de diferentes origens trabalharam lado a lado, partilharam responsabilidades, criaram amizades e demonstraram que Macau possui uma rara capacidade de convivência harmoniosa entre culturas.
Talvez esse tenha sido um dos maiores legados dos Jogos: mostrar que a diversidade, quando vivida com espírito de participação e respeito mútuo, não divide; fortalece. E Macau soube demonstrá-lo de forma exemplar.
A identidade multicultural de Macau
Enquanto macaense, sempre senti que a verdadeira riqueza de Macau reside precisamente na sua identidade multicultural. Macau não pertence apenas ao Oriente ou ao Ocidente. Pertence ao encontro entre ambos. E talvez por isso continue a ter uma vocação única para construir pontes num mundo cada vez mais fragmentado.
Leo: um símbolo de Macau
Recordo, ainda hoje, o simbolismo do mascote “Leo”, inspirado no signo chinês do cão. O nome possuía uma pronúncia semelhante em português e mandarim e, em cantonês, aproximava-se de uma expressão de boas-vindas a Macau. Era um pequeno detalhe, mas revelador da própria alma da cidade: diferentes culturas a encontrarem formas naturais de comunicação e entendimento.
Vinte anos depois
Vinte anos depois, o mundo mudou profundamente. Vivemos tempos marcados por tensões geopolíticas, desconfiança internacional e novas divisões. Talvez por isso os valores representados pelos Jogos da Lusofonia sejam hoje ainda mais actuais.
Continuo a acreditar que o desporto pode desempenhar um papel decisivo na aproximação entre povos, sobretudo junto das novas gerações. O intercâmbio cultural, linguístico e desportivo continua a ser uma das formas mais eficazes de promover amizade, partilha de experiências e oportunidades de futuro.
Macau ainda pode liderar esse caminho.
A lusofonia continua actual. O desporto continua universal. E os jovens continuam a precisar de novas pontes.
* Analista independente do desporto e consultor em desenvolvimento regional. Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo.



