Albano Martins*
Albano Martins*

1. Como suspeitava, com o novo inquérito às despesas familiares, o peso do sector “habitação e combustíveis” no Índice de Preços no Consumidor aumentou substancialmente (de 26,7 para 33,75 por cento), sendo que as componentes “rendas imputadas à habitação” e “rendas de casa efectivamente pagas” viram os seus pesos subir significativamente também, para 23,91 e 3,68 por cento, respectivamente, quando antigamente eram de apenas 19,76 e 1,84 por cento.

Ou seja, agora as variações das rendas passam a influenciar mais a inflação local, para o bem ou para o mal.

Foi pena que essa realidade, que tanta vez fiz questão de retratar nestes desatinados, tivesse de esperar tanto tempo para ver a luz!

Outubro, tal como havia previsto, viu a inflação continuar a descer para 2,82 por cento. Sou bruxo.

Em Novembro poderá estar em 2,79 e no final do ano em 2,78 por cento. Ou seja abaixo do ano passado (3,01) mas mais do que o dobro do atingido em 2017 (1,23)!

 

2. Se os funcionários públicos forem aumentados em 2020 na ordem dos 3,4 por cento como se leu recentemente, mesmo assim não terão recuperado o poder de compra do seu salário no início da RAEM.

Estou com o Pereira Coutinho, pois terão mesmo assim perdido cerca de 4,62 por cento do poder de compra se a inflação for de 2,78 por cento este ano e de 2,5 por cento em 2020.

Dois exemplos, um salário de 25 mil patacas e outro de 15 mil patacas teriam poderes de compra equivalentes a 23.785 e 14.271 patacas quando comparados com o início da RAEM.

Chama-se a isso também “ilusão monetária”!

Muito mais dinheiro no bolso mas com menos poder de compra.

E o resto da maralha que não é funcionário público?

Estão entregues ao Deus-Dará, sabido que por estas bandas a fraternidade pouco conta no vocabulário da praxis desta terra que curiosamente alguém ousou chamá-la do Santo Nome de Deus.

Um sacrilégio.

 

3. Várias vezes escrevi sobre isso e várias vezes também reconheci que muitas vezes escrevo sobre a água como o nosso saudoso Abelaira.

Vejam que pela lei das relações de trabalho de Macau (artigo 42.1) todos os trabalhadores têm direito a gozar um período de descanso remunerado de 24 horas consecutivas por semana.

Portanto, preto no branco diz-se que as pessoas têm direito a um descanso semanal e que esse dia é pago.

Agora vejam como se calcula, à revelia dessa lei geral, na minha humilde opinião de economista e financeiro e não de jurista, o salário dos trabalhadores de limpeza e de segurança. Como recebem por hora 32 patacas, recebem por dia (cada dia 8 horas) 256 patacas. Correcto.

Agora como é que essas aves raras dos nossos legisladores e empresários do ramo, calculam o salário mensal desses trabalhadores?

Multiplicam esse salário diário por 30 dias ou por 26 dias, não considerando neste último caso os quatro dias de descanso semanal por mês?

Pois, como recebem 6.656 patacas, como aliás aparece claramente dito na imprensa, então o salário diário é multiplicado por 26 dias e não por 30. Portanto, não recebem o dia de folga obrigatório por lei.

Deveriam receber 7.680 patacas mensais se a lei geral fosse cumprida.

Toda a gente chuta para o lado ou para trás ou para fora das quatro linhas. Ninguém quer chutar para a frente!

Uma violência contra os mais desprotegidos!

A juntar-se a outra violência quando dizem que como estamos em recessão esses trabalhadores não devem receber aumentos salariais, como se a recessão significasse deflação.

Estamos em recessão com inflação, meus senhores, não com deflação. E a inflação come.

Digam-me agora meus caros senhores então nos três anos em que se esteve em expansão, aumentaram-se os salários dessa gente? Em três anos cheios de inflação, aumentaram-se salários?

Não me lembro, mas se calhar ando esquecido da caridade dessas gentes de bem.

Uma clara falta de sensibilidade para com quem recebe salários miseráveis para que alguns possam meter ao bolso mais umas migalhas que nunca na sua vida por este planeta fora vão ser gastas.

 

4. Vejam mais esta beleza vinda das leis laborais, feitas por quem não conhece a realidade do trabalho nem a vida das empresas.

Para esses juristas os meses têm todos 30 dias, quer no cálculo do salário inicial, quer no cálculo do último salário, quer ainda no cálculo do salário do mês, como se o ano tivesse 30 dias multiplicado por doze meses!

Vejam as aberrações dessa fórmula quando aplicada em casos concretos.

Exemplo 1-um trabalhador começa a trabalhar no dia 27 de Fevereiro. O seu salário mensal é de 30 mil patacas. Quanto recebe no mês? 30.000x27dias/30 dias ou seja 27 mil patacas. Quanto deveria receber no entender de um financeiro? 30.000×27/28 dias se não fosse ano bissexto. Ou seja 28.928,60! Fica a perder.

Exemplo 2-Sai no dia 27 de Fevereiro. Quanto recebe nesse mês? 30.000×27/30 ou seja 27 mil patacas. Quanto deveria receber? 30.000×27/28 dias ou seja 28.928,60! Fica a perder.

Exemplo 3-Sai no dia 31 de Outubro mas falta ao último dia de trabalho. Quanto recebe e quanto deveria receber? Recebe o salário total, pois o salário é calculado com base em trinta dias de trabalho. E ele trabalhou trinta dias de trabalho. Como faltou no último dia de trabalho, um financeiro faria 30.000×30/31 dias do mês de Outubro! Ou seja pagava-lhe 29.032,30. Fica beneficiado.

Exemplo 4-Entra ao trabalho no dia 31 do mês de Outubro. Recebe 30.000×1/30 ou seja 1.000 patacas quando deveria receber 30.000×1/31 ou seja 967,70 patacas. Fica beneficiado!

Enfim, o mundo não é perfeito e não vale a pena esquecer que os meses também não o são.

O bom senso deve comandar a vida.

Sempre!

 

5. A piada do século: “PSD questiona o Governo sobre o ‘mau funcionamento’ dos postos consulares”.

Cesário, que não é verde, e isso ainda justificaria a boca descarada, mas seria uma ofensa para o nosso outro Verde, Cesário também de nome, é preciso mesmo muita lata!

 

6. Há dias falava-se nas indústrias culturais e dizia-se que não tinham equilíbrio financeiro.

Pois, deixem que vos lembre o ABC de qualquer indústria: para se ter equilíbrio financeiro é preciso vendas!

Mas não só, claro!

 

7. Estamos em recessão. Desde o final do segundo trimestre.

Os roubos e os crimes multiplicam-se um pouco por todo o lado. Mas também acontecia isso na expansão. Sejamos intelectualmente honestos. Felizmente a maioria junto da área do jogo.

Os mafiosos experimentam as nossas polícias. Têm-se lixado. Mas o bom senso também ensina que o que é apanhado é talvez uma pequena parte do que vai acontecendo um pouco por todo o lado. O que nos deixa preocupado.

A recessão explica muita coisa mas se calhar não tudo.

Até as associações de protecção de animais vêem as suas caixas de donativos roubadas.

O pobre do endividado ou do que perdeu tudo ao jogo ou do que precisa de drogas para o seu vício, vai roubando-as um pouco por todo o lado.

E a polícia apanha-os? Nem sabe sequer de muitos desses episódios, pois quando essa situação acontece as pequenas empresas onde essas caixas estão colocadas pedem pela Virgem Maria para não informar a polícia.

Que raio, mas por que não? Simples meus amigos, os seus trabalhadores têm de se deslocar às esquadras e a empresa se é micro ou pequeníssima, como a maioria em Macau, tem de fechar as portas nesse dia para reportar o roubo.

Muitas preferem indemnizar a perderem meio dia numa esquadra.

Fica a pergunta para o nosso Secretário na sua grande e abençoada cruzada contra a bandidagem: por que não uma brigada móvel que se desloque aos locais e evite o Zé Povinho ter de ir à esquadra? Ficariam a conhecer muita da outra realidade que não apenas a próxima dos casinos.

Se calhar ficariam chocados!

 

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras