João Botas*
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A 7 de Novembro de 1926 foi inaugurada na zona de Mong Há a primeira Feira Industrial de Macau “sob o alto patrocínio do Governo de Macau”. Ocupou uma área de 8 hectares (quarteirão entre as avenidas Coronel Mesquita, Horta e Costa e Conselheiro Ferreira de Almeida, frente ao templo de Kun Iam Tong) e teve 289.537 visitantes. De acordo com relatos da época o “número de forasteiros foi superior a 90 mil”. O evento era o reflexo da enorme prosperidade económica da época.
Henrique de Senna Fernandes, conhecido escritor e advogado macaense recorda: “O Porto Exterior não se revelara ainda o estrondoso falhanço que foi: os relatórios dos responsáveis auguravam um movimento de barcos de grande cabotagem, em manifestações oníricas de grandeza. A indústria de pesca crescia, impressionante. Na Capitania dos Portos estavam registadas mais de mil embarcações. Falava-se muito na modernização de Macau, em tirá-lo do isolamento duma cidade mediterrânica incrustada na China para transformá-lo em burgo activo de arcabouço americano”.
Nesse ano foram finalizados os primeiros aterros do Porto Exterior e o território pretendia mostrar-se ao mundo, em especial a Hong Kong, então vizinha colónia britânica. O Porto Interior também sofrera entretanto profundas obras para que passasse a receber embarcações de maior envergadura.
Efectuavam-se carreiras diárias de vapores para Hong Kong e Cantão. Para piqueniques e excursões à Taipa ou Coloane, lanchas-motoras podiam ser alugadas (até 15 passageiros). Para isso, os interessados deviam contactar o Port Works Department com uma hora de antecedência no nº 39 da Praia Grande ou através do telefone nº 340, ou ainda a Doca de Patane com o telefone nº 343. Uma hora de viagem custava 4$90 acrescida de mais uma pataca por cada hora de espera. Garantido os serviços por um total de 10 horas custava 42 patacas.
A Exposição/Feira Industrial de âmbito internacional foi inaugurada pelo Almirante Hugo Lacerda na qualidade de governador interino, embora a ideia remonte ao governo de Rodrigo Rodrigues. Na área do recinto construíram-se 60 pavilhões, na maior parte de estilo oriental, mas havia também alguns com características portuguesas, inglesas e holandesas (moinho tradicional incluído). Havia ainda o pavilhão Portugal/Oriente, a Livraria Portugália, teatro, cinematógrafo, jogos desportivos, um grande lago com passeios de barco, teatro (de uma companhia de Manila e outras da China) “roda eléctrica, carrossel, loto, rifas, roletas de recreio com prémios”, “barracas de prestidigitação”, tiro ao alvo, tômbola “e muitos outros divertimentos”, alguns deles oriundos das Filipinas. Em apenas três dias o “Parque de Diversões” teve 15 mil visitantes.
Entre os “Pavilhões da Comissão Organizadora” contavam-se o Pavilhão do Comissariado (serviços de correio, informações, telefone, reclamações e serviços bancários), dois Pavilhões Gerais (mostra de produtos fabricados no território), o Pavilhão de Fotografia (exposição de fotografias do porto, paisagens e costumes locais), um pavilhão museu (mostra dos objectos para o projectado museu local e de colecções particulares), o Pavilhão Salvação (dos serviços de incêndios), o Pavilhão Cinematógrafo (com exibição de produções nacionais e estrangeiras), o Pavilhão Auto China (representação de peças por “afamadas companhias teatrais chinesas”), o Pavilhão Escola (exposição de trabalhos manuais das escolas chinesas) e o Pavilhão Sports (jogos promovidos pelo Sporting Club de Macau).
Os expositores locais marcaram forte presença (597 expositores) evidenciando-se a indústria da pesca, a conserva de peixe tradicional e em lata, os curtumes e o calçado, os fósforos e panchões, papel e tabaco e os produtos têxteis.
A título de curiosidade refira-se um dos expositores locais: a “Garage Progresso e Popular”. Aluguer de veículos. Automóvel de 6 assentos 1 corrida até 1/4 de hora $1,50. Automóvel de 4 assentos 1 corrida até 1/4 de hora $1,00.
Segundo dados publicados na imprensa da época a organização do certame terá custado mais de 50 mil patacas. “Nos territórios vizinhos foram afixados profusamente artísticos cartazes anunciadores e distribuídos 10 mil prospectos”. Em inglês foi redigido um guia da cidade com mais de 50 páginas.
O evento durou cerca de um mês (terminou a 6 de Dezembro) e foi um marco para a vida económica e social do território. De acordo com Monsenhor Manuel Teixeira a organização ainda obteve lucros no valor de 746 patacas.
Data dessa época uma fotografia bastante conhecida e pouco habitual que retrata um comboio em Macau. Na imagem pode ler-se a expressão “Fabricado em Macau”. A ideia de uma linha de comboio que ligasse Macau à China foi pensada no início do século XX mas nunca passou do papel. A locomotiva a que me refiro foi utilizada nos trabalhos do porto, a grande obra da década de 1920 no território.
Nesse ano, para além de diversos livros alusivos ao evento, foram impressos diversos postais e houve ainda a emissão especial de um selo. Circulou ainda um sobrescrito com um selo Ceres de 2 avos de Macau com sobrecarga local e com etiqueta de propaganda.
* Jornalista, autor do blog Macau Antigo (http://macauantigo.blogspot.com) e alguns livros sobre a história de Macau e antigo residente no território.



