A recente volatilidade e subida contínua dos preços internacionais dos combustíveis têm vindo a agravar o encargo operacional da Air Macau, uma vez que os custos com combustível representam mais de 40% das suas despesas operacionais. Face ao aumento significativo de custos, a Air Macau tem vindo a responder com o aumento das sobretaxas de combustível e a redução ou cancelamento de voos com baixa ocupação, numa tentativa de controlar os prejuízos.
Contudo, esta estratégia passiva provocou um ciclo negativo, sendo que o aumento do preço dos bilhetes tem enfraquecido a procura de deslocação, levando muitos passageiros das rotas asiáticas a transferirem-se para aeroportos vizinhos como Hong Kong e Shenzhen, resultando numa quebra na quota de mercado. A companhia encontra-se assim num dilema operacional de “aumentar preços, perder passageiros, ou reduzir voos, perder mercado”.
Os dados operacionais mostram que a taxa de ocupação da Air Macau registou uma tendência de subida em 2024, com a procura a crescer de forma estável à medida que o turismo na região Ásia-Pacífico conseguiu uma recuperação. No entanto, a idade média da frota atingiu 8,54 anos, o que se traduz num consumo de combustível 20% superior ao de aeronaves de nova geração com baixo consumo energético, agravando a pressão operacional resultante da subida do preço dos combustíveis. A mera redução de voos, o ajuste das sobretaxas de combustível, entre outros modelos com vista a controlar os custos, já não são suficientes para resolver as dificuldades operacionais fundamentais da empresa.
Tomámos como referência a experiência de outras transportadoras das regiões vizinhas. Por exemplo, a Cathay Pacific utiliza mecanismos de cobertura de combustível para garantir cerca de 30% ou mais da sua procura anual de combustível, mitigando eficazmente o risco de volatilidade dos preços. Já a Hong Kong Airlines optimizou a sua estrutura operacional, recorrendo a receitas auxiliares diversificadas para compensar a lacuna na margem de lucro da actividade principal.
Por sua vez, as principais companhias aéreas da Ásia Oriental estão a acelerar a renovação das suas frotas, substituindo-as, nas rotas regionais, por modelos mais capazes na poupança de energia. Desse modo, conseguiram reduzir, em geral, o consumo de combustível em 30%, o que permite reduzir custos e aumentar a eficiência, o que deve servir de uma referência para a Air Macau.
Considero que, para ultrapassar as dificuldades operacionais, a Air Macau deve optimizar as suas estratégias operacionais em várias frentes. Em relação à rede de aviação e à capacidade de transporte aéreo, deve persistir no princípio de “garantir o essencial e ajustar a margem”, estabilizando a frequência de voos das rotas mais procuradas no Nordeste e Sudeste Asiáticos, fundindo voos com baixa rentabilidade e evitando o cancelamento de rotas que possa provocar perda de direitos aéreos e de passageiros.
Em termos do controlo de risco de custos, é melhor seguir o exemplo em regiões vizinhas, fixando antecipadamente o preço para 30% a 40% das necessidades anuais de combustível, por forma a atenuar o impacto da volatilidade dos preços. Por outro lado, no que respeita às receitas operacionais, deve introduzir tarifas diferenciadas e pacotes turísticos para estabilizar a clientela. Ao mesmo tempo, pode expandir receitas complementares provenientes do despacho de bagagem e dos serviços personalizados a bordo para compensar os aumentos de custos.
Quanto ao planeamento de longo prazo, é importante recorrer ao regime de leasing para substituir as aeronaves mais antigas, e aprofundar a partilha de códigos e a colaboração de recursos com a Air China e outras transportadoras regionais, diluindo assim os custos operacionais de forma abrangente.
Além disso, o Governo da RAEM deve lançar medidas de apoio específicas para ajudar a Air Macau a superar estes momentos difíceis. Por exemplo, a curto prazo, pode criar um subsídio específico de ajustamento de combustível para aliviar a pressão de custos com o aumento do preço dos combustíveis.
A médio prazo, deve reforçar a atracção de clientes, concedendo subsídios operacionais às principais rotas asiáticas e promovendo, em articulação com os recursos turísticos locais, ofertas com “bilhete de voo + hotel”, para aumentar a taxa de ocupação. A longo prazo, deve procurar a capacitação da indústria através de apoiar a utilização de combustíveis que poupam energia e a modernização da frota, de modo a permitir à empresa reduzir custos de forma duradoura.
Em geral, a crise gerada pela subida dos preços internacionais dos combustíveis representa tanto um desafio operacional de curto prazo como uma oportunidade para a Air Macau se transformar e actualizar.
Através de uma optimização proactiva das operações, controlo de custos e alargamento das fontes de receita por parte da empresa, assim como políticas de apoio precisas e multidimensionais lançadas por parte do Governo, será possível ultrapassar as dificuldades operacionais, estabilizar o mercado da aviação de Macau, salvaguardar a sua posição de hub de transporte aéreo regional, e suportar o desenvolvimento estável do sector turístico local e da diversificação económica da RAEM.
*Presidente da Associação de Estudos Sintético Social de Macau



