João Figueira *
Leio no último número da revista Brasileiros uma peça que não só me surpreende, como me põe a pensar sobre a importância das decisões políticas. A notícia em causa refere-se ao Festival de Música nas Montanhas, que encerrou no sábado passado, em Poços de Caldas, Minas Gerais. A iniciativa vai na 15ª edição e ao longo das duas semanas que durou recebeu mais de mil músicos do país e do estrangeiro, que foram vistos por cerca de 20 mil pessoas. Do seu programa constaram 45 oficinas de música sobre todos os instrumentos orquestrais, além de 40 concertos gratuitos divididos em três modalidades e que levaram a música a locais tão improváveis como lares de terceira idade, hospitais, igrejas e a vários pontos das zonas rurais. Informa a directora do Festival, Raquel Mantovani, que desde a primeira edição o número de professores do Festival quadruplicou e o de alunos aumentou 10 vezes. Hoje o Festival atrai alunos e professores dos Estados Unidos, Europa e de vários países da América Latina.
Leio esta notícia pouco depois de ter ouvido mais um ministro do actual governo português justificar a escandalosa diminuição no apoio às bolsas de doutoramento e pós-doc, cujos números são tristemente semelhantes aos de 1994. Um recuo de 20 anos, portanto. Leio a notícia sobre o Festival de Música nas Montanhas, pouco depois de ter lido num outro jornal, a proposta de uns rapazolas do CDS a defenderem o regresso do ensino obrigatório ao 9º ano. Leio tudo isto e ocorre-me Octavio Paz: “se os líderes lessem poesia seriam mais sábios”.
Um País, uma nação é uma soma de conhecimento. Robert Fisk, esse enorme jornalista que em 1975 foi viver para o Médio Oriente e desde então tem escrito e publicado na imprensa inglesa, designadamente no The Independent, algumas das mais lúcidas e notáveis reportagens sobre aquela zona do mundo, não se cansa de dizer que o livro de História é o apetrecho mais importante que um jornalista deve levar consigo. Desconhecer a História é desconhecer o passado e, assim, não ter perspectiva alguma sobre futuro. Como diria Cícero: é como se fôssemos eternamente crianças.
É isso, no fundo, que muitos dos políticos que hoje governam os países são: crianças – sem o encanto e a ingenuidade da infância. Limitam-se a bolsar frases sem sentido e a assinar decretos que eles próprios não entendem muito bem. E mesmo quando entendem que uma dada medida é injusta, insensata e contraria a sua consciência, mesmo assim, por dever de lealdade – expressão que na linguagem popular significa defender o tacho – como sucedeu há dias no Parlamento português a propósito da questão da co-adopção, mesmo assim, eles brincam com todos nós, como se fôssemos meras peças de lego que eles mudam de sítio ou nos arrumam numa qualquer dispensa após as eleições.
Um país que tem a média mais baixa de escolaridade entre a sua estrutura empresarial e que, mesmo assim, insiste em baixar a fasquia da investigação, com o pretexto de que os investigadores e a ciência devem unicamente servir os interesses dessas mesmas empresas é um país condenado, com a desvantagem de os seus algozes lavarem as mãos e ficarem incólumes com o desastre das suas decisões.
Deve ser a isto que se referem aquelas vozes quando falam na falência da política. Para esses políticos ignorantes e pretensamente cheios de realidade em tudo o que dizem, Franz Liszt e Rachmaninoff, autores que foram celebrados no concerto de encerramento do Festival de Música nas Montanhas, são uma qualquer dupla de centrais comprados no mercado futebolístico de inverno.
* Professor de Jornalismo na Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau.




