Pedro Nolasco da Silva [1842-1912] é uma das figuras de maior prestígio da comunidade portuguesa de Macau. Nestas páginas já tracei as linhas principais da sua biografia, os lances maiores da sua trajectória profissional e cívica, os combates que travou em prol da dignificação da comunidade portuguesa, incluindo um inusitado comício a que presidiu nos idos de 1909, meticulosamente registado num artigo de Manuel da Silva Mendes, publicado jornal “Vida Nova”, de 9 de Maio de 1909.

De recordar ainda a activa e interventiva faceta de jornalista de Pedro Nolasco da Silva, na imprensa de Hong Kong [‘Hong Kong Daily Press’ e ‘Echo do Povo’] e na de Macau [‘O Macaense’ e ‘Echo Macaense’].
Irei evocá-lo como pedagogo visionário e propugnador do ensino da língua chinesa junto da comunidade portuguesa. Pedro Nolasco da Silva [PNS] foi professor da língua chinesa, desempenhou as funções de Inspector da Instrução Pública e de Presidente da Junta Escolar de Macau e está no núcleo fundador da APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. PNS fez mais sozinho do que os sucessivos governos do Território quanto ao ensino e à difusão da língua chinesa.
E os livros que publicou simbolizam bem esse propósito: “Círculo de Conhecimentos em Português e China – para uso dos que principiam a aprender a língua china”, 1884; “Frases Usuais nos Dialectos de Cantão e Pequim”, 1884; “Gramática Prática da Língua Chinesa”, 1886; “Vocabulário e Frases dos Dialectos de Cantão e Pequim para uso dos alunos da Escola Central de Macau”, 1889; “Compilação de Frases Usuais e de Diálogos nos Dialectos de Pequim e Cantão para uso dos alunos da Escola Central de Macau”, 1894; “Os Rudimentos da Língua Chinesa para uso dos alunos da Escola Central do sexo masculino”, 1895; “Manual de Língua Sínica Escrita e Falada – 2ª parte”, 1901; “Manual da Língua Sínica Escrita e Falada – 1ª parte”, 1902; “Língua Sínica Escrita. Tradução da Amplificação do Santo Decreto”, 1903; “Manual da Língua Sínica Escrita e Falada. Frases Usuais, Diálogos e Fórmulas de Conversação”, 1903; “Bússola do Dialecto Cantonense – adaptado para as escolas portuguesas de Macau”, 1912.
O seu primeiro livro [“Círculo de Conhecimentos em Português e China – para uso dos que principiam a aprender a língua china”, 1884], é notável pela metodologia utilizada e por isso vale a pena rever a sua estrutura. É um livro pequeno, com 145 páginas compactas, de modo a albergar 100 lições. Foi impresso na Tipografia Guedes, em Hong Kong, mais uma empresa marcante no monopólio português nas artes gráficas e tipográficas no extremo oriente, cuja história está ainda por fazer.
Escreveu PNS: “É nossa opinião que os meninos macaenses, logo que tenham cursado o grau elementar da instrução primária, devem começar a estudar a língua sínica sem contudo prejudicar os outros estudos, pois que bastará que em cada semana tenham eles três ou quatro lições de uma hora cada uma, para decorar as letras e frases mais usuais”.
PNS, dentro de uma metodologia tradicional centrava a didáctica na vivência do aluno, respeitando a sua individualidade e ao mesmo tempo que dava prioridade à memória: “Continuando regularmente com este trabalho de memória por três anos, isto é, durante o curso do grau complementar da instrução primária, adquirirão os meninos um conhecimento elementar da língua chinesa, que os habilitará a prosseguir com aproveitamento este estudo enquanto cursarem a instrução secundária, sem que seja preciso fazer grande esforço, nem cercear o tempo necessário ao estudo das outras disciplinas, porque já está vencida a primeira dificuldade, que é a de decorar as letras”.
Misturava sabiamente alguma doutrinação axiológica e ética nos exercícios de tradução ou retroversão. Vejamos estes quatro exemplos.
O primeiro exemplo: “As mulheres nos países da Europa não amarram os pés e por isso, quando são jovens, movem-se com mais ligeireza e brincam melhor do que as meninas da China”. Este texto é de 1884 e é uma clara e explícita doutrinação contra esta prática tradicional chinesa, oficialmente proibida a partir de 1912, com a novel República da China. Macau estava na liderança pioneira destes direitos humanos.
O segundo: “Para entender é necessário pensar sobre o que se ouve ou se lê”. Num modelo de transmissão de conhecimentos ancorado na memória, dar enfâse à liberdade de expressão de um pensamento heterodoxo era colocar em risco uma sociedade hierarquizada e cristalizada no seu dogmatismo.
O terceiro: “O vestuário ordinário dos homens e das mulheres na China é quase sempre o mesmo”. O aluno pode ser levado a questionar essa tradição, reconhecendo a importância da diferença no vestuário.
O quarto exemplo: “Todas as bebidas alcoólicas são embriagantes e são perniciosas”. É um saudável princípio da educação alimentar em pleno século XIX.
PNS é claramente um pioneiro no ensino e na difusão da língua chinesa, tendo um lugar destacado na história da educação de matriz portuguesa em Macau.
Em virtude de Macau ser uma cosmopolita cidade internacional, não devemos esquecer que o ensino da língua chinesa mereceu também uma atenção particular por parte da comunidade protestante anglo-saxónica, sob a liderança da East India Company, sobretudo com as obras de Robert Morrinson, editadas no Território.
No dia 24 de Maio de 1999, no Edifício da Administração Pública foram inauguradas a “Biblioteca Luís Gonzaga Gomes” e a “Sala Pedro Nolasco da Silva”. Deixo esta pergunta singela a um leitor exigente: ainda existem essas duas valências?
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



