Júlia Serra*
Júlia Serra*

Estes dias li um texto de Paulo Moura sobre os migrantes e os obstáculos das fronteiras: “Os milhares de migrantes espalhados por África a caminho da Europa vivem atormentados pelas fronteiras. A elas se reduzem os desafios da sua existência.” E o jornalista revelava o seu olhar subjetivo e até emocionado sobre “Costumo pensar neles como num país. O país dos “camarades”, nome que dão em Marrocos aos imigrantes africanos ilegais e que eles próprios adoptaram para si.

Têm diferentes nacionalidades, línguas e religiões”. A atualidade temática aliada às políticas geoestratégicas e económicas que assolam o mundo empurraram-me para uma entrevista que o jornalista tinha dado à TDM em que confessava que o jornalismo (a imprensa escrita) estava “pela hora da morte” e conjugado com o seu gosto de viajar, decidira mudar de caminho, escolhendo outras direções. Curiosamente, também o Jornalista João Figueiras, no seu e-book Palavras Precárias também expressou esse desinvestimento na imprensa escrita, na transformação das sociedades e no modo como os leitores atuais acedem às notícias.

Paulo Moura licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em 1984, e concluiu o curso em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, em 1989. Lecionou História e Português no ensino secundário. Atualmente, na Escola Superior de Comunicação Social em Lisboa, leciona Atelier de Imprensa, Reportagem e Jornalismo Literário(Wikipédia).

Ao longo da sua carreira tornou-se um vagamundo, com a ideia fixa no continente asiático, para descobrir pessoas que tinham vivido na pobreza e melhoraram um pouco o seu estatuto social a caminho de pertença de uma classe média baixa. Assumia o jovem jornalista, de então, que só ouvindo e vendo o que acontecia, no momento, teria a certeza de uma escrita verdadeira, concisa e dialogante. Não lhe interessava, em primeira mão a ficção; o jornalismo literário faria parte da sua bagagem intelectual, já que a material não ia além da mochila e de um caderno de notas.

Esta ideia de viajante, sem objetivo turístico, despertou-me para conhecer mais o “homem” e a sua utopia de refundação da escrita alicerçada numa placagem inovadora. Consciente de que a escrita era a sua arma de guerra, foi para os cenários de conflito (Síria Iraque, Mossul) sempre junto da fronteira, sem pisar o risco, mas assistindo aos horrores e apercebendo-se do estertor da morte e da injustiça: uma guerra de distopias em que a utopia do sonho não chegava a acontecer…

E o seu olhar não ditaria para a escrita também essas distopias e outras que distorciam a utopia do próprio “ser”? No meio do silêncio, como assistente da desgraça, não será o escritor/jornalista o único a soltar o grito (lembrando o grito de Munch) de um povo ou civilização castrados pelo radicalismo?

Pessoa escreveu: “Sem a loucura o que é o homem? Mais que a besta sadia/ Cadáver adiado que procria?” O conceito de “loucura pessoana” está ligado à condição humana, ao sonho e foi este o traço mais característico (que me perdoe o professor) que encontrei em Paulo Moura.

Não se contentou com a vida e foi em busca de outras paragens – voou na sua moto ou de comboio, sempre que possível, para estar mais próximo da terra, mesmo daquela população chinesa que abandonava o campo, para vir para a cidade ou de outros que deixavam o seu país, guiados pela utopia do Ocidente ou mesmo os que fugiam da morte – e de outros longes, para ouvir as vozes sufocadas: “Mas foi muitas vezes ali, em conversas intermináveis na noite gelada, rodeados de morte por todos os lados, que vi uma chama viva a bailar nas sílabas da palavra “Europa”.

É uma chama tão intensa, que aquece todo o país dos “camarades” (Paulo Moura). O autor não isentou nas suas viagens uma reflexão crítica sobre as sociedades, sobretudo nas situações mais repulsivas, aliás ela está implícita na literatura utópica e distópica, como podemos aduzir deste passo: “uma das principais diferenças entre a literatura utópica e a distópica se encontra na impressão do autor: se ele acredita que está descrevendo uma sociedade melhor, ele está criando utopia. Neste caso, as qualidades distópicas que aparecerem são involuntárias; contudo, se ele acredita que está descrevendo uma sociedade repulsiva, o que ele está criando é uma sociedade distópica. Neste caso, ele força as situações e os aspectos a serem repulsivos, então eles não são de forma alguma acidentais. Em ambos os casos, a crítica da sociedade é um elemento central” (Daniel Derrel Santee,1988)

A mudança de espaço surge na mente como possibilidade de descoberta de outros espaços, porque entrar num ambiente desconhecido exige um melhor conhecimento de si próprio, uma autognose testada para enfrentar novos cenários o que, na maior parte das vezes, se traduz num empoderamento da vida pessoal e até coletiva; assim, a grande viagem é sempre sobre si próprio e as outras do calendário poderão ser ameaçadoras ou compensadoras, mas a liberdade do pensamento de querer partir e chegar, apesar de conter disporias, é sempre uma janela para o mundo da utopia.

E, nesse trajeto, conheceu Japão que o encantou, à semelhança de Venceslau de Morais quase ficou apaixonado, e Macau com o seu jogo… mas Macau inteiro ficou arrumado à espera de uma nova viagem com outro propósito, pois estavam ali pegadas identitárias que mereciam ser olhadas com outros olhos.

Paulo Moura viveu e sentiu a pele arrepiada ao fazer o caminho que lhe deu o passaporte para a sua carreira, tornando-o um jornalista de mérito e um professor competente, capaz de distinguir a luz e a sombra – lembrando Prometeu – revelando o que é viver na escuridão, mas dominar o segredo da luz, para explicar que a vida é uma metáfora.

Ele soube combinar imagens, história e personagens populares reais ou inventadas inseridas num espaço-tempo inexistente, mas sonhado por quem estava cansado de viver e também, como o autor, pronto para a viagem iniciática.

Os prémios e os galardões conquistados falam por si e as obras (que são tantas) serão a melhor herança legada pelo autor às gerações vindouras, para mostrar o valor da palavra escrita.

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, “Mar Português”, in Mensagem

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau