Para além da linguagem fria da economia… a vida.
Poderia ser esta a ideia comum às mais recentes visitas de líderes políticos nesta região, o que me proporciona o ensejo de uma breve e muito leiga incursão pelos domínios insondáveis da economia. E da sua ligação à política externa e à política económica externa.
Mas começo com uma importante visita oficial, a do chefe de Estado chinês a Camberra.
O Presidente Xi Jinping na Austrália
Foi fortemente simbólico de uma nova atitude em relações internacionais o discurso do presidente Xi Jinping no parlamento australiano, no decurso da sua visita à Austrália, logo a seguir à Cimeira do G-20.
As declarações do chefe de Estado chinês não podiam ser mais amistosas. E a sua garantia de que a China nunca usará a força, privilegiando sempre o diálogo, na resolução de conflitos, caiu certamente muito bem no ouvido atento dos deputados presentes. É que a Austrália sabe bem que a geografia deixou de ser refúgio para as grandes e pequenas turbulências do planeta. E que, no mundo interdependente e hiper-ligado pelas economias e por tudo o resto, não há forma de se evitar os efeitos negativos da insegurança e da instabilidade regionais, se estas ocorrerem. Assim, por mais que a Austrália se sinta próxima, por afinidades forjadas pela História, dos Estados Unidos da América, é a China que está mais presente, desde logo pela sua vocação a ser a potência dominante na região – região com que a Austrália se quer cada vez mais identificar.
E depois há, naturalmente, as razões económicas que levaram à assinatura, na presença do presidente Xi e do PM Abbott, do Acordo de Comércio Livre sino-australiano que conclui dez anos (!) de negociações. Recordei, a este propósito que a Austrália foi dos primeiros países a adoptar o renminbi como moeda de referência das trocas comerciais bilaterais, provando assim um saudável realismo nas relações com a China.
A complementaridade entre as duas economias parece aliás óbvia, acentuada pelas dinâmicas internas dos dois mercados e das duas lideranças políticas.
O que pretendo acentuar com isto? Que o discurso do Presidente chinês no parlamento em Camberra vem confirmar não apenas a melhor percepção, por ambos os lados, dos interesses recíprocos em jogo, mas também a melhor compreensão do que são as duas sociedades, certamente diferentes, mas que estão a construir pontes para um cada vez mais completo entendimento. Percebeu-se, pela atitude de Tony Abbott que o relacionamento pessoal com o presidente da China traduzia um acentuar de afinidades e convergências, muito positivos para futuro.
E esta é afinal – e tão só – a confirmação de que neste mundo complexo de interesses, tem que imperar o realismo que é filho dilecto da necessidade. Necessidade de paz, de segurança e de progresso material. Entre vizinhos, primeiro.
Falar no parlamento
Reportando-me a visitas de Estado, obedecem elas, cada vez mais, a uma espécie de tipologia que se consolidou na prática internacional, a dos líderes visitantes se dirigirem aos deputados no parlamento do país anfitrião.
Podendo parecer meramente ritual e simbólico, este número do programa de uma visita presidencial pode ter uma outra leitura mais substantiva: a de os contactos não ficarem confinados aos encontros entre líderes e às delegações oficiais, mas extravasarem para a classe política e a opinião pública, naturalmente com o apoio dos media .
É pois a sociedade no seu conjunto que se pretende atingir, com o objectivo de uma mudança de percepção recíproca dos países em causa.
A economia, sempre a economia
Uma das constantes a que nos habituámos, quando seguimos as notícias do mundo pela televisão, pela rádio, pelos jornais – e agora cada vez mais pela internet – é que somos informados minuciosamente do estado de saúde da economia global.
Há umas décadas, não era a opinião pública bombardeada com tanta informação económica.
No meu caso pessoal, foi talvez com a crise petrolífera de 1973 que tive, pela primeira vez, verdadeira consciência (para além das páginas lidas dos manuais universitários) da omnipresença da economia no modo como se formava a opinião pública. E do real impacto dos factores económicos na vida do cidadão comum…com o preço do petróleo a aumentar todos os dias…
Marasmo numa região, regressão noutra, os números, as estatísticas, as previsões, giram em torno de nós, confirmando doenças do “sistema” e suas perspectivas de agravamento ou cura.
Na linguagem cifrada dos números se refugiam os especialistas. Deixando ao cidadão comum a obrigação de os reportar à vida real, ao registo banal do quotidiano.
E eis que os números antecipam sentimentos e têm rosto. Correspondem à felicidade de uns e ao desespero de outros, de acordo com a lógica simples de que, no jogo dos números, há quase sempre vencedores e vencidos.
As pessoas mais influentes do mundo
Vem este solilóquio a propósito do que me ocupou particularmente nas duas últimas crónicas: as reuniões ao mais alto nível dos líderes mundiais.
Dizia o primeiro-ministro australiano Antony Abbott, no discurso de abertura da cimeira do G-20 em Brisbane, que naquela sala se reuniam as pessoas mais influentes do mundo, sugerindo assim que, pelo efeito de tal influência, se podia inverter a tendência do marasmo económico a nível global.
E, orgulhosamente, aludia às oitocentas e tal medidas que os especialistas haviam escolhido e os líderes políticos iam avalizar, para combater o monstro da crise e da recessão.
Na minha ignorância de leigo, perguntei-me que percentagens de eficácia e de boas intenções se partilham os decisores políticos, quando vemos à escala dos países, governos a serem punidos politicamente pelos resultados adversos das políticas nacionais – por si definidas.
Cite-se o caso do presidente francês François Hollande – a que se creditam uns meros 12% de opiniões favoráveis nas sondagens – e que já disse não ir concorrer a um segundo mandato, se não conseguir fazer diminuir a taxa de desemprego em França.
E ainda a situação do Japão, onde a propalada Abeconomics se salda pela entrada do país em recessão técnica.
Que parte tem pois o voluntarismo na inversão de tendências que parecem ser mistérios insondáveis “do sistema”?
E é neste quadro real de incerteza à escala global que os líderes políticos mundiais continuam a cumprir agendas, sabendo que a resignação não constitui terapia para coisíssima nenhuma.
Empregos, empregos, empregos
E, chegado aqui, ocorre-me ligar todo este esforço de se construir parcerias (que gerem crescimento económico), à realidade oposta do Japão que entrou pois em recessão, apontando-se já a possibilidade de eleições antecipadas, para o PM Shinzo Abe tentar relegitimar o seu mandato e a sua política económica.
O grande drama das economias modernas é o desemprego, com as suas consequências sociais e mesmo políticas.
Daí que o alvo do G 20, de um crescimento da economia global de 2% ao ano até 2018, traduza o forte empenho das economias, sobretudo as mais afectadas pela estagnação (leia-se as europeias), a lutar por patamares mínimos de progresso material que instilem optimismo – ou pelo menos não total desesperança – no presente e para futuro.
É que, como sugeria na introdução, para além das colunas de números e da linguagem dos gráficos, há vidas que se constroem ou se destroem.
*Ex-embaixador de Portugal nas Coreias, ASEAN e Indonésia. Docente da Universidade de S. José.




