Parece-me evidente que a língua condiciona a maneira como pensamos. Cada maneira de pensar forma, para si mesma, um mundo harmonioso e também auto-suficiente, se bem que a língua também possa às vezes aspirar uma hegemonia sobre as outras maneiras de pensar.
É neste sentido que considero uma língua como uma espécie de deus omnipresente.
Quando se trata da tradução, uma palavra é-me traduzível apenas na condição que o conceito que esta palavra exprime já esteja “importado” previamente na língua de alvo. Se isso não for o caso, são necessárias explicações para uma compreensão adequada. Neste género de casos, podemos igualmente ver as tentativas de imposição intelectual de uma língua sobre a outra.
Há uma palavra alemã que me fascina há algum tempo que faz exactamente parte do conjunto de palavras cujas traduções são sempre limitativas e discutíveis.
A palavra alemã “Märchen”, em português, significa literalmente “contos”. Não obstante, existe entre “contos” e “Märchen” algumas diferenças. De facto, os dois termos implicam, duas maneiras diferentes de categorizar um estilo literário, o que diz muito sobre a maneira como esta forma de literatura está entendida em cada destas línguas. Embora estas duas palavras possuam no contexto europeu actual um significado muito semelhante, parece-me interessante verificar as diferenças dos seus significados de origem, com base na respectiva etimologia.
A palavra alemã “Märchen” desconstrói-se da seguinte forma: a raiz “Mär” e o sufixo “-chen”. “Mär” existe em alemão desde o século IX e significa “notícias”, “informação”, “história”, enquanto que “-chen” funciona aqui como um diminutivo.
É curioso e interessante notar que esta palavra, por coincidência, é semelhante à palavra cantonense “古仔(ku chai)”, usada para fazer referência a uma “pequena estória” e é composta pelo primeiro caracter que significa antigo, “antiguidade”e pelo segundo caracter que é um diminutivo, muito comum na língua em causa, e que podemos traduzir como “miúdo”ou filho”. Encontramos também na língua sínica dos Hac-ka uma construção semelhante: 傳仔(tchon-é)”composto pelo caracter lenda”e pelo caracter que significa, igualmente, “miúdo” ou “filho”. Assim, nesta língua sínica, a palavra, significa, igualmente, “pequena estória”.
A palavra “conto” vem do latim “computus”. A sua forma verbal “computo” tem vários significados como, por exemplo, “calcular”. “Computo” pode ser decomposto da maneira seguinte: “com” e “puto” que significam respectivamente “com” e “calcular”. Ao longo do tempo, a palavra “conto” ganhou os seus significados modernos em várias línguas entre os quais, “tales”.
O escritor francês Charles Perrault (1628-1703) escreveu e reuniu diferentes contos numa obra “Contos da Mamãe Gansa”, como é conhecida numa tradução brasileira. Foram incluídos nesta obra “A Bela Adormecida”, “Capuchinho Vermelho” e “Cinderela” e esta contribuiu para a subida da importância dos contos na Europa da época. Assim a palavra “conto” consolidou-se como a que se refere a este género de histórias. Um fenómeno comparável aconteceu na Alemanha com os livros dos Irmãos Grimm que denominaram “Märchen” às histórias que incluíram na sua obra.
Para dar seguimento às minhas habituais digressões etimológicas, vou abordar o objectivo do presente artigo: os fairy-tales chineses.
Quando me refiro à Alemanha como um “Märchenland” (país dos contos de fadas), não me parece uma designação exagerada. De facto, o mundo germânico tem uma longa tradição (até uma obsessão) de colecções e reinvenção dos contos orais germânicos, europeus e também mundiais. Tanto os contos dos Irmãos Grimm como os reapropriados no tempo da Alemanha Oriental ocupam um lugar particular nas culturas germanófonas e podem ser sempre encontrados nas livrarias e alfarrabistas berlinenses.
Os contos escritos em alemão ocupam um espaço importante nas minhas estantes. Tenho também livros de contos em várias outras línguas, o que me leva a interessar pelas diferentes traduções da palavra “Märchen” nos diversos idiomas.
A apropriação sínica da palavra alemã mais corrente para fazer referência a um simples conto parece ser a que deriva da palavra inventada pelos japoneses e usada hoje em toda a Ásia oriental com excepção da Mongólia:“童話 ” (pronunciado “tong wa” em cantonense). Traduzido literalmente, “tong wa” significa “palavras” ou “histórias para crianças”.
Quando pensamos no facto que a palavra “Märchen” ganhou na Alemanha uma importância particular com a obra “Kindermärchen” dos Grimm, a tradução sínica parece ter sido bem escolhida. Aliás, há várias traduções brasileiras nas quais o título desta obra está traduzido como “Contos Infantis”.
No que concerne ao que denomino como “fairy-tales chineses”, estou a lembrar-me de várias obras como, por exemplo, as versões dos eminentes sinólogos alemães Franz Kuhn (1884-1961), Rainer Schwarz (nascido em 1940) e Richard Wilhelm (1873-1930), assim como a tradução em mandarim da obra de Luiz Gongaza Gomes (“Macau: Factos e Lendas” na edição do Instituto Internacional de Macau de 2004) e também as duas preciosíssimas obras escritas pela minha cara professora e sinóloga brasileira Márcia Schmaltz (1973-2018) em colaboração com Sergio Capparelli: “50 Fábulas da China Fabulosa” e “Contos Sobrenaturais Chineses”.
Entre as obras do sinólogo alemão Wilhelm, chamo a atenção para o livro “Chinesische Märchen”, que foi reescrito em inglês como “Chinese Fairy Book” pelo autor americano Frederick Herman Martens (1874–1932). Para os leitores lusófonos interessados em estudos sínicos, o nome de Wilhelm poderá ser familiar, pois escreveu uma “Introdução a Confúcio”, “O Segredo da Flor de Ouro – um Livro de Vida Chinês” (Das Geheimnis der Goldenen Blüte) e traduziu o famoso “I Ching: o Livro das Mutações” (I Ging: Das Buch der Wandlungen) assim como “Tao Te King”. Estas traduções foram todas feitas a partir dos textos alemães para o português do Brasil.
Para dar uma ideia de importância que Wilhelm representa para o mercado de livros na Alemanha ainda hoje, poderei mencionar o facto de se poder encontrar na livraria berlinense Dussmann uma quantidade considerável de obras daquele autor alemão, apesar da exatidão das suas traduções, feitas há muitas décadas atrás, possam ser hoje discutíveis. A presença de Wilhelm não se limita apenas à livraria Dussmann: como o sinólogo é igualmente uma autoridade no domínio de estudos chineses, a presença dos seus livros é visível em muitas outras livrarias alemãs e mesmo noutros países. Em Portugal, por exemplo na Livraria Bertrand em Lisboa, não se encontra a presença de livros de sinólogos portugueses comparável à daquele sinólogo alemão nas livrarias alemãs.
Não faz muito sentido comparar as obras de Wilhelm e de Gongaza Gomes. O que, no entanto, podemos encontrar em comum é que estas obras foram trabalhos de sinólogos europeus (embora Gongaza Gomes fosse também um macaense) com possessões no Império do Meio, interessados pelo folclore dos povos hans. Isso faz-me pensar que uma versão alemã da obra “Macau: Factos e Lendas” (“Märchen aus Macau” ou ainda “Kantonesische Märchen”) seria mais do que provavelmente bem recebida na Alemanha.
* NATURAL DE MACAU ONDE FOI INTÉRPRETE-TRADUTOR ATÉ 2013 VIVENDO DESDE ENTÃO NA MAIOR PARTE DO TEMPO NA EUROPA (ALEMANHA E BÉLGICA). AUTOR DO FILME EXPERIMENTAL “UMA FICÇÃO INÚTIL” COM SUCESSO INTERNACIONAL. ACTUAL DOUTORANDO EM ANTROPOLOGIA VISUAL E MÉDIA EM BERLIM.
**MATHILDE DENISON CHEONG É ARTISTA E DESENHADORA DE BANDA DESENHADA BELGA. ESTUDA SINOLOGIA NA ZHEJIANG UNIVERSITY (UNIVERSIDADE DE ZHEJIANG)



