João Figueira*
João Figueira*

A conhecida cadeia sueca Ikea acaba de retirar do mercado italiano a linha de estantes Billy, porque, segundo um recente relatório da Associação italiana de editores, 40% dos cidadãos não lê sequer um livro por ano. O negócio da leitura como se vê, tem um impacto muito mais amplo e vasto que a mera transacção livresca. Mas fixemo-nos na leitura e nos livros, embora evitando a estafada discussão de que antigamente é que era bom, como se num tempo de maior número de analfabetos fosse possível haver mais leitura. Mas que o fenómeno, como as bruxas castelhanas, existe, é mais que certo.

Já o escrevi aqui uma vez, a propósito das tendências atuais do design de interiores: faz-me confusão que as fotografias e projectos das habitações contemporâneas esqueçam ou ignorem por completo a presença de livros nos seus espaços. Lá se vislumbra um ou outro livro de boa encadernação em cima da mesa da sala como artefacto, ou seja, como mero objecto de decoração, como poderia ser um candelabro ou uma pequena escultura, mas não se passa disso. Falta a esses espaços o músculo intelectual dos livros no seu habitat.

Longe vai o tempo – meados do século passado – que, desafiado a levar por diante uma campanha para incrementar a leitura, Edwar Bernays, um dos estrategas maiores das Relações Públicas e comunicação estratégica, foi ter com arquitectos e produtores de Hollywood, no sentido de negociar com eles a ideia de passarem a incluir, nos filmes e nos seus projectos de casas, salas com estantes cheias de livros. O objectivo era transformar a posse de livros num estatuto e num modelo de comportamento a seguir.

Tal tendência é coisa do passado. Basta ver como, por exemplo, como a FNAC, que emergiu e ganhou preponderância como livraria, se tornou, crescentemente, numa loja de electrodomésticos e tecnologia. Os livros, que foram o seu ganha-pão e imagem de marca, estão hoje, em muitas das suas lojas, remetidos a pequenos guetos.

Na actual sociedade da sedução, sobre a qual o filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky dedica a sua mais recente obra, o gosto pela leitura parece, de facto, estar longe da primeira linha das preferências dos cidadãos ocidentais. Curiosamente, no entanto, os escaparates são enxameados semanalmente com novidades livrescas, boa parte delas focadas nos temas de auto-ajuda, em experiências culinárias ou relatando o período de gravidez da autora. Na esmagadora maioria dos casos, a autoria de tais novidades, como se sabe, pertence a figuras da televisão ou das passereles – ou ambas. É a nova literatura de cordel, para pior, uma vez que apenas sobressai na sua dimensão popular. No resto, é de evitar e deitar fora.

Incapaz de imaginar um mundo sem livros nem literatura, só espero – e desejo – que os 60% de italianos que ainda lêem continuem a fazê-lo. Não apenas para garantirem em certa medida a indústria e comércio de estantes, mas para manterem vivo um ato e uma prática que nos distingue no sortido reino animal.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau