Este artigo constitui uma reflexão sobre o desporto enquanto estratégia de longo prazo para promover o intercâmbio humano, o desenvolvimento económico e a cooperação internacional.
Macau encontra-se num momento decisivo de profunda transformação e reposicionamento estratégico. Num contexto marcado pelo rápido desenvolvimento da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin e pela implementação contínua da estratégia de diversificação económica adequada, esta cidade que o mundo conhece procura activamente novos caminhos para o futuro.
No mês em que se celebram o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, importa revisitar a identidade multicultural de Macau, não apenas como herança histórica, mas como um recurso estratégico de valor singular. Esta dimensão deverá igualmente encontrar expressão no Terceiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento Económico e Social da Região Administrativa Especial de Macau (2026-2030), potenciando as vantagens únicas de Macau e articulando-se activamente com as estratégias nacionais de desenvolvimento e com a promoção de uma construção de elevada qualidade em diversos sectores.
Quase vinte anos após a realização da primeira edição dos Jogos da Lusofonia, em Outubro de 2006, considero que Macau reúne hoje condições para assumir um novo papel: acolher regularmente os Jogos da Lusofonia, num ciclo de dois ou três anos, transformando este evento numa plataforma renovada ao serviço do desenvolvimento de Macau.
Esta não é apenas uma proposta na área do desporto. Trata-se de uma visão integrada sobre a forma como o intercâmbio desportivo entre os países e regiões lusófonas pode contribuir para o desenvolvimento económico de Macau, para a formação de talentos e para o reforço da cooperação internacional.
Alinhamento estratégico para uma nova fase de desenvolvimento
Os Jogos da Lusofonia foram criados em 2004 pela Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP), constituindo um evento multidesportivo realizado de três em três anos, envolvendo países e regiões onde o português é língua oficial ou de referência. Macau acolheu a primeira edição em 2006, reunindo 730 atletas provenientes de onze países e regiões. Posteriormente, realizaram-se edições em Lisboa e Goa, antes da suspensão do evento.
A proposta de recuperar estes Jogos em Macau encontra-se hoje fortemente alinhada com as orientações de desenvolvimento do País e da Região Administrativa Especial de Macau. O Presidente Xi Jinping sublinhou que Macau deve aproveitar plenamente as suas vantagens enquanto ponto de encontro entre culturas orientais e ocidentais, promovendo o intercâmbio humanístico internacional e o diálogo entre civilizações. Neste contexto, a realização de grandes eventos desportivos representa uma resposta concreta a esse desígnio e constitui uma das formas mais eficazes de diplomacia suave.
Se a economia aproxima mercados, o desporto e a cultura aproximam pessoas.
Simultaneamente, a articulação entre o 15.º Plano Quinquenal Nacional e o Terceiro Plano Quinquenal da RAEM reforça a importância de Macau aprofundar a sua abertura ao exterior e consolidar o seu papel como plataforma sino-lusófona. Os Jogos da Lusofonia podem constituir uma expressão concreta desta vocação singular.
Um evento internacional ao serviço de cinco direcções estratégicas para Macau
Esta proposta assenta em cinco pilares complementares: desenvolvimento económico; inovação e cooperação Macau–Hengqin; formação de talentos e desenvolvimento educativo; coesão social e identidade de Macau; e plataforma lusófona e cooperação internacional.
Desenvolvimento económico: afirmar o desporto como indústria estratégica
Os futuros Jogos da Lusofonia não necessitam de replicar integralmente o modelo adoptado em 2006. Um formato mais focado, privilegiando modalidades com maior capacidade de mobilização popular e impacto mediático – como futebol, basquetebol, futsal e algumas modalidades indoor – permitirá optimizar recursos, reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência económica.
Este modelo poderá igualmente gerar novas oportunidades através do turismo desportivo, das actividades MICE, de feiras ligadas à indústria do desporto, de plataformas B2B e da captação de marcas internacionais e patrocinadores. A recente visita do Chefe do Executivo à Europa demonstrou que grandes eventos podem gerar novas oportunidades de cooperação internacional e beneficiar diversos sectores económicos locais.
O desporto deixará, assim, de ser visto apenas como despesa pública, podendo afirmar-se progressivamente como uma componente activa da estratégia “1+4” de diversificação económica adequada. No plano financeiro, poderá ser adoptado um modelo diversificado, combinando investimento público, participação das seis concessionárias integradas de turismo e lazer no âmbito das suas responsabilidades sociais e do apoio à diversificação económica, patrocínios provenientes dos países lusófonos e receitas geradas pelos direitos de transmissão televisiva e pelo turismo desportivo.
Macau–Hengqin: uma plataforma de inovação e tecnologia aplicada ao desporto
A integração entre Macau e Hengqin abre novas perspectivas para o desenvolvimento dos Jogos da Lusofonia. Os grandes eventos desportivos modernos dependem cada vez mais de tecnologias associadas à análise de dados, telecomunicações, engenharia biomédica e inovação aplicada ao alto rendimento.
A realização regular dos Jogos poderá atrair empresas e startups ligadas ao SportsTech, utilizando o ecossistema Macau–Hengqin como plataforma para investigação, testes e aplicação de soluções inovadoras.
Hengqin poderá acolher centros de estágio, instalações de treino, programas académicos e actividades ligadas à indústria do desporto. Várias empresas chinesas de referência nas áreas tecnológica e da inovação já se encontram instaladas naquele território, sendo necessários mais projectos que evidenciem as oportunidades existentes e reforcem a integração Macau–Hengqin.
Formação de talentos e desenvolvimento educativo: construir uma plataforma para o futuro
Os Jogos da Lusofonia poderão assumir-se como uma importante plataforma de formação de recursos humanos especializados. Em articulação com os grandes projectos ligados à futura Cidade Internacional de Educação Macau–Hengqin, as instituições de ensino superior locais poderão reforçar a cooperação com universidades dos países lusófonos, desenvolvendo programas de intercâmbio, estágios e formação conjunta nas áreas da gestão desportiva, organização de eventos internacionais, marketing desportivo, medicina do desporto e ciências do desporto.
Simultaneamente, o voluntariado associado a grandes eventos desportivos contribui para o desenvolvimento de competências organizacionais, comunicação intercultural e capacidades linguísticas entre os jovens. Tal como aconteceu em 2006, o desporto pode reforçar o espírito de participação cívica e de missão colectiva, contribuindo para formar uma nova geração de residentes com maior sentido de responsabilidade social, pertença e visão internacional.
Num contexto marcado pela crescente digitalização da sociedade, a participação presencial e o trabalho em equipa promovidos pelo desporto constituem igualmente factores importantes para a saúde física e mental dos jovens.
Coesão social e identidade de Macau: uma expressão da convivência multicultural
Uma das maiores riquezas de Macau reside na sua diversidade cultural. Durante os Jogos da Lusofonia de 2006, cidadãos de diferentes origens participaram activamente na organização e recepção das delegações, demonstrando a capacidade de inclusão e coesão da sociedade macaense.
Num contexto internacional cada vez mais complexo, o desporto oferece uma linguagem universal capaz de fortalecer a confiança mútua, o sentimento de pertença e o orgulho na identidade multicultural de Macau, reflectindo os valores tradicionais de harmonia e convivência entre culturas.
A realização, em Junho de 2026, da Reunião Ministerial do Turismo da APEC demonstra igualmente a confiança do Governo Central na capacidade organizativa da RAEM e no seu papel enquanto plataforma internacional.
Plataforma lusófona e cooperação internacional: aprofundar as vantagens únicas de Macau
Se o Fórum de Macau promove a cooperação económica e comercial entre governos e instituições, os Jogos da Lusofonia têm o potencial de aproximar pessoas. Através da realização regular destes Jogos, Macau poderá reforçar a sua função enquanto plataforma de intercâmbio humano entre a China e os países de língua portuguesa, promovendo a cooperação nas áreas do desporto, educação, cultura, turismo e negócios.
Este intercâmbio contribuirá para aprofundar as relações tradicionais com os países lusófonos e criar novas oportunidades para jovens, empresas e instituições especializadas. O espaço lusófono deve ser encarado como um activo estratégico para o desenvolvimento contemporâneo de Macau. Através do desporto, Macau poderá reforçar a sua projecção internacional e proporcionar a participantes de diferentes países a oportunidade de conhecer directamente Macau, o princípio «Um País, Dois Sistemas» e a realidade chinesa baseada na paz, cooperação, abertura, inclusão e segurança.
Consolidar Macau como ponte sino-lusófona
Se Macau conseguir organizar regularmente os Jogos da Lusofonia de forma sustentável e adaptada às suas características específicas, estará a construir um modelo próprio de desenvolvimento, no qual o desporto, a plataforma lusófona e a cooperação internacional se transformam em instrumentos efectivos de crescimento económico, formação de talentos e estabilidade social.
Não se trata apenas de organizar um evento desportivo internacional. Trata-se de concretizar, de forma prática, as vantagens de Macau enquanto cidade apoiada na Pátria e ligada ao mundo.
Graças à sua história singular, à sua diversidade cultural e à função de plataforma sino-lusófona, Macau reúne condições únicas para servir de ponte entre diferentes civilizações e promover o desenvolvimento comum.
O mercado lusófono possui uma relevância concreta. O espírito desportivo ultrapassa fronteiras. Macau continua a dispor da capacidade singular de reunir culturas, aproximar pessoas e criar oportunidades.
O que se espera agora é a coragem de assumir responsabilidades, inovar e dar este passo decisivo para o futuro de Macau.
*Analista independente do desporto e consultor em desenvolvimento regional. Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo



