O sol não rasga e o tempo sombrio teima em encobrir a luz. Estamos em tempo de incerteza, sem estações demarcadas e não se sabe se haverá as mudanças cantadas por Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança:/Todo o mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades”. (Sonetos de Camões). A tão esperada mudança não se processa e a ausência de luz teima em escurecer os espíritos, não abrindo frestas para o sol entrar…

O mundo está escuro, porque a metáfora da guerra não dá tréguas para o sol espreitar e o mais grave é que o presente em ebulição desenterra outros fantasmas de outras guerras – a descolonização, a luta em Timor e na Índia, os sacrifícios dos nossas antepassados para que o mar fosse nosso, como escreveu Fernando Pessoa: “O esforço é grande e o homem é pequeno/Eu, Diogo Cão1 navegador, deixei/ Este padrão ao pé do areal moreno /E para diante naveguei./(…)E ao imenso e possível oceano/ Ensinam estas Quinas, que aqui vês,/ Que o mar com fim será grego ou romano: /O mar sem fim é português.” (Padrão, Mensagem).
a Diogo Cão colocava um “padrão” em pedra, substituindo as cruzes de madeira, para revelar que o navegador havia cumprido a sua missão. Tantos foram os portugueses que abriram esse mar para o mundo, mostrando o seu esplendor; hoje, todos os sacrifícios e disrupções da História são evocados pelas guerras que nos cercam ameaçando a destruição da Humanidade. Porque a guerra é um monstro que engole tudo.
É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos. As cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal algum que se não padeça ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; os religiosos não têm segura a sua ceia; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro” (a).
António Lobo Antunes viveu a experiência da guerra e este tema atravessou/atravessa a maior parte dos seus livros, porque o escritor vivenciou sempre essas memórias na mente e no coração. Como médico psiquiatra sentiu em si a influição da guerra dos outros, as convulsões, os fantasmas, os medos e a alienação… essa loucura da guerra atormentou-o até ao minuto final, reconhecendo que, mesmo assim e apesar disso, a vida é um milagre. A sua missão como médico em Angola transformou-o e ele dizia que “era outro”. Foi o atroar da guerra que lhe ficou e vibrantemente eclodia, em silêncio, causando-lhe a solidão: “Não me é fácil viver comigo. Parece que estou sempre em guerra civil. “Durante os cerca de dois anos que esteve em Angola escreveu diariamente à mulher (tinha ele 28 anos) e nunca pensou que essas cartas viriam a ser lidas por outros. Efetivamente, essas Cartas foram publicadas e com o prefácio das filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes): “Nascemos de duas pessoas invulgares em tudo, que em parte vos damos a conhecer nestas cartas. O resto é nosso”. – Cartas da Guerra.
Numa guerra há sempre implícito um alvo inimigo, embora possa ter aceções diferentes: Camões, em “Os Lusíadas”, através de Marte, convocava os deuses, no Olimpo, e aí definiam, em conjunto, objetivos para ajudar a “gente lusa”, combatendo as más intenções do inimigo Baco; já o sentido de guerra exemplificado na obra de Almada Negreiros2 refere a falta de liberdade e de espírito crítico, sobretudo entre os jovens – que podem ser cerceados por mentalidades retrógradas ou transgressoras – originando uma “guerra infinita.” Antunes, a personagem da obra, rapaz da província, foi viver para Lisboa sob o encargo do tio, deixando a sua eterna apaixonada, a Maria, na aldeia. No meio citadino, perde-se com a prostituta Judite… e Maria vai fenecendo até à morte. Só após o trágico desfecho, Antunes lamenta a sua triste sorte e a incapacidade de não ter assumido uma vontade própria, para decidir o futuro em liberdade. Foram outras vontades que decidiram em seu nome, mas a guerra nunca acabou em si próprio.
Quantas guerras nos evoca a nossa História e quantas cartas ou aerogramas enviamos a familiares próximos ou, na qualidade de Madrinha de Guerra, aquando da guerra colonial? Quantas mães perderam os filhos e parafraseando Pessoa, quantas noivas ficaram por casar? A guerra afeta não só quem para ela parte, mas a família, os amigos, os vizinhos, a aldeia…. Já lá vai muito tempo, em que, andava eu na Escola Primária, e os vizinhos pediam-me para lhes ler as notícias que chegavam. Era pequena, mas sentia o sofrimento e, às vezes, esborratava as letras com as lágrimas enquanto lia, porque pressentia que os adultos choravam mais. Quem escrevia, fazia promessa de voltar… por vezes, para se cumprir o funeral. A aldeia assistia em peso, à morte de mais um soldado. Uma guerra em nome de quem e de quê? Segredo dos governantes (digo eu).
A incursão nesta temática da Guerra provém da imagem de três capas de livros publicados no Expresso e intitulados: A tragédia da partida dos colonos de Angola, de Xavier Figueiredo; Um Luto Português – Goa na crise final do Império – de Valentim Xavier e, finalmente, Macau: A Última Transição, da autoria de Alfredo Gomes Dias. São três obras que marcaram/marcam Portugal e provocam debates sobre as perdas do território e sobre as decisões políticas dos governantes de então.
Macau tornou-se um caso paradigmático com “um país dois sistemas” e o título da obra citada “A Última Transição” aborda os últimos tempos e o contrato estabelecido, aquando da transferência da soberania de Macau de Portugal para a República Popular da China (RPC), em 20 de dezembro de 1999, no tempo do então Governador General Rocha Vieira. Pelas notas recolhidas, o autor Alfredo Gomes Dias, revela as grandes linhas de pensamento e de ação de tão complexo processo.
A preservação da identidade de Macau era um objetivo estratégico quando se refletia sobre o processo de transição a longo prazo, assumindo a necessidade de ações que permitissem no futuro reconhecer em Macau uma marca distintiva, construída ao longo de quatro séculos e meio. (General Rocha Vieira, Último Governador de Macau)
NOTAS:
1-Diogo Cão foi o navegador português que, entre 1482 e 1486, descobriu a costa da atual Angola, sendo o primeiro europeu a chegar à foz do rio Zaire (1482). Enviado por D. João II.
2-Nome de Guerra é o título de um romance escrito por Almada Negreiros, em 1925, que convida a refletir sobre a vida e o destino, baseado na perspetiva existencial de Kierkegaard. Alerta para a falta de liberdade e de espírito crítico.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



