Júlia Serra*
Júlia Serra*

O semeador saiu a semear

Lc 8,5

 

O livro que tenho diante de mim, “O Cerimonial (LEY-KY-1)” (Pe. Joaquim A. de Jesus Guerra, S. J, JESUITAS PORTUGUESES, MACAU,1987) é um clássico Chinês que foi traduzido pelo Pe. Joaquim Guerra. Não é a primeira vez que escrevo sobre a tão vastíssima obra do autor, mas, no Prefácio deste livro, ele faz questão de confessar: “Desde há 66 anos que eu vivo de alma feita com o povo chinês, por clara vocação de Deus. No meio dele andei, quando lutou e venceu uma das potências mais bem armadas do século XX. É certo que também vai digerir e neutralizar o veneno que lhe propinou um Ocidente inebriado e desvairado pelo ateísmo. Eu sou filho da Beira Baixa, criado entre a Gardunha e a Estrela, a imponente Estrela que deve ter merecido o nome pelas neves qua a cobrem em boa parte do ano. É o Himalaia (A Serra das Neves) de Portugal. De lá vim para os “Naem-Sean” – as imponentes serras da China, onde aprendi Chinês à minha custa, que ninguém me ensinou[1] (pp.16-17).

Apenas um breve parêntese sobre a sua origem e a ligação à Serra da Estrela, porque, geralmente, a sua biografia considera-o filho do Fundão. Na realidade, Fundão faz fronteira com a Serra, mas esta é a montanha mais alta de Portugal e, naturalmente, Pe. Guerra quis compará-la com o cenário envolvente da China. Vergílio Ferreira, escritor humanista e existencialista – sobretudo a partir da obra “Aparição”, em que interroga a condição humana e aborda o tema da vida e da morte – também se serve da montanha e da Serra da Estrela para o poder da transcendência que se impõe às recordações trágicas da cidade: “Voltado para a montanha, toda lavada de lua, ouço alguém abrir-me a porta”(p.44 de Aparição) e comove-o (…) “Olho-o pela janela na montanha e uma alegria profundamente triste embacia-me o olhar“ (p.196).

Retomemos a vida e obra do nosso Missionário Jesuíta que foi para a China em 1933; ensinou Filosofia no Seminário de Macau, cursou Teologia na Faculdade Pontifícia de Zikawei, em Xangai e, em 1940, começou os seus estudos de Chinês. Regressado do Norte da China, trabalhou na Missão de Shiuhing, sendo expulso em 1951. Após vários meses de prisão, passou a trabalhar em Macau, onde abriu escolas e centros sociais destacando-se a criação do “Colégio Estrela do Mar”, em 1955. Regressou a Portugal em 1959, com problemas de saúde. Foi integrado na Equipe de Emergência enviada à América Latina durante dois anos e meio.

De volta a Portugal, foi professor de Chinês no Instituto de Línguas Africanas e Orientais durante cinco anos e, a partir de 1973, a pedido da Editorial Verbo, iniciou a tradução dos Clássicos Chineses. Entre outras distinções, o Padre Guerra recebeu o grau de Comendador da Ordem de Mérito Civil da Instrução Pública, em 1980, e a Medalha de Valor, do Governador de Macau, em 1987.

Fornecidos alguns dados sobre a vida deste missionário (que chegou a estar condenado à morte), passemos ao significado de LEI – KY proveniente da Escola de Confúcio. Segundo o Pe. S. Couvreur, S. J. “O Cerimonial”, na edição imperial “é uma compilação de peças, postas a seguir umas às outras, numa ordem que deixa a desejar, onde os mesmos assuntos são tratados, e as mesmas coisas repetidas, pelas mesmas palavras, em sítios diferentes” (p.22). Na perspetiva de Confúcio, desde os primeiros reis, houve, na China, o cultivo das Cerimónias, para promover a justiça e o bem comum, e revelar sinceridade para estabelecer harmonia. E são estes princípios a base da verdadeira “harmonia e prosperidade.” Ora, “O Cerimonial” LEI-KY é uma espécie de “Prática das Relações Humanas”.

Mas o mestre chega a lamentar-se, mais tarde: “hoje, a Grande Política ou o Bom Governo acabou por desaparecer. As Cerimónias tornaram-se uma coisa escrita no papel… Daí vêm as armas e as guerras” (p.23) A própria designação de LEI -KY foi alterada para Lei Keq, mas ainda se diz Lei-KY. Como consta no Próprio Lei-Ky, o curso dos Colégios Oficiais compreendia: o cerimonial e a Música, os Cantares e as Escrituras Selectas, cujo ensino era ministrado na Primavera e no Outono, no Inverno e no Verão. O grau de Mestre Consumado exigia sem falta 4 Clássicos”. (p.26) A palavra Lei significa Li: “é o que se faz para servir ou honrar os Santos (Zhen) e alcançar os bens ou bênçãos do Céu.” (.27). A palavra Lei tem amplos significados: boa educação, respeito, cerimónia religiosa, obrigação, dever, regras e relações sociais ou humanas e outras significações implícitas. LEI pode ser desdobrada em L+EI que remete para os caracteres chineses. As cerimónias estão, portanto, ligadas ao tempo e às estações e o que se pretende é que o progresso da Política conduza as gerações à perfeição. Com o tempo, os Reis lamentavam-se que as respetivas cerimónias não chegavam ao povo e os sacrifícios que deveriam fazer para atingir o Céu eram substituídos por festas aos Oragos. Estas atitudes são estudadas na obra e visíveis no Índice: para além do Prefácio, a Introdução é formada por quatro itens (I. Origem do LeI-KY; II. O sentido da palavra LEI e a importância tradicional das relações Humanas na vida Chinesa; III. Aperitivos: textos respigados no presente volume; IV. Versões do Lei – KY em línguas ocidentais.). Para além destes itens, surgem 12 Cadernos, numerados em Letra Romana. No total, a obra é constituída por 677 páginas.

Em relação ao III capítulo da Introdução “Aperitivos” (os dois anteriores já foram ligeiramente abordados) pode resumir-se a:

1. Trato com as pessoas “As pessoas bem educadas humilham-se e honram os outros. Mesmo que o outro seja um vendilhão, tem que se respeitar, quanto mais se for pessoa instruída e distinta” (1,6)-p.31; “Quando se serve um hóspede de respeito, a mesa não deve ser abundante demais” (1,6)p.31; 2. Comportamento e boas maneiras: “Pessoa de vasta experiência e distinto saber, mas que dá primazia ao seu comportamento, eis um verdadeiro cavalheiro” (1, 29) p.33; 3. Fé em Deus e culto religioso “o hospedeiro convida o hóspede a dizer orações apropriadas” (1,22) p.35; 4. Culto dos Antepassados. Ofertórios Enterros: ”Um cavalheiro, por pobre que esteja, não vende as alfaias dos Ofertórios” (2,4) p.37; 5. Assistência aos pobres, velhos e crianças: “A pobreza é uma aflição: falta de comer na vida, e de meios para as exéquias aos mortos” (4,18)p.39; 6. Escola e formação do povo “Recebe-se a vida dos Pais e a educação da Escola (5,14).p.40;7; Patriotismo “Disse Confúcio -Podendo pegar em armas, para proteger as Aras (O pão do povo) , embora não se queira morrer novo, não será mesmo louvável?”; 8. Governo “as armas de guerra são símbolos de vitória. Os instrumentos de bondade são instrumentos de eficácia” 1,33) p.41; 9. Justiça” O castigo dos erros tem que corresponder aos factos. Exame a fundo dos casos e das pessoas, Trâmites da Justiça.” (5, 31) p.43 e, finalmente, o número 10 “Todas as coisas têm o seu princípio em Deus, sendo o princípio dos homens os seus Antepassados que por isso são comparáveis ao Senhor do Alto” (11, 21) p.45. Muitos outros pensamentos e princípios estão incluídos nestes dez números aqui destacados.

A terminar a Introdução, no IV Capítulo são referidas as cinco versões do Cerimonial, sendo a última a do autor que explica que os leitores poderão considerar poucas notas críticas e adverte: “na presente edição, o texto chinês, em caracteres e em alfabeto, de cada Caderno vem todo primeiro, seguido da versão portuguesa do respectivo Caderno”. (p.52.). O livro é, depois constituído pelos doze cadernos, onde há um séquito de instruções e ensinamentos que, devido à sua extensão, é inviável entrar nessa floresta didática. São instruções e conselhos sobre a idade, alimentação e cuidados que o ser humano deve ter como orientação ao longo da vida e na convivência com os outros. Não podemos esquecer que sendo o Pe. Guerra católico e conservador, conviveu muitos anos com outras doutrinas e sistemas políticos, o que lhe causou grandes dissabores e sofrimentos. A título de exemplo, lembramos que o ritual para católicos e a tradição sacerdotal israelita têm relação com perdão de pecados e salvação. Para os confucianos, o rito tem um raio de ação comparativamente mais amplo. Inclui, segundo o “Livro dos Ritos”, ordenamento social. Os confucianos seriam neste ponto muito modernos. Teriam, em adição à dimensão religiosa do rito, um entendimento descritivo ou científico dos seus efeitos na esfera da sociedade: o rito como instrumento para a política. NOs Analectos”, pode ler-se:

“Se conseguimos governar o país observando o ritual e demonstrando deferência, nada há mais para ser dito. Se não conseguimos governar o país observando o ritual e demonstrando deferência, qual a utilidade do ritual?” (Confúcio, 2005, p. 18). Num estudo sobre “Rito e Reforma: Breve comparação entre as tradições Bíblicas e o Pensamento confuciano”, o autor escreveu sobre o Pe. Guerra “Segundo o “Livro dos Ritos”, ou “O Cerimonial (conforme a tradução do sinólogo Pe. Joaquim Angélico de Jesus Guerra), as notas musicais correspondem à hierarquia e a certos aspectos da sociedade: As cerimónias, a música, a legislação e os castigos têm o mesmo fim em vista: “São maneiras de uniformizar os sentimentos do povo e fazer conhecer a sua maneira de governo” (Pedro Regis Cabral). O Nosso Missionário apreciava a verdadeira música, porque interpretava-a como uma espécie de mediadora entre o céu e a terra – por ela ascendia a Deus.

A mesma atitude de Vergílio Ferreira que se confessando “ateu” subia ao Céu com a música de Cristina. A sua morte deixa o Professor incrédulo e pensa que foi um erro de Deus; é, assim, que resolve definitivamente o seu problema com o Criador, apesar da corrente que ligava a terra ao céu ter sido quebrada e a sublimidade da música não existir sem os dedos de Cristina, ele ouve-a “Na dobra do lençol tu sentias o teu piano, tu tocavas, Cristina, tu tocavas para ti e para mim. Música do fim, a alegria do subtil desde o fundo da noite, desde o silêncio da morte. E eu ta ouço agora, Cristina, gelado à lua verde deste Março na montanha,,,” (Aparição, p. 205)

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau