Benjamim António Videira Pires [1916-1998], transmontano de Mirandela e sacerdote jesuíta, foi uma figura de destaque no panorama cultural de Macau. Era uma personalidade discreta e tímida, amável e generosa, mas com uma grande envergadura intelectual. Benjamim Videira Pires [BVP] distinguiu-se como educador e fundador do Instituto D. Melchior Carneiro, sobretudo como investigador da história de Macau e da presença portuguesa no oriente extremo, sem esquecer a sua afeição pela poesia, que foi cultivando e publicando ao longo da sua vida. A sua bibliografia é deveras importante e alguns títulos merecem ser reeditados e traduzidos, por exemplo, “Os Extremos Conciliam-se” e “Portugal no Tecto do Mundo”, ambos publicados, originalmente, pelo Instituto Cultural de Macau, em 1988.

Evoco aqui e agora as suas primeiras impressões de Macau, datadas de 1949. Ficaram registadas no livro “Meia Volta ao Mundo”, edição Religião e Pátria, Macau, 1958. Nota-se o fôlego literário do narrador que se preocupa em justapor a dimensão religiosa ao curso da história. É um livro com 185 páginas, das quais 10 são de ilustrações, contendo 16 cartas, a primeira de 10.XI.1948 e a última de 21.I.1949. Situa essa correspondência nestas referências: a bordo do navio Kertosono; Génova; Mar Mediterrâneo; Mar Vermelho; Estreito de Bab-el-Mandeb; Batávia; Macau; Shiu-Hing. Os companheiros de viagem com os quais privou quotidianamente foram o médico cirurgião Tito Simões, o professor do Liceu de Macau João Ferreira Felício, o funcionário da Fazenda de Macau, Armando Faria e a médica Elsa de Senna Fernandes.
Recorda BVP: “Em fins de 1948 realizei, num barco misto, uma longa travessia, que durou mais de dois meses, desde Lisboa até ao interior da China, passando por lugares assinalados pela epopeia de Portugal”. Fixou as suas observações num registo meticuloso, em jeito de um diário, pelo que as “narrações que se seguem, em forma de cartas, são o resultado sincero do meu contacto de latino com esses ‘novos céus e novas terras’ por onde andei”.
Quando o navio atracou em Hong Kong, a 8 de Janeiro de 1949, BVP encontrou o Padre jesuíta Joaquim Guerra e juntos fazem um amplo reconhecimento da colónia britânica, cujo desenvolvimento os deixa deslumbrados.
Anota BVP no seu diário: “A Catedral foi obra das esmolas da comunidade portuguesa de Hong Kong e Kowloon, em grande parte. Quando os Padres das Missões Estrangeiras de Milão tomaram conta, em 1858, do Vicariato de Hong Kong, os únicos católicos que aí encontraram eram portugueses”. Deixa-nos estas impressões de um observador arguto: “Em Hong Kong há todas as belezas naturais: fervilhar de grandes aglomerados urbanos, arranha-céus, avenidas largas com eléctricos, buses e toda a espécie de veículos, campos de jogos e estádios, hotéis nos picos dos montes, praias deliciosas, aldeias rústicas de pescadores e camponeses, pagodes de Tseng-Shán e de Sai-Lam com os seus mosteiros de bonzos, enfim, um Oriente em miniatura”.
A viagem para Macau implicou a mudança de navio com a respectiva transferência de bagagens: “o ‘Kuangtung’, em que embarcamos, é uma sucata velha, de chaminé alta como um charuto, protegida com vedações de arame farpado contra os piratas do Rio das Pérolas e dos canais sem conta do Delta do Sai-Kong (Sikiang) ou Rio do Oeste”.
É benévola a sua primeira impressão do Território, “No meio da cidade, sobressai a inundação das lâmpadas Osira da avenida Almeida Ribeiro, o pescoço de Macau, que tem, a sul, na freguesia de S. Lourenço, a cabeça, com os palácios do governo eclesiástico e civil e as repartições oficiais, e, ao nordeste, o corpo e os membros. No meio dessa artéria vital de Macau, distingo os caracteres azulados “Chông Yeong” (Central) do 12º andar do Hotel Central, o edifício mais alto do império”.
E não tem dúvidas, “Macau é, pois, terra nossa, porque a criamos do nada, a defendemos e conservamos até à actualidade”, e é com fervor nacionalista que descreve a coragem visionária e o martírio do Governador Ferreira do Amaral e o valor, a lealdade e o destemor da acção militar de Vicente Nicolau de Mesquita.
No dia 9 de Janeiro de 1949, BVP cumpre uma missão protocolar: “subo à Penha para visitar o Sr. Bispo, D. João de Deus Ramalho, SJ, que me leva no seu ‘Dodge’ cinzento ao Palácio do Governo, na Praia Grande. A sentinela landim, hirta no seu fez cor de vinho, saúda-nos, contra o regulamento… Sua Excelência o Governador, Comandante Albano de Oliveira, recebeu-nos imediatamente no meio dum à vontade fidalgo. Conta-nos que já esteve em Shiu Hing, sede da Missão dos Jesuítas Portugueses, quando comandava a canhoneira Macau”.
BVP faz um périplo exploratório da cidade e pensa para si próprio, “se nos apegarmos a este encanto de cidade, nunca mais a queremos deixar”. Palavras proféticas, sem qualquer dúvida. Só muito mais tarde é que ouviu falar do sortilégio da Bica do Lilau…
Perante as ruínas da Igreja de S. Paulo, BVP tem esta reflexão amplificante: “que poema estupendo se desprende dessa fachada e dessa escadaria soberbas, que nem os tufões, nem o ódio dos homens conseguem aniquilar! Os 60 volumes inéditos ‘Jesuítas na Ásia’ que apodrecem na Biblioteca da Ajuda são as laudas, ainda por abrir, dessa epopeia gigante de missionários, descobridores, diplomatas e sábios. A vida moderna, superficial e apressada, condenou ao esquecimento esses heróis de Deus!”. Heidegger tinha toda a razão quando dizia que conquistamos o sentido da palavra pensar quando nós mesmos pensamos.
Puxando a brasa à sua sardinha, BVP faz questão de enfatizar o papel desempenhado pelos jesuítas: “Macau deve a sua sobrevivência à acção diplomática dos jesuítas, deve a sua grandeza de centro de irradiação da civilização cristã por todo o Oriente sobretudo a esses proscritos. As ruínas de S. Paulo são o resumo monumental dessa verdade”. Depois de uma estadia breve em Shiu-Hing, na China, regressa a Macau.
Como conservador e nacionalista, BVP estava confortável com o regime político vigente, mantendo-se sempre fiel aos seus princípios doutrinários, “O Estado Novo, restaurado por um punhado de portugueses católicos, insuflou novo espírito na alma da Nação. Puseram-se de lado demagogias estrangeiradas e restituiu-se Portugal a si mesmo”.
E a profecia cumpriu-se: “É já a China a minha Epifania que, espero em Cristo, nunca mais terminará”. Com a ajuda da Bica do Lilau?
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



