Graciete Agostinho Nogueira [1925-1992], natural de Leiria, era formada em filologia clássica, com elevada classificação, pela Faculdade de Letras de Coimbra. Nesta cidade casa-se com um português de Macau, recém-formado em medicina, José Marcos Batalha, oriundo de uma velha família do Território. Doravante adoptará o apelido do marido, assinando Graciete Batalha. Partem ambos para Macau em 1949, o ano da fundação da República Popular da China. Tempos difíceis e desafiantes, como se compreende.

Não me irei deter na sua carreira de professora [Escola Primária Oficial, Liceu de Macau, Escola do Magistério Primário, Universidade de Hong Kong], porque os seus antigos alunos deixaram testemunhos marcados pela admiração e gratidão, pela sua exemplar figura de educadora e de pedagoga, criativa e exigente, mas humana e amiga.
A faceta de investigadora é também sobejamente conhecida, pelos seus múltiplos trabalhos que realizou com denodo e paixão [por exemplo, “Língua de Macau, o que foi e o que é”, 1958; “Glossário do Dialecto Macaense”, 1977; “Língua e Cultura Portuguesa em Goa – estado actual”, 1982; “O Chão de Padre e seus moradores portugueses”, 1986; “Este Nome de Macau”, 1987; “Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense”, 1988; “Bom Dia S’Tora! Diário duma Professora em Macau”, 1991].
Muito mais poderia dizer, mas queria apenas enfatizar este singular pioneirismo, de uma mulher portuguesa com uma presença assídua na comunicação social, também como conferencista e com uma esclarecida intervenção política, no Conselho Legislativo.
Graciete Batalha exerceu, através da imprensa, um amplo magistério cultural, ético, cívico e educativo na cidade, contribuindo para a formação e ilustração dos seus compatriotas. Nas páginas do “Notícias de Macau” e de “O Clarim”, Graciete Batalha escreveu extensivamente sobre muitos autores [Agustina Bessa-Luís, Fernando Namora, António Sérgio, Luís de Camões, Marquesa de Alorna, Stefan Zweig, Camilo Pessanha, Han Suyin, Luís Sttau Monteiro, Teixeira de Pascoaes, Harriet Low, Maria Montessori, Júlio Dinis, Hervé Bazin, José Maria Braga, Maria Anna Tamagnini, Adé, Luís Gonzaga Gomes, Altino do Tojal, Gil Vicente, José Miranda e Lima]. Era educadora dentro e fora da Escola. Não fugia a polémicas, que as teve civilizadas com o Padre Manuel Teixeira ou com Altino do Tojal.
Assinou artigos e ensaios noutras publicações de Macau [“Confluência”, “Mosaico”, “Boletim do Instituto Luís de Camões”, “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, “Revista da Educação” ou “Revista de Cultura”] e de Portugal [“Biblos”, “Revista Portuguesa de Filologia”, “Mundo Português”]. Abordou e escreveu sobre temas tão diferenciados como a sintaxe macaense, a importância da leitura, o folclore de Macau, a cozinha macaense, o combate ao consumo de drogas, os malefícios da pornografia, a educação cívica, o reordenamento da Praia Grande ou sobre Camões em Macau.
Graciete Batalha, no âmbito das actividades do Círculo Cultural de Macau, proferiu no salão nobre do Leal Senado, em 19 de Maio de 1955, uma conferência intitulada, “A Mulher na Obra de Júlio Dinis”, elogiosamente apreciada na imprensa local. Registo aqui as palavras de apreço do erudito governador de Macau, almirante Joaquim Marques Esparteiro: “Quem teve a oportunidade, como eu e muitos de nós, de ouvir no ano passado uma bela conferência da ilustre e erudita senhora, que é a Drª. Graciete Nogueira Batalha, acerca do príncipe dos poetas portugueses, não terá tido nenhuma surpresa com o triunfo que novamente alcançou. Terá, sim, ocasião de confirmar e de reafirmar o deleite que lhe causou a sua marcada intelectualidade, servida por dotes de exposição e clareza de linguagem que, na conferência de hoje, plenamente justificam os vibrantes e merecidos aplausos que acabam de lhe ser tributados por este selecto auditório. Neste nosso meio, em que tantas solicitações desviam a atenção nos mais diversos sentidos, nem sempre favoráveis à cultura, a Srª. Drª. Graciete Batalha marca posição inconfundível e dá-nos mais uma prova das alturas que as senhoras podem atingir nos domínios do pensamento”.
A Biblioteca Central de Macau/Instituto Cultural de Macau prestaram-lhe uma singela homenagem póstuma, em 1995, editando o livro, “Graciete Batalha – Catálogo da Exposição Fotobibliográfica e Documental”, muito útil para o conhecimento e estudo da sua obra e do seu percurso.
O Instituto Internacional de Macau também homenageou Graciete Batalha, em 2010, dedicando-lhe uma pequena monografia na Colecção Mosaico, do autor destas linhas.
Para lembrar os 100 anos do nascimento de Graciete Batalha, seria oportuno editar alguns inéditos e promover uma nova edição de “Bom Dia, S’Tora! Diário de uma Professora em Macau”. Este livro deveria ser de leitura obrigatória nas escolas onde se formam os professores.
Graciete Batalha, que ainda conheci, é uma das personalidades portuguesas mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.



