José Gomes da Silva [1853-1905] é uma figura marcante em Macau e em Timor. Natural do Porto, formado em medicina e médico militar, José Gomes da Silva foi um homem com vários interesses intelectuais e culturais, como o jornalismo, a música, a literatura, ou a botânica. Amigo e correligionário de Afonso Costa, José Gomes da Silva, com a patente de coronel, chefiou os Serviços de Saúde de Macau e Timor e foi Reitor do Liceu em três diferentes ocasiões. Mais tarde, terá o seu nome numa rua e será o patrono da Escola Preparatória.

É uma personalidade escassamente estudada e deixou uma obra científica extensa e deveras interessante, que cito a título exemplificativo: “Relatório da Epidemia da Cólera-Morbus a bordo do Transporte Índia e nos Lazaretos de Macau, 1885”; “Catálogo das Plantas de Macau e Timor, 1887”; “Relatório sobre os Serviços de Saúde de Macau e Timor, 1887”; “Viagem a Siam, 1889”; “Em Timor: As Pesquisas na Região Aurífera; O Combate de Ayassa; O Serviço de Saúde, 1892”; “A Epidemia de Peste Bubónica em Macau, 1895”; “Rapport sur la peste bubonique a Macao et Lapa, 1897”; “O Andaço do Porto, 1899”. Em 1994 foi reeditado pelos Livros do Oriente, o título “A República em Macau”, originalmente publicado em 1896. Hoje venho chamar a atenção para outra obra esquecida de José Gomes da Silva, e valiosa em termos históricos, culturais e científicos, que lhe permitirá ocupar um lugar de destaque na história da medicina tropical ultramarina.
O Bispo de Macau, D. José Manuel Carvalho [1844-1904], “criou a cadeira de Noções de Higiene e de Medicina Prática” no Seminário de S. José, convidando para a sua regência o Dr. José Gomes da Silva, que a assumiu em regime de pro bono, escrevendo metodicamente todas as lições que no seu termo deram origem a um livro, justamente intitulado “Noções de Higiene e Medicina Prática, para uso dos Alunos do Seminário Diocesano de Macau”, impresso na Tipografia do Seminário, em 1899, com 137 páginas. Na última página do livro surge esta nobre menção: “o autor e o editor cederam todos os seus respectivos direitos a favor do estabelecimento das Irmãs Canossianas de Macau”.
Vale a pena recordar que em Macau se perfilharam ideias educativas de vanguarda ao serem adoptadas as obras de uma pedagoga francesa, Marie Pape Carpantier [1815-1878], traduzidas para português e impressas em Macau, como por exemplo, as “Primeiras Noções de Higiene postas ao alcance das Crianças – para uso dos Alunos do Grau Elementar da Escola Central de Macau”, publicada pela Tipografia Mercantil, em 1888. Não se sabe quem foi o mentor desta inovação ou quem fez as traduções. O que é uma pena.
A obra de José Gomes da Silva [JGS] destinava-se a futuros sacerdotes e era um enriquecimento para a sua formação, escrita com muita clareza e informação científica e técnica. Aqui e além estava impregnada de avisados conselhos para a vida prática, seguindo as regras da boa moral do estoicismo de Séneca.
JGS abre o livro com estas palavras premonitórias: “Hoje que, mais que nunca, a pátria do homem é o mundo, todo o homem chamado a viver fora do meio em que nasceu e a sofrer a acção de climas inóspitos para a sua raça, precisa de munir-se de alguns conhecimentos gerais de higiene, que o preservem de grande número de males resultantes da ignorância dos princípios que presidem à manutenção da saúde”.
Era importante estar preparado e de sobreaviso para alguns terríveis flagelos, como a peste bubónica [Macau: 1895, 1896; Hong Kong e Cantão: 1894, 1896, 1898], a cólera-morbus [Macau: 1862, 1888; Timor: 1893] e influenza [Macau: 1874, 1891], pelo que toda a informação era preciosa.
E tendo em consideração a especificidade do múnus sacerdotal, lembra JGS que “acresce a circunstância de terdes também por família a humanidade, a cuja salvação espiritual ides dedicar o melhor das vossas forças, na luta contra o obscurantismo, de que urge fazer sair essas almas, ainda hoje dispersas pela vasta extensão da diocese em que sois chamados a trabalhar. Muitas vezes, infelizmente, por mais que respeiteis a higiene e os seus princípios absolutos, a acção deprimente e enervante dos climas tropicais e palustres há-de quebrar-vos temporariamente os braços e desalentar-vos os esforços, se tiverdes de recorrer à medicina e o médico residir a muitas léguas de vós”. Este livro é, na sua modéstia, “uma arma importante de catequese” para o “sossego e bem estar do corpo” e também para o “bem estar e sossego da alma”.
A tábua de matérias do livro é a seguinte: 1- Preliminares: funções de nutrição; funções de relação. 2- Higiene Privada: alimentação; exercício; banhos; vestuário; habitação; meio social. 3- Medicina Prática: endemias e epidemias; doenças generalizadas não epidémicas; doenças comuns no aparelho digestivo; doenças comuns no aparelho circulatório; doenças comuns no aparelho respiratório; doenças comuns no aparelho urinário; doenças comuns da pele; doenças comuns no aparelho locomotor; doenças comuns no aparelho da inervação; doenças comuns nos órgãos dos sentidos; envenenamentos; chave sinóptica do diagnóstico. 4- Formulário: classificação dos medicamentos; medicamentos para uso interno; medicamentos para uso externo.
JGS chama a atenção para este aforismo tão velho quanto sábio: “o médico pode curar algumas vezes, alivia muitas e consola sempre”. E continua a explanar as suas ideias: “educados na abnegação da vossa individualidade, sobrar-vos-á a paciência onde vos escassear a ciência; e o que não fizerem os vossos conhecimentos técnicos poderá porventura fazê–lo a virtude sublime de que sois apóstolos – a Caridade”. E deixa estes quatro princípios para a actuação no terreno: “1- A higiene é e será sempre a mais poderosa arma de combate contra a doença; 2- Quando estudardes a doença, estudai ao mesmo tempo o doente; 3- O saber esperar vale, muitas vezes, o saber curar; Se não souberdes curar, aliviai; se não puderdes aliviar, consolai”.
JGS dava uma importância extraordinária ao meio social e à sociedade onde somos chamados a viver e a conviver. Dizia que Macau e Singapura eram terras “civilizadas”. Mas há “terras em que o obscurantismo predomina ainda e em que a civilização bruxuleia apenas, o mister de missionário é decerto duro e arriscado, mas a dedicação e a prudência podem substituir a segurança e o conforto que ali escasseiam”. Referia-se concretamente a Hainão e a Timor onde “a vida do padre tem, como a de qualquer outro funcionário, pântanos que convém evitar e montanhas que é preciso saber transpor”.
JGS faz a síntese da sua obra nestes oito aforismos, com um toque de humor final: “1- comer bem e a tempo; 2- manter a justa proporção entre o exercício e o alimento; 3- conservar a pele sempre limpa e agasalhada; 4- respirar bom ar; 5- evitar excessos de qualquer natureza; 6- respeitar os hábitos adquiridos; 7- saber ser feliz; 8- fugir do médico e da farmácia”.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



