Jorge Silva*
Jorge Silva*

Não sabemos, no momento em que escrevo estas linhas, como vai acabar o Caso ou a Questão de Hong Kong, mas há várias lições a tirar de uma situação lamentável que se instalou na RAEHK, onde um genuíno protesto contra a Lei da Extradição deu origem a cenas de inaudita violência que mancharam a causa democrática e o Movimento que lhe dá o nome.

O núcleo duro do Movimento está encurralado no Campus da Universidade Politécnica durante dias, após ter cometido um erro de palmatória quando escolheu a instituição como a nova barricada. O cerco da Polícia fez com que cerca de 600 estudantes acabassem por sair, incluindo 200 menores… Como? 200 menores, sim senhor, miúdos de 12 anos, 13 ou 14, cuja consciência política deve ser, na verdade, muito apurada…

Isto é, o Movimento recorreu a menores, através da manipulação de factos ou narrativas, romanceadas a seu bel-prazer, porventura chamando a atenção para perigos imaginários que poderiam colocar em causa a sobrevivência de Hong Kong.

Foi essa radicalização deste Movimento, dito democrático, que expôs o seu propósito da narrativa violenta – a melhor forma de defendermos a cidade que amamos, é a destruição e a melhor forma de defendermos as nossas ideias, é impedir os outros de terem outras ideias, outras formas de pensar.

Como se faz isso? Segundo este Movimento, através da agressão a civis, de preferência idosos, por grupos cujos comportamentos foram e são delinquentes. Dono da rua e da verdade, não admitindo o contraditório, este Movimento julgou que poderia fazer tudo o que lhe apetecesse em nome da Democracia e Liberdade…

Essa causa nobre, foi defendida, nas ruas de Hong Kong, por dois milhões de pessoas que obrigaram uma insensível, incompetente Chefe do Executivo, Carrie Lam, a retirar a Lei da Extradição. Principal responsável pelo caos de Hong Kong, nestes meses de brasa e chumbo, Carrie Lam já devia ter pedido a demissão ou ser demitida pelo Governo Central.

Mas, o Movimento dos garotos irresponsáveis, se apropriou da causa e partiu para outra. Ninguém sabe se esse Movimento tem liderança ou se quer negociar, mas as suas posições e acções indicam, exactamente, o contrário.

Desde 1997, Hong Kong foi tendo os piores Chefes do Executivo e os piores Governos que se possam imaginar que contribuíram para o actual estado da sociedade vizinha, sempre com a prestimosa ajuda de Pequim, que só se preocupou com questões securitárias e natureza política, asfixiando, aos poucos, a cidade, no intervalo dos raptos a livreiros pouco patrióticos, mas que divulgavam a verdade, para incómodo da Nomenclatura chinesa.

A cidade já esteve, neste cinco meses, mais irrespirável do que agora, com a aparente neutralização do núcleo duro do Movimento, cercado na Universidade.

A luta pela Democracia e a Liberdade não vai acabar em Hong Kong, certamente, mas, por favor, não deixem que estes delinquentes jovens sejam os arautos da mensagem…

 

* Jornalista