Jorge Silva*

Jorge Silva*

Se já era de difícil compreensão o afastamento dos dois juristas da Assembleia Legislativa, Paulo Cardinal e Paulo Taipa, a contratação da juíza portuguesa Maria José da Costa Machado revela que, na base da primeira decisão, foi desencadeado um processo, puro e simples, de saneamento político.

Até este lamentável episódio da não renovação dos contratos de Cardinal e Taipa, confesso que tinha outra ideia do presidente da Assembleia Legislativa, Ho Iat Seng, resultado de esporádicos contactos num passado já distante. Dele tinha a ideia de um homem afável, amigo dos portugueses e das comunidades em geral.

Essa ideia começou, no entanto, a desvanecer-se à medida que o caso Sulu Sou ganhava forma e força no seio da AL, numa altura em que os deputados do sistema queriam limpar, politicamente, o jovem e inofensivo deputado que tanto medo mete ao poder e aos empresários amigos.

Mas o cúmulo foi atingido com a escovadela dos dois juristas, profundos conhecedores  de Macau e das suas gentes, sobretudo ao nível das leis e do funcionamento da Assembleia. O presidente da AL alegou, na altura, que havia um plano de reestruturação que nunca ninguém chegou a conhecer, argumentando, também que as pessoas não são eternas no cargo…

Ora, quem faz este tipo de afirmação para justificar afastamentos de pessoas, deve ter o bom senso e dar o exemplo… Nada temos contra a contratação da juíza Maria José da Costa Machado, cuja competência não duvidamos um segundo, mas, certamente, irá passar por um período de aprendizagem do que é Macau e o seu edifício legislativo conectado à AL, algo que Cardinal e Taipa possuem em fartura…

Os dois juristas poderão ter sido afastados a partir uma bufaria interna junto do presidente da Assembleia que, já se viu, não gosta de vozes diferentes, pareceres diferentes e de ser incomodado com perspectivas outras da realidade. A chegada da juíza seria, contudo uma mais-valia, desde que Cardinal e Taipa continuassem nos seus lugares na AL.

Em sentido contrário, o presidente da AL devia explicar a razão da substituição ou da troca.

Ho Iat Seng acabou mal o ano e começa muito pior o novo ano. Para quem quer ser o futuro Chefe do Executivo, o caminho seguido está longe de ser o melhor…

 

* Jornalista