Morrer em Moçambique… de cólera, de fome, de sede… de tudo isto e muito mais se morre em Moçambique. A maior tragédia humana jamais acontecida naquelas terras sem fim. Os nossos corações estão naquela tristeza, uma tristeza feita de todas as tristezas. A imprensa de todo o mundo fez dela durante dias a grande notícia das primeiras páginas. A RTP tem lá uma equipa de reportagem que nos vai mostrando os piores dramas humanos: “O Pai? pergunta a Jornalista – Caiu de cima do telhado por não ter mais força. – e a Mãe? Ela foi com a água…” Respostas de uma rapariga negra muito nova que segurava nos braços uma menina branca.
A primeira vez que ouvi falar de Moçambique foi num livro da 4ª classe ao ler um episódio de Mouzinho de Albuquerque que fez vibrar Portugal: –
– Levanta-te ó Soba e vem beijar de joelhos a mão do representante do teu Rei! E Gungunhana levantou-se e avançou sozinho diante de 2000 dos seus guerreiros – os temíveis vátuas – lanças apontadas ao peito de Mouzinho ajoelhou como este lhe ordenara e beijou-lhes as mãos. Portugal, do Rei aos pastores das serras vibrou de alegria e admiração. Um Herói! Um Herói que pôs a Nação em festa.
Segundo Afonso Lopes-Vieira, leiriense como eu e como Mouzinho disse um dia que há três monumentos na História da nossa Cidade: o seu formidável Castelo, o grande Poeta Rodrigues Lobo e Mouzinho de Albuquerque. Quem diria que só algumas dezenas de anos depois, estas páginas iriam ser queimadas como Os Lusíadas nos pátios dos Colégios e dos Liceus… Eram “fascistas”…
Só que – “as malhas que o Império teceu”… – passadas mais algumas dezenas de anos é Portugal o primeiro país a correr para Moçambique e a despejar aviões e mais aviões cheios do que tem e do que não tem para salvar da fome, da doença e da morte os moçambicanos – milhares e milhares de negros moçambicanos – das fúrias dum ciclone devastador. Negros salvos por militares brancos – os mesmos militares que antes os haviam combatido – que trouxeram nos braços e lhes mataram sede, fome e doenças assassinas que os iam matar em poucos dias sem cuidar, como nós também não, da cor da sua pele. “A maneira portuguesa de estar no mundo”, diria Gilberto Freyre. Em Setembro o Papa vai lá para lhes levar Cristo, a única coisa que tem no seu coração, como disse uma antiga Presidente do Brasil que nem sequer percebeu o que ele queria dizer.
Há anos, numa viagem oficial a Moçambique o avião fez escala em Joanesburgo. Sabendo que ia para um hotel com uma grande piscina e um belo sol tropical, percorri as lojas da pequena galeria do aeroporto para comprar um qualquer protector solar ou um bronzeador que me salvassem da violência dos raios de sol que me esperavam. Na última, ao ver a minha surpresa, a vendedora – uma rapariga branquíssima, loiríssima e de olhos bem azuis – disse-me martelando as palavras: “Não encontrou nem vai encontrar. Aqui branco é branco e preto é preto”.
O mundo ajoelhou à passagem do funeral de Nelson Mandela. Frederik De Klerk – ainda mais importante do que ele no acordo que pôs fim ao apartheid ninguém se lembrou. Era branco…
O avião que, depois, me deixou no aeroporto de Maputo, a pequena comitiva da área do Ensino Superior que nos aguardava (a mim e aos meus colegas de Macau), presidida pelo Reitor da Universidade local era toda composta por professores negros. Nós, por acaso, éramos todos brancos. Lembrei-me da menina loira da boutique de Joanesburgo: “branco é branco e preto é preto”. Em Moçambique não é e em Macau também não. Nem no tempo de Mouzinho de Albuquerque que não prendeu o Gungunhana – apenas o exilou para o Açores com a Família.
E nem agora que mais do que as grandes potências do Mundo e as suas ainda maiores organizações deram do que lhes sobra mas não do que lhe faz falta como a pobre viúva que deitou só uma moeda na Arca do Tesoiro do Templo de Jerusalém, como Lucas escreveu no seu Evangelho.
*Ex-presidente do Instituto Politécnico.



