O major Acácio Francisco Leão Cabreira Henriques proferiu uma conferência intitulada “Monumentos Nacionais Existentes na Província de Macau”, no Salão Nobre do Leal Senado da Câmara, no dia 26 de Maio de 1955 e integrada no 3º Ciclo de Conferências promovidas pelo Círculo Cultural de Macau. A conferência foi publicada num opúsculo, ilustrado, com 58 páginas, em 1956.
Acácio Cabreira Henriques [ACH] era uma figura culta e grada da comunidade local, comandava o Agrupamento Misto das Forças da Guarnição e presidia ao Conselho Administrativo do Comando Militar de Macau. E na qualidade de presidente da Comissão Administrativa do Clube Militar dá as boas vindas, em 30 de Junho de 1952, ao Ministro do Ultramar, comandante Sarmento Rodrigues, agradecendo-lhe “o abraço fraterno e o conforto moral a todos os que labutam nestas longínquas parcelas de Terras bem Portuguesas”.
Esta conferência inseria-se no plano de actividades do Círculo Cultural de Macau e era manifestamente um símbolo da vitalidade cultural e cívica da comunidade portuguesa, tantas vezes acusada de estar indiferente perante o património edificado e afastada dos problemas da cultura do espírito. É uma reflexão em voz alta sobre a defesa do património, um assunto muito sensível e delicado, que mereceu a atenção de quase todos os governadores, e cuja intervenção nem sempre foi pragmática, firme e manifestada em tempo útil. E as queixas vêm desde o princípio do século XX, conforme se pode ler nas crónicas de Manuel da Silva Mendes.
A década de cinqu
enta era um tempo em que o patriotismo estava fortemente vinculado às marcas visíveis da soberania, aproveitando-se todos os vestígios para dar brilho ao nacionalismo: “uma velhinha muralha constituirá para a Nação, uma relíquia sagrada, relembrando quase sempre feitos heroicos dos nossos antepassados. E assim o entendeu o Governo de Salazar, que muito patrioticamente tem mandado restaurar todos os antigos castelos da Metrópole”. Cumpria-se militantemente o axioma, A Bem da Nação, uma pedra angular do Estado Corporativo.
ACH na sua conferência, divide os monumentos nacionais em Macau, em três grandes categorias: monumentos religiosos, monumentos militares e monumentos diversos. Adiciona, ainda, para cada uma destas divisões, alguns imóveis de interesse público que seriam susceptíveis de merecer uma cuidadosa preservação.
Os monumentos religiosos elencados por ACH foram os seguintes: Ruínas da Igreja da Madre de Deus (vulgo S. Paulo); Igreja de Nossa Senhora da Esperança (S. Lázaro); Igreja de Santo Agostinho; Igreja da Sé Catedral; Igreja de S. Lourenço; Igreja de S. Domingos; Igreja do Seminário de S. José; Igreja de Santo António. Cada uma destas igrejas é objecto de uma descrição sumária, que permite enquadrá-las no seu tempo e na especificidade do seu culto. Acrescenta também estas Igrejas: Ermida da Penha, a Igreja de Santa Clara, a Igreja da Missão de Fátima (no Bairro Tamagnini Barbosa), a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Ilha da Taipa e a Capela de S. Francisco Xavier, na Ilha de Coloane. Estranhamente, não há referências a templos chineses.
Os monumentos militares são os seguintes: Fortaleza de S. Paulo do Monte, Fortaleza de Nossa Senhora da Guia e Fortaleza de S. Tiago da Barra. Há ainda a considerar a Fortaleza de D. Maria II, a Fortaleza de Nossa Senhora do Bom Parto e a Fortaleza de S. Francisco.
Quanto aos Monumentos Diversos: a Gruta de Camões (“em cuja Casa esteve hospedado o antigo Presidente Grant dos EUA”); a Porta do Cerco; o Monumento da Vitória; o Monumento a Ferreira do Amaral; o Monumento a Vicente Nicolau de Mesquita e o seu busto no Cemitério de S. Miguel Arcanjo; o Monumento a Vasco da Gama; Monumento Comemorativo da Acção Contra os Piratas, na Vila de Coloane. Refere também estes edifícios com interesse público: Palácio do Governo, na Praia Grande; os edifícios do Leal Senado, da Santa Casa da Misericórdia, o Hospital de S. Rafael, o Hospital de Kiang Wu e a residência do Dr. Sun Yat Sen.
ACH faz esta desolada reflexão: “É pena que tenham sido destruídos alguns edifícios de certo valor histórico e arquitectónico dos séculos passados, quando Macau tinha possibilidades para a sua restauração”. Para tentar suster algum voraz ímpeto imobiliário, julga que “seria de absoluta conveniência e até copiosamente interessante que os Monumentos Nacionais fossem cercados das respectivas zonas de protecção, onde não pudessem ser feitas quaisquer edificações atentatórias do respeito que lhes é devido”. Alguma coisa foi feita neste sentido, mas manifestamente muito pouca.
Em termos doutrinários, esta proposição de ACH está em linha com a educação cívica e humanista propugnada pelo Estado Novo: “É no culto do passado e na elevação dos nossos heróis, que devemos cimentar cada vez mais, as virtudes do nosso lusitanismo, tão bem radicado pelo saber e profundos sentimentos das gerações passadas”. Passando a corta-mato pelas ideologias, esta proposição mantém uma indesmentível actualidade.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



