João Figueira *
O homem-aranha está de luto. O Incrível Hulk também. O artista que os inventou e desenhou foi-se embora, aos 95 anos. Stanley Martin Lieber, que escreveu obituários para o Centro Nacional de Tuberculose, passou por empregos vários, antes de passar a assinar Stan Lee, como sempre, aliás, o conhecemos. Quase sempre os criadores de figuras populares da BD apagavam-se diante dos heróis que inventavam e ganhavam vida própria. Com Stan Lee, a fama e o proveito e uma vida intensa e cheia daria também para uma boa série, onde a ficção se fundiria com a realidade.
Há casos assim, de verdadeira excepção. Em Portugal, e a um outro nível, podemos lembrar o exemplo de Reinaldo Ferreira, o famoso Repórter X, que um acaso de dactilografia transformou nesse enigmático nome, que fez história e ficou na história do jornalismo das primeiras décadas do século XX.
Ao invés de Stan Lee, que estava a caminho de ser centenário, Reinaldo morreu jovem: 35 anos intensos, de muita morfina e quotidiano agitadíssimo. Muitas das suas reportagens terão sido inventadas, como, certamente, também foram as últimas palavras de Sidónio Pais, assassinado na estação do Rossio, e que o Repórter X garantiu ter ouvido e por isso as escreveu a toda a largura do jornal O Século: “morro bem! Salvem a Pátria”.
Habituado a uma vida de boémia e a criar figuras a que dava vida nas reportagens que publicava, Reinaldo era, à sua medida, um caricaturista da Lisboa dos anos 20 e 30, embora tenha vivido em Espanha durante um escasso período, em que se dedicou ao cinema, antes de ser corrido por Primo de Rivera, que convivia mal com tanto sarcasmo e desassossego.
Poderíamos ainda incluir aqui o Luiz Pacheco, esse escritor notável, desbocado, que morreu como viveu: pobre e às custas dos amigos. E de um subsídio mensal de 120 contos, à época, da Secretaria de Estado da Cultura, a que se somavam mais oito contos e quinhentos da Sociedade Portuguesa de Autores. Era com isso que pagava o lar em Setúbal, onde dava entrevistas provocadoras e foi definhando até aos 83 anos, quando a sua voz se calou para ficarmos com a sua literatura: “como morrerei, colapso, desastre, loucura súbita e logo suicida”.
A sua vida dava um filme – porque o documentário já existe. Mas um filme à séria, capaz de vir sem tremores nem tremuras enfrentar os temas da actualidade: pederastia, pedofilia, homossexualidade, incesto e libertinagem.
Por falar em filmes, corre actualmente na RTP2, às sextas à noite a série 3 Mulheres. Em breve vai andar por aí a versão cinematográfica, mais compacta, para ser digerida entre pipocas e coca-cola. A estória centra-se no percurso de Natália Correia, Snu Abecassis e Maria Armanda Falcão, antes de se tornar Vera Lagoa. Estamos no início dos anos 60, nas lutas clandestinas, nos saraus privados de poesia, da PIDE e da censura, do assassinato de José Dias Coelho, que Zeca Afonso haveria de imortalizar em “A morte saiu à rua”. O Pintor de que fala a música é José Dias Coelho, militante comunista e pintor, casado com a irmã de José Tengarrinha, então casado com Maria Armanda Falcão, que fora secretária de Humberto Delgado na campanha eleitoral de 1958.
Como o homem-aranha de Stan Lee, que umas vezes era aranha, outras vezes homem de identidade desconhecida, também nessa época, nos alvores dos anos 60, noutras latitudes, havia outros homens que eram obrigados à mesma ginástica de identidade. As suas vidas também deram e dão filmes. Nestes casos, personagens e intérpretes confundem-se e fundem-se. E como Stan Lee, algumas dessas personagens viram mitos, ou seja, vão além da realidade. E quando o mito se impõe à realidade, para parafrasear a frase mais emblemática do filme “O homem que matou Liberty Valance”, publique-se o mito.
* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau



