Albano Martins*

Albano Martins*

Eram 11 da manhã do dia 1 de Dezembro de 2011, quando tudo começou.

O meu alzheimer afinal de contas ainda anda a funcionar dentro do razoável, que razoabilidade começa a escassear por esta aldeia grande.

Embora esteja há tantos anos em Macau, vai fazer em Novembro 37 anos, aprendi mais facilmente o Galguês do que o Chinês, o que apenas mostra a minha falta de capacidade em ver para além do meu próprio focinho.

Mas a vida é mesmo assim, homens perfeitos é outra raça que não a minha africana! E  a minha mulher não se queixa assim tanto, que é o que de facto interessa no final do dia!

Nesse dia 1 de Dezembro de 2011, alguma coisa terá acontecido comigo para a partir dessa data, já lá vão quase 7 anos, ter começado a estudar Galguês.

Fui introduzido por aquela praga de americanos que estudam tudo aquilo que nós nem sabemos que existe ou seja necessário partirmos a mola para percebermos.

Com os galgos, depois de ter percebido a sua mensagem, ficou apenas no ar um compromisso que não vou naturalmente revelar nem me parece que o Comissário contra a Corrupção vá ter capacidade alguma para o desvendar.

Primeiro, porque quem acordou comigo na altura já cá não está, liquidado como as dezenas de milhares de outros companheiros e companheiras que por lá davam ao litro, correndo atrás de uma lebre mecânica, apenas  para poderem sobreviver.

Mas dos três que comigo estiveram nesse tarde, apenas um ainda sobrevive, o que comigo faz dois, se estivermos a usar a nossa base decimal.

Claro, se a base for a binaria, dois é 10, mas enfim, deixo que os matemáticos ensinem isso das “bases” para observadores menos prevenidos!

Nessa altura foi-me pedido para os salvar a todos.

Apenas alguns estarão vivos hoje, que ninguém ou quase ninguém cá dentro desta aldeia me ajudou.

Fui a “solo só”, sem companhia alguma a não ser a minha perseverança de maçon!

Pois, não vi os que hoje berram todos preocupados com os pobres coitados que por ali ainda existem, mas nunca com os que por lá viveram.

A hipocrisia chateia-me, não é para inteligentes!

Fizémos um acordo, dizia eu, e em contrapartida, como financeiro especialista na matéria, tratei logo de criar uma petcoin.

E agora começa o famoso esquema de corrupção em que hoje estou metido até à cabeça, segundo há dias pareciam dizer as más línguas.

Mas eu sou especialista nisso e como tal dificilmente conseguirão ir atrás de mim.

Não se esqueçam que andei a estudar para galgo, como dizia a minha mãe.

Claro que não vou usar a minha associação para botar discurso e andar a vender outras coins que isso não fica bem e pode cheirar mesmo mal se a coisa der para o torto!

O que parece ter acontecido nesta aldeia gigante. Os anjinhos que me desculpem, mas quem se mete nela deve estar aí de alma e coração.

Vejam lá se alguma vez me viram protestar pelo negócio em que me meti!

Claro, refiro-me ao negócio dos galgos!

A minha sorte é que o Comissariado e os seus pares, ou ímpares, não falam galguês, portanto ninguém pode acusar-me de nada, a não ser a minha consciência de maçon.

Sim porque como maçon, tento defender a Verdade, a Justiça, a Honra e o Progresso.

E aí estou em casa, porque já vi a luz!

A ideia era produzirmos petcoins como recompensa para o nosso esforço de salvar todos os galgos ainda vivos.

Claro, que os que viviam em 2011, esses coitados já foram quase todos à vida.

Em Novembro de 2012, outro galgo foi ameaçado ir à vida também.

Esse é um galgo especial que consegue chegar àquela bonita soma de números que o meu Pai dizia em África quando jogávamos ao loto: “para cima, para baixo e para todos os lados, é o 69!”, embora hoje eu ache que isso já não dá, tem de ser mesmo para baixo que para cima é bem mais complicado!

De facto lembro-me bem do que a minha mãe dizia também quando era ainda pequenino e não queria comer, embora só hoje consiga perceber o alcance total da sua frase quando vejo aquela malta galga ainda viva no Canidromo: “andas a estudar para galgo?”

Eu que nunca na vida tinha visto galgo algum e duvido que ela também o tenha, que o meu cão Zorro era um simples rafeiro da Baía dos Tigres, protector dos seus amigos, que acabou por morrer com esgana!

Estou já habituado a ver muitos cães ladrar, nada que me assuste de facto, porque não se trata de leão algum de juba preta como aquele que me fez borrar e mijar nas calças algures entre Moçâmedes e Porto Alexandre, quando depois de uma tempestade de areia de quase um dia, resolvi sair para fazer essas necessidades, no lado contrário do volksewagen carocha de duas portas, de côr castanha achocolatada, do género daqueles usados na primeira guerra mundial, com chapa dura que se farta e vidros que não deixam cabeça alguma de leão algum entrar por lá.

Como aprendi com os meus cães, e dizem alguns mais ignorantes que só o homem é que é culto, essas coisas fazem-se o mais afastado possível do local onde estamos.

Pois, contornei o volksewagen do meu primo, baixei as calças e lá comecei a descarregar a bexiga e outra coisa lá mais para trás do corpo humano, quando de repente ao olhar para a frente decortino um senhor leão, deitado, a olhar para mim, calmamente, a uns 10 metros de distância.

Uma coisa enorme, quero dizer um animal enorme, é bom ser preciso senão ainda me expulsam da associação!

Bem, imaginem a minha aflição.

Medricas como era, eu que tinha medo do mar que me fartava e agora começava a aprender que também tinha medo do deserto, como os Bosquimanes que quando iniciavam o seu casamento tinham de passar uma semana fora da casa pelo que a noiva acabava por ficar solteira ou viúva, vá lá a gente saber, que os leões tratavam bem deles, comiam tudo e não deixavam nada!

A letra do Zeca, veio daí, acredito, dos leões que comem tudo e não deixam nada!

Resultado, devagarinho, a roçar o rabo pela chapa aquecida do volksewagen, contornei o carro, sem correr, pois também não podia que continuava a segurar as calças na mão direita, e consegui entrar dentro do carocha.

Conclusão, borrei-me e mijei-me todo no banco da frente onde estava.

Uma aflição para um jovem de 18 anos!

Imaginem pois essa minha aflição e o tempo que depois, já em Mocâmedes, levei para tirar aquele cheireto todo dentro do carro e explicar à minha mãe que o peixe se fôra!

Continuando com a minha mãe, com aquilo que ela dissera sobre os galgos,  cultura popular é mesmo cultura, não é apenas rabisco na memória que fica.

Hoje essas petcoins valem qualquer coisa como 1.320.834,60 patacas, números de finais de 2017 e foram todas devidamente utilizadas por uma instituição de utilidade pública, cujo nome, claro, nunca iria revelar.

Mas consta da sua contabilidade!

Neste momento só restam 532 galgos, embora Domingo passado, ao fim de escadas para cima, escadas para baixo, ter subido nove edifícios e ter apenas conseguido inventariar 519 habitantes dessa Galgácia!

Felizmente que  o esforço foi grande mas os 532 parecem estar lá todos, segundo nova contagem feita pelos meus novos colegas.

Mas galgo que se preze deve meter sempre o focinho comprido em tudo o que seja necessário para poder cheirar tudo como deve ser.

Ontem à tarde, lá voltei eu a subir agora nove escadas para verificar se me havia enganado de novo na contagem.

Espírito miúdinho o meu!

Não me havia enganado não senhor, o que aconteceu é que alguma dessa malta da Galgácia, ainda andava a passear-se à volta daquele tarrafal.

Hoje posso dormir mais descansado.

Miseráveis como eles estavam, dificilmente ficarão piores.

Por isso não consigo perceber nada dessa história de que estão agora mais maltratados do que no passado e de que há gente que vai ficar rica com qualquer coisa que se teria por lá passado.

Há dias que um homem acorda em sobressalto e há outros em que o sobressalto já faz parte da rotina de alguns mais probrezinhos de espírito, embora com grande coração.

Acabei por ficar com as petcoins todas, invenção minha e claro, só perdi o que era meu e nada do que fosse alheio, com a história recente que se badala um pouco por toda esta aldeia grande!

Galgos são hoje a minha aflição, mas galgas era coisa que já não me passava pela cabeça ter de encontrar nesta fase final dessa vida!

Há pessoas que quando começam a ser artistas de cinema perdem as estribeiras.

Subiram tanto que depois vão se magoar quando caírem!

Que raio de história me havia de calhar depois que vi o leão?

Acham que há coisa mais assustadora?