Jorge A. H. Rangel *
“Os versos de J. J. Monteiro são um hino à vida, em verso popular.”
Prof. António de Abreu Freire
O importante estudo do Prof. António de Abreu Freire, intitulado “O Roteiro do Verso Popular – Das Taifas do Al-Andaluz ao Delta do Rio das Pérolas” (IIM, Dezembro de 2014) foi objecto da nossa apreciação no artigo anterior, especialmente no que respeita ao valor do verso popular e à projecção finalmente dada ao maior poeta popular de Macau, J. J. Monteiro, cuja obra notável merece agora adequado reconhecimento.
Do Bunheiro a Belém do Pará
É também neste oportuníssimo trabalho de Abreu Freire que encontramos notas biográficas muito completas do poeta, das suas origens e do seu percurso, até à chegada a Macau, como jovem soldado do Exército Português, em 1937:
“Nascido em 1913, chegado ao Bunheiro (então pertencente ao município de Estarreja até 1926) com nove meses, foi lá que José Joaquim Monteiro viveu uma infância feliz que ele recorda em muitas quadras, sextilhas, décimas, duodécimas e sonetos, versos dedicados à terra, às gentes marinhosas e à família das Carmeiras, com quem foi criado por ter ficado órfão de pai em tenra idade. São sessenta e sete páginas das Memórias do Romanceiro de Macau dedicadas à infância e aos familiares do Bunheiro. Aos 6 anos de idade emigrou com a avó para o Brasil, ao encontro do avô, que já se encontrava em Belém do Pará com a mãe e o padrasto, destino traçado na palma da mão de milhares dos seus conterrâneos e já também do bisavô. A vida desta família de imigrantes no Brasil não correu bem e o jovem estava de regresso à terra com a avó aos dez anos, em 1923.
Os poucos anos que passou na capital do estado do Pará marcaram profundamente o adolescente atento a tudo quanto se passava à sua volta: ele conta com minúcia nos seus versos os conflitos familiares que afetaram fortemente aqueles anos, os ciúmes da avó que vigiava os desvios do marido deixado à solta no calor dos trópicos durante demasiados anos, a loucura do padrasto pelo jogo, a ruína e a sua morte, seguida da do avô e de uma irmã de dois anos e meio, as propriedades da família, a liquidação do património: tinham vacas e leitaria na rua 2 de Dezembro, casas e barracas na travessa 14 de Março, três hotéis e uma pensão na estrada da Nazaré, um barracão, uma hospedaria, um botequim e um telheiro na avenida 22 de Junho (atual Av. Alcindo Cacela, uma grande artéria da capital paraense) e uma quitanda na praça da Nazaré (Memórias (2013), 81). Pela lista dos bens familiares, aquela era uma família de imigrantes bem-sucedida que em dada altura teve percalço na vida e se arruinou rapidamente. (…)
José Joaquim Monteiro transportava na sua bagagem cerebral desde criança um gosto inato pelos versos e foi o que mais o marcou durante os anos que viveu no Brasil: analfabeto como nessa altura cerca de 85% da população portuguesa, cresceu exercitando a memória, porque apenas aprendeu a ler e a escrever na tropa, quando se alistou aos dezanove anos. O acesso tardio à literacia desenvolveu nele a oralidade, graças aos versos populares que o tinham entusiasmado quando escutava os cantadores nas festas da sua juventude pelas terras marinhoas, o que ele descreve minuciosamente. O Marques Sardinha de Avanca era assíduo nos arraiais, um homem do povo que aprendeu na escola da vida, respeitado e temido pelo seu verbo: ele andava nas bocas do mundo e era um personagem admirado que muitos gostavam de imitar.”
O livro “Memórias do Romanceiro de Macau”, de J. J. Monteiro, foi publicado pelo Instituto Internacional de Macau em 2013, na sequência de “Meio Século em Macau” (em dois volumes) em 2010.
Do regresso à terra até aportar a Macau
É deveras fascinante acompanhar o relato da vida singular do poeta:
“No regresso do Brasil, com pouco mais de dez anos, o adolescente contava em verso e com o sotaque brasileiro, aos amigos de Lisboa e do Bunheiro, as suas vivências e aventuras pelo Pará, entusiasmando os ouvintes ao ponto destes lhe oferecerem dinheiro: Tantos tostões eu juntei/ que o Caetano, prazenteiro/ logo ali, ao fim duns dias/ ofereceu-me um mealheiro. Fez nova tentativa de frequentar a escola mas sem sucesso, porque o brasileiro preferia as brincadeiras libertinas que a grande capital lhe proporcionava, com a cumplicidade de uma virgem perversa chamada Elvira; mas entretanto o jovem foi perdendo naturalmente o sotaque brasileiro e o interesse dos companheiros e vizinhos pelos seus versos diminuiu: Ao fim dum mês de cá ‘star/ vi falir meu mealheiro/ porque perdi toda a graça/ do sotaque brasileiro.
E foi o regresso à terra dos tempos de criança, ao Bunheiro: de comboio até Estarreja, de carruagem de cavalos até ao Monte e de carro de bois até ao lugar da Mata. Antes de emigrar para o Brasil a avó Joana vendera quase tudo quanto possuía e agora avó e neto regressavam a uma casa mais pobre e arruinada do que a que deixaram: tinha um poço, uma figueira e um curral – recomeçara a vida com uma vaca, um cordeiro, um suíno e uma cadela branca. A vaca pastava pelas bermas e combros, eles não tinham terras que a alimentassem: era o viver dos pobres, um quotidiano de azáfama por caminhos de areia bordados de silvas e loureiros, tamargueiras e chorões, uma vida feita de pouca coisa: pinhas, caruma, gravetos, leitugas e milhã. São mais cento e quinze páginas dedicadas ao Bunheiro, um retrato fiel, um perfil antropológico da terra e das gentes que a habitavam nos anos ’20 e ’30 do século passado. Nas páginas 248 e 249 ele descreve as desfolhadas e o descante, as cantigas ao desafio que os ciclos das estações, das festas e das colheitas proporcionavam e presta fiel homenagem à grande referência de todos os que se entusiasmavam pela arte do versejar, o poeta popular e quase vizinho Marques Sardinha.
Os versos que contam com minúcia a história da sua infância, da adolescência e dos primeiros passos de uma vida sacrificada em cata da subsistência foram escritos muitos anos depois de ter aprendido a ler, quando já era conhecido como soldado-poeta e vivia do outro lado do mundo, em Macau. É lá que a memória se desenrola em escrita, para contar as romarias a pé à Senhora da Saúde que ele fazia com a avó, cumprindo promessas, de barco até à Senhora das Dores em Verdemilho e ao São Paio da Torreira, os serões invernais de roca, fuso e dobadeira, à luz das candeias e da chama das achas na lareira, os moços de cajado e gabão, as violas e as cantigas ao desafio. Os Reis e as Janeiras, cortejos e procissões, as trindades e o dobrar dos sinos, as festas do padroeiro, as feiras de gado, o junco e o moliço, o pão do forno, uma sardinha para dois, o canto dos grilos na lareira, as moças de xaile de merino com seus cordões domingueiros… nada falta a um panorama antropológico da terra que define a identidade bunheirense assumida pelo poeta como sua. (…)
Quando teve que deixar a terra para tentar ganhar a vida em Lisboa, fê-lo revoltado: Só Deus sabe o que sofri/ e as saudades que senti/ lá, nessa grande Lisboa/ tendo sempre na ideia/ Bunheiro, esta linda aldeia/ e a sua gente tão boa (Memórias, 303). Fora criado de servir na aldeia e habituara-se aos trabalhos duros da lavoura, com carros de boi arrastando-se por infinitos caminhos de areia, mas a vida era muito mais dura na capital, onde fez um pouco de tudo para sobreviver: foi moço de recados, vendedor ambulante, engraxador, ajudante de alfaiate, passou fome e dormiu ao relento. Encontrava consolação nas cantigas à desgarrada e vingava-se das frustrações do quotidiano ganhando os desafios dos becos e calçadas de Lisboa.
Depois, um dia, quando virou soldado, aprendeu a ser homem. A vida militar durou treze anos, um mês e vinte e cinco dias, dos quais oito anos, dois meses e oito dias em Macau, a joia portuguesa do oriente, no delta do Rio das Pérolas. O soldado corneteiro J. J. Monteiro desembarcou em Macau em 1937, tinha vinte e quatro anos”.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.




