Medicina Desportiva: não apenas tratar lesões

A medicina desportiva necessita de uma direcção mais clara, mais estruturada e mais integrada. O novo Centro de Medicina Desportiva que está a ser construído pelo Instituto do Desporto representa um investimento importante para Macau. Contudo, para que esse investimento produza verdadeiros resultados, deverá existir uma articulação estável, regulamentada e funcional com os serviços de reabilitação do Centro Hospitalar Conde de São Januário, bem como uma cooperação regular com instituições especializadas, de forma a reforçar a sua credibilidade técnica e científica.

Esta ligação não deve depender de soluções pontuais nem variar em função de interpretações circunstanciais sobre as respectivas competências. Não faz sentido afirmar, num momento, que a medicina desportiva se destina apenas aos atletas e, noutro, que deve servir indistintamente toda a população, sem um enquadramento institucional claro. O que se exige é uma definição precisa da missão, complementaridade de funções e mecanismos permanentes de cooperação.

Para além da colaboração com o hospital público, importa promover intercâmbios regulares com entidades locais e internacionais ligadas à medicina desportiva, fisiologia do exercício, reabilitação, investigação aplicada e formação técnica. Após cerca de trinta anos de experiência nesta área, a medicina desportiva ligada ao Instituto do Desporto deve entrar numa nova fase, caracterizada por maior credibilidade, maior capacidade profissional e maior abertura à comunidade científica.

Se for devidamente articulado, o novo centro poderá desempenhar um papel relevante não apenas no apoio ao desporto de competição, mas também na prevenção, recuperação funcional e promoção da actividade física. Macau enfrenta desafios associados ao envelhecimento da população, ao sedentarismo e ao aumento de problemas músculo-esqueléticos relacionados com hábitos de vida e condições de trabalho. Neste contexto, a medicina desportiva não deve ser vista apenas como um instrumento de apoio ao rendimento desportivo, mas igualmente como um contributo para a saúde pública e para a melhoria da qualidade de vida.

O novo Centro de Medicina Desportiva não deve transformar-se apenas em mais um espaço dedicado à fisioterapia e ao tratamento de lesões. Macau já dispõe de diversas ofertas privadas nesta área. A sua missão deverá ser diferente: tornar-se uma plataforma especializada de prevenção, orientação técnica, investigação aplicada e ligação entre saúde, desporto e comunidade.

Se conseguir articular-se com o Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas, com redes de formação e investigação e com outras instituições dos sectores da saúde, educação, acção social e desporto, o novo centro poderá deixar de ser uma simples infra-estrutura de apoio para se transformar num activo estratégico para a Região Administrativa Especial de Macau.

Neste enquadramento, importa igualmente apostar na formação e captação de mais profissionais especializados em medicina desportiva, fisiologia do exercício, recuperação funcional e áreas afins. Macau dispõe já de alguns jovens com formação nestes domínios, mas continuam a existir poucas oportunidades de desenvolvimento profissional no sector local do desporto e da saúde.

O novo centro poderá também desempenhar esta função: valorizar os recursos humanos locais, desenvolver conhecimento especializado e reforçar os serviços de prevenção, recuperação funcional e promoção da saúde junto da comunidade.

As seis empresas integradas de turismo e lazer dispõem actualmente de resorts, ginásios e espaços de preparação física cada vez mais qualificados. Estas infra-estruturas podem igualmente criar novas oportunidades para profissionais ligados à medicina desportiva, preparação física, recuperação funcional e promoção da saúde. Uma melhor articulação entre formação, sector privado e desenvolvimento desportivo permitirá aproveitar de forma mais eficaz os recursos humanos que Macau já possui.

 

Das actividades de entretenimento ao investimento social

O desporto deve ser entendido como um sistema integrado. O rendimento desportivo, a saúde pública, o investimento público e o retorno social fazem parte da mesma equação de desenvolvimento.

O exemplo de Hong Kong merece atenção. Através do seu fundo filantrópico, o Jockey Club tem apoiado de forma consistente projectos ligados à saúde pública, ao desporto comunitário, às ciências do desporto e à medicina desportiva, em colaboração com universidades, hospitais e instituições sociais. Não se trata apenas de patrocínio, mas de uma forma de investimento social.

Macau não precisa de reproduzir exactamente esse modelo, mas pode retirar dele ensinamentos importantes. Instituições com elevada capacidade financeira e forte ligação ao sector do entretenimento podem igualmente contribuir para a construção de mecanismos duradouros de prevenção, formação, promoção da saúde e desenvolvimento de talentos.

Neste contexto, o papel das seis empresas integradas de turismo e lazer não precisa de limitar-se à organização de grandes eventos. Poderá ser equacionado um apoio mais directo ao desenvolvimento de modalidades estratégicas, como o futebol, o basquetebol ou o automobilismo.

Através do apoio a clubes e estruturas desportivas locais, seria possível permitir uma participação mais regular em competições realizadas fora de Macau. A presença em ligas de futebol ou basquetebol de Hong Kong ou do Interior da China, bem como em campeonatos de automobilismo no Japão, Malásia ou noutros mercados competitivos, poderá representar uma mudança qualitativa significativa.

Esta participação contribuirá para elevar os padrões competitivos, criar ambientes de treino mais exigentes e proporcionar aos atletas contacto regular com níveis superiores de concorrência. Em muitos casos, a principal limitação não reside na falta de talento, mas sim na ausência de competição consistente e de elevado nível.

Para uma cidade de pequena dimensão como Macau, a participação regular em competições externas deve fazer parte da estratégia de desenvolvimento. Mais importante do que garantir visibilidade mediática através de grandes eventos é criar uma ligação efectiva entre investimento privado, projecção internacional e desenvolvimento concreto das modalidades.

Os grandes eventos não devem constituir apenas momentos de exposição temporária. Devem gerar efeitos estruturais, nomeadamente ao nível da formação de treinadores, preparação de jovens atletas, intercâmbio técnico e criação de oportunidades sustentáveis de crescimento.

 

Construir um sistema: desporto, saúde e coesão social

Macau dispõe hoje de condições que não existiam no passado. Existem recursos financeiros, infra-estruturas, parceiros institucionais e integração regional. O que continua a faltar é uma lógica de articulação que permita transformar estes recursos num verdadeiro sistema de desenvolvimento.

Essa coordenação deve assentar em objectivos claros: melhorar a formação dos jovens, reforçar a ligação entre desporto e saúde pública, criar mais oportunidades de formação e emprego nas áreas da gestão, treino, organização, medicina desportiva, investigação aplicada e serviços de apoio, e utilizar de forma mais eficiente as infra-estruturas públicas e privadas já existentes.

Para muitos jovens de Macau, o desporto continua a oferecer poucas perspectivas de continuidade profissional ou técnica. Uma articulação mais eficaz entre formação, medicina desportiva, clubes, eventos, gestão e cooperação regional poderá abrir novos caminhos de qualificação e emprego.

Apesar da crescente digitalização dos processos e da facilidade de acesso à informação, muitos jovens acabam por se afastar da prática desportiva quando transitam da escola para o ensino superior ou para o mercado de trabalho. O desafio não consiste apenas em atrair mais participantes, mas sobretudo em criar mecanismos estáveis de transição entre escolas, clubes, universidades e vida profissional.

Macau continua a ser uma comunidade relativamente harmoniosa e segura. Para preservar esta qualidade de vida, será igualmente necessário investir de forma mais estruturada na saúde física, social e emocional da população.

Quando o desporto deixa de ser apenas uma actividade ocasional ou um grande evento e passa a integrar uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, pode contribuir para reforçar a coesão social, promover estilos de vida saudáveis, aumentar a confiança colectiva e consolidar uma estabilidade social positiva. Pode igualmente incentivar hábitos saudáveis, reforçar a auto-estima e proporcionar objectivos positivos a jovens, trabalhadores e idosos.

Mais importante do que multiplicar actividades dispersas é construir um modelo coerente, estável e sustentável que ligue saúde, educação, emprego, comunidade e qualidade de vida.

Para uma cidade da dimensão de Macau, o verdadeiro desafio não consiste em criar mais estruturas, mas em garantir que as estruturas já existentes funcionem em conjunto. Caso contrário, Macau continuará a organizar inúmeras actividades, mas terá dificuldade em alcançar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

 

*Analista independente do desporto e consultor em desenvolvimento regional. Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo