António Aresta*
António Aresta*

Maria Margarida de Alacoque Gomes [1902-1995] é uma figura praticamente desconhecida ou esquecida, o que simboliza a extrema dificuldade de as mulheres portuguesas naturais de Macau acederem a um justo patamar de reconhecimento público e em vida, decorrente da sua notoriedade, importância cultural, cívica e profissional.

Oriunda de uma família tradicional do Território, era filha de Joaquim Xavier Gomes, professor e director da Escola Primária Central do Sexo Masculino, e de Sara Encarnação, também professora do ensino primário, ambos pessoas de elevada craveira cultural e de declarada apetência e gosto pela música. Um dos irmãos mais novos de Margarida era o conhecido Luís Gonzaga Gomes, professor, sinólogo e historiador, ele próprio também melómano e grande divulgador da música erudita.

Margarida Gomes estudou canto e piano na filial de Hong Kong do Trinity College de Londres e piano com Harry Ore, um notável compositor e pianista que viveu refugiado em Macau nos anos agitados da segunda guerra mundial. Beneficiou igualmente dos ensinamentos musicais de alguns sacerdotes como Wilhelm Schmid ou César Brianza. Nessa época, Pedro Lobo mantinha uma orquestra privativa de músicos filipinos, contribuindo para essa aura musical que chegou a envolver Macau.

Em termos profissionais, Margarida Gomes era professora de Canto Coral no Ensino Primário Oficial e leccionava particularmente aulas de piano e de violino, na sua residência. Jorge Rangel, um dos seus antigos alunos de violino registou estas impressões: “Competente, exigente e, por vezes, severa, não foram poucas as vezes em que a sua batuta me deixava os dedos inchados pelas vezes sucessivas que neles batia, acompanhando cada fífia que o seu jovem pupilo involuntariamente cometia. Dela recebi também lições de rigor, de disciplina e de austeridade, mas os melhores momentos das tardes soalheiras que passava na sua residência, no airoso e há muito demolido Bairro Governador Albano de Oliveira (onde foi depois construído aquele horroroso mamarracho chamado edifício Pak Vai, um misto absolutamente reprovável de complexo habitacional e de enorme auto-silo público) eram as guloseimas que preparava e que nos proporcionavam amenas cavaqueiras na confortável sala de estar decorada com vistosa mobília oriental e exóticos ‘bibelots’ chineses que aprendi desde então a apreciar”.

Mas foi na órbita do Círculo Cultural de Macau e do Círculo de Cultura Musical que Margarida Gomes chegou a brilhar, cantando música clássica, sobretudo Schumann e Schubert, usualmente acompanhada ao piano por Maria Amália de Carvalho e Rêgo, em sucessivos espectáculos no palco do Teatro de D. Pedro V.

Margarida Gomes deixou-nos uma notável lição de macaulogia, num singelo livrinho intitulado “A Cozinha Macaense”, editado pela Direcção dos Serviços de Turismo em 1984, embora tenha sido escrito em 1981. O Instituto Internacional de Macau, reeditou este título na colecção ‘Mosaico’, em 2019.

Esse pequeno ensaio de Margarida Gomes tem uma inequívoca dimensão social e política, vislumbrando-se algumas regras de etiqueta e protocolo então seguidas, valorizando sobretudo a inscrição da cultura alimentar na história do quotidiano.

Vale a pena reter este trecho: “A chamada hoje Transculturação na Cozinha Macaense principiou desde a chegada dos primeiros portugueses que se estabeleceram na ‘Cidade do Nome de Deus’, coadjuvados pelas suas mulheres, aias, escravos e crioulas. Habitavam esses pioneiros em ‘armações’ ou verdadeiras cidadelas, que constavam de várias casas para cada uma das famílias: para os senhores, para as crianças, para os hóspedes, casas de recepção, casas para a criadagem, caves para cozinhar, dispensas para conservar a comida, com gudões (subterrâneos), hortas, etc. Viviam em tal abundância que as visitas, sobretudo os recém-chegados, desembarcados de outras terras, entravam e saíam, comiam e bebiam, à vontade, sem sequer ter visto os donos”.

Intercala também algumas curiosas memórias pessoais: “O meu tio bisavô, Chico Sardinha, mimoseava, segundo ouvi contar, os seus afilhados, no Natal e dia de anos (‘vai tomá benção’), puxando dos cestos de vime, escondidos debaixo da sua cama e, ao ouvir a frase deles ‘benção avô’, convidava-os a tirar quanta moeda pudesse caber-lhes nas mãos (as moedas eram lâminas parecidas com dedais, de prata e de oiro)”.

Sobre a elite local, deixa-nos esta memória da vida cosmopolita: “E os solares antigos? O actual Palácio do Governo era um deles. Foi mandado construir para o Barão do Cercal. Para cada noite de baile, estavam prontos três vestidos novos, vindos de Paris, para a sua Baronesa, senhora muito culta. Ela era lavada, vestida, penteada e calçada por um colégio de criadas e costureiras”.

Sobre a culinária macaense descreve sumariamente cerca de 32 pratos típicos [por exemplo, ‘sarán-suráve’, ‘arroz gordo’, ‘apabico’, ‘missô cristão’, ‘ondi-ondi’, ‘tacho’, ‘diabo’ ou ‘diabo furioso’], contextualizando a origem da fusão cultural das receitas e abrindo um espaço histórico para o prazer da mesa, com a consequente fruição e degustação dos alimentos.

Quase sem querer, Margarida Gomes trouxe, de uma forma pioneira, a música, a alimentação e o quotidiano doméstico, para o primeiro plano da macaulogia, entrelaçando-os na história cultural portuguesa de Macau.

Aqui está outra figura a demandar um generoso traço biográfico e um olhar fino sobre uma realidade histórica que se vai esfumando.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.