Não que não gostasse mas – não pode. E, como bom constitucionalista que é, sabe que não pode pois, tendo embora alguns “super-poderes”, não lhe compete governar. De facto não governará mas…vai presidir, vai chefiar o Estado.
Pouco depois da criação do PPD (de que tinha sido um dos fundadores), estando eu a jantar num pequeno restaurante de Cascais, ele saiu da sala ao lado com Francisco Sá Carneiro e João Pedro Pinto Leite e, abeirando-se de mim, pediu-me que me não admirasse com o que por vezes diria pois, explicou, “com o pai que tenho (tinha sido ministro do anterior governo), o padrinho que tenho (o Prof. Marcelo Caetano) e o sogro que tenho (o Dr. Mota Veiga, anterior ministro da Presidência), vou tentar parecer o mais à esquerda possível para poder continuar na luta. Era assim naqueles tempos pós-revolucionários em que, quando alguém dissesse ou fizesse alguma coisa que “cheirasse” à Direita ia directo para Caxias…
E Marcelo continuou a falar e a escrever, sobretudo na página dois do Expresso que toda a gente lia sofregamente, e em “O Diabo”, no tempo de Vera Lagoa, sob o pseudónimo de Agapito Pinto e Agapito Pinto Filho, conforme a força da pancada…
Acompanhei a sua notável campanha eleitoral diferente de todas as outras, sem comícios, sem cartazes, sem folhetos, sem banquetes e desfiles pelas ruas, limitando-se a deambular pelo País para ver e ouvir e para ser visto e ser ouvido por quem ele quisesse e não por multidões comprometidas com Partidos, de bandeirinhas nas mãos e gritos de vitória. Foi assim, como se esperava, que ganhou à primeira volta e por larga maioria.
Agora, vou perguntando “ao vento que passa/notícias do meu país”, vento que, ao contrário do que fez ao autor das suas Trovas (Manuel Alegre, bom poeta e mau político), o vento não me cala a desgraça (ainda não chegamos a isso…), “o vento” tem me posto ao corrente do que por lá se passa e como vai operando Marcelo neste seu limbo antes de iniciar funções.
Sempre como ele é, discreto, competente e bem organizado como já se viu na escolha dos membros que podia nomear para o Conselho de Estado, das chefias das suas Casas Civil e Militar, do pequeno grupo de peritos que o irão assessorar e conversando com um ou outro ministro para saber concretamente qual a situação real do país e do governo – da geringonça, no dizer de Paulo Portas – que agora tem.
E, para já, embora haja de certeza muito mais do que isso, é só o que se sabe. A não ser ainda que não será como D. Sebastião, a chegar a Belém no seu cavalo branco envolto em nevoeiro e a bradar “É a hora!” pois não é hora coisa nenhuma neste esforço de sobrevivência financeira que vamos continuando a fazer se não a desfazer…
Dos vários Presidentes que se sucederam depois de Abril de 74 – Mário Soares, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio e Cavaco Silva – Marcelo Rebelo de Sousa é, de longe, o mais bem preparado para o exercício de tão alto cargo. Além da sua excepcional cultura jurídica e da sua brilhante inteligência, tem sido, durante este regime, uma presença activa na vida política nacional, só igualada pela de Mário Soares. Até na forma oscilante como politicamente se vem assumindo – “eu sou da esquerda da direita” – a lembrar o desabafo de Cascais – sabendo perfeitamente que é e sempre foi da direita-direita, diafanamente coberta pelo manto equívoco da social democracia.
Por tudo isto, e apesar de não ser o D. Sebastião por que ansiamos desde Alcácer Quibir, estou convencido de que vai ser um bom Presidente, o Presidente de que a Nação precisava. Que Deus lhe ponha a virtude.
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