Olho para a fotografia de Ferlinghetti, Lawrence Ferlinghetti, como diria 007, e sem querer os olhos estacionam nas suas mãos volumosas com os dedos em posição de quem diz que há por ali uma valente artrite. Mais do que o olhar tranquilo e sorridente dos 96 anos de vida bem vivida, são as mãos que me chamam e prendem a atenção para a imagem do único sobrevivente do movimento beat.
Como que por encanto, revejo-me na Columbus Avenue, a caminho da City Lights, a livraria de que Ferlinghetti foi um dos fundadores na primeira metade dos anos 50 do século passado, em S. Francisco. Foi há 20 e poucos anos num Agosto tépido durante o dia e fresquinho à noite, que percorri como um peregrino o passeio da Columbus até me ver diante das montras largas e frondosas da livraria que é um marco na história do mercado livreiro dos Estados Unidos e onde passei uma boa parte daquela tarde.
Com Allen Ginsberg e Kerouac, entre outros, Ferlinghetti foi e é a figura central de um movimento cultural (ou de contra-cultura) que marcou uma época, uma geração, uma forma de ser e de estar. A City Lights, que é uma mina de oiro para quem ama os livros, é um território onde se encontram todos os autores e obras que as grandes superfícies e as lojas viradas para o comércio dos nomes da moda e da literatura classificada de lixo (se até as empresas de rating classificam os países em lixo!….) não conseguem ter nem, sequer, consideram útil possuir.
Em 1953, quando abriu portas, a City Lights (nome inspirado num dos filmes de Chaplin) teve, desde logo, uma atitude disruptiva, numa cidade onde as livrarias fechavam às cinco da tarde e não abriam ao fim de semana. Pois bem, a nova livraria passou a estar aberta os sete dias da semana até à meia-noite, às vezes até mais tarde. Vendia livros, promovia a poesia e os jovens autores, era cenário de intensos debates e local de encontro entre leitores e escritores. O livro era o pretexto para o resto. E o resto era uma américa do pós-guerra que emergia e se eriçava diante de um establishment conservador, muito entretido com uma guerra fria que começava, e que, no fundo, servia para justificar a presença na Guerra da Coreia a que se seguiu a longa intervenção no Vietname.
Olho para fotografia de Ferlinghetti postada no jornal e vejo nas suas mãos volumosas os veios memoriais dos seus muitos escritos, dos abraços de cumplicidade e amizade trocados com Ginsberg, o seu melhor amigo e nome incontornável do movimento beat. Impossível pensar num escritor sem nos determos na magia ou mistério que são as suas mãos, instrumento essencial da sua criação e trabalho de ourivesaria. Como num guitarrista.
Por isso há nessa visão das mãos de Ferlinghetti muito mais do que o olhar alcança. Há toda uma ideia de irreverência e de afirmação que a minha adolescência aprendeu através da voz de Scott McKenzie, quando ele nos falava a cantar no flower-power e nos prevenia que, se fôssemos a S. Francisco, deveríamos levar flores no cabelo (“Be sure to wear some flowers in your hair”)
Lamentavelmente, não enfeitei o cabelo com flores, mas compensei a falha com a aquisição de algumas pérolas na City Lights, a cujos livros retorno agora, como que a matar saudades, movido por esta imagem jornalística da entrevista dada por Ferlinghetti e a pensar como é tão bom haver pessoas que, como a formiga no carreiro da cantiga de Zeca Afonso, vão em sentido contrário.





