Ainda a propósito desta cerimónia em que participei e das três intervenções que a marcaram, continuo preso a uma das passagens mais humanas do Professor Doutor Rui Martins no início da sua intervenção. Dirigiu-se, com emoção contida, à sua mulher e aos seus filhos ali presentes. Não chorou – porque o que se seguiu foi uma mensagem de alegria e esperança: a convicção de que existe um futuro promissor para quem quiser trabalhar, com mérito e persistência, na área a que se dedicou durante mais de 33 anos em Macau.

Nesse mesmo espírito, e conforme sublinhou o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, no seu discurso no Jantar de Primavera com a comunidade macaense, a mensagem institucional foi clara: Macau cresce quando preserva o que é seu e, ao mesmo tempo, se abre ao talento, às redes e à cooperação internacional. Este equilíbrio – preservar e abrir – ajuda a enquadrar o que muitas pessoas sentem: a necessidade de continuidade, mas também de renovação.
O que se impõe hoje não é nostalgia, mas renovação e revitalização da presença cultural e linguística, com inteligência e respeito pelo contexto actual. Em vez de discursos fechados, o caminho passa por diplomacia cultural, educação, intercâmbio e cooperação científica. E aqui, instituições como a Universidade de Macau podem ser motores de renovação geracional e de ligação ao mundo lusófono: não apenas como ponto de encontro da Lusofonia, mas como parceiro que também apoia Portugal na sua internacionalização académica e científica, criando pontes, projectos e oportunidades reais.
É igualmente relevante lembrar que a Universidade de Macau foi criada e consolidada durante a administração portuguesa, com apoio do Governo Português, e continua a crescer e a afirmar-se. E há um facto que fala por si: sob a sua liderança, a Universidade de Macau atingiu a liderança mundial (1.º lugar em empate) no número de artigos aceites no ISSCC 2024, e afirmou-se também como n.º 1 entre as universidades chinesas (2023–2024). É assim que o nome de Macau – e o da Universidade – se projecta no topo internacional, pela via do mérito e do trabalho.
Esse futuro constrói-se com medidas muito concretas:
– Preservar e actualizar: património culinário, língua, memória, arquivos, eventos e educação bilingue – não como peças de museu, mas como cultura viva e partilhada.
– Criar motivos para ficar ou voltar: carreiras, bolsas, projectos, redes de investigação e também empreendedorismo cultural – para que a ligação a Macau e ao português seja oportunidade e não apenas recordação.
– Envolver todos: macaenses, luso-descendentes, portugueses recém-chegados e outras comunidades – sem impor uma única definição de “ser português”.
Ao mesmo tempo, é justo reconhecer um legado que continua a servir a comunidade. E aqui faço uma ressalva: quando refiro instituições e espaços de matriz portuguesa, faço-o a título exemplificativo – com a consciência de que existem outras tantas, igualmente relevantes, que corro o risco de não saber enumerar por desconhecimento. O essencial é reconhecer o legado amplo e a utilidade pública destas estruturas, hoje também como espaços de encontro das diferentes comunidades.
Ainda assim, vale apontar alguns exemplos: a Santa Casa da Misericórdia de Macau, com o seu papel social histórico; o Clube Militar de Macau, como espaço de convívio e cultura; o Jardim de Infância “D. José da Costa Nunes”, como referência educativa e memória viva de uma presença histórica; a imprensa em língua portuguesa – Jornal Tribuna de Macau, Hoje Macau, Plataforma e Ponto Final – que continua a dar voz, memória e debate público; e a Casa de Portugal em Macau, com actividades culturais abertas e participação de várias nacionalidades. Acrescento também a Fundação Rui Cunha, com trabalho consistente ao serviço da RAEM, promovendo cultura, reflexão cívica e encontros que aproximam comunidades. E pode ainda referir-se o Banco Nacional Ultramarino (BNU), em Macau, como uma presença histórica de referência e um dos bancos com funções emissoras de notas em Macau.
Mas sejamos claros: em alguns aspectos, sente-se que a dinâmica local precisa de reforçar renovação, massa crítica e continuidade. A resposta mais construtiva, em positivo, passa por aprofundar intercâmbios, fortalecer cooperação e ampliar redes de talento e de conhecimento – acelerando o que já existe, sem perder identidade local e promovendo benefícios partilhados.
Tudo isto pode (e deve) ser dito com serenidade. A comunidade portuguesa tem tradição de abertura e universalismo e contribui com respeito pela lei e pela soberania, sem pôr em causa a estabilidade e a harmonia social. A força aqui nunca foi o conflito, mas a capacidade de ligar mundos – com trabalho, mérito e respeito por todos, sempre dentro da lei. (E a “desordem” fica para dentro dos estádios de futebol)
Importa igualmente sublinhar a missão do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, enquanto ponto de apoio e de ligação: serviço público, proximidade, escuta activa e resposta às necessidades da comunidade.
Neste contexto, a condecoração do Rui Paulo da Silva Martins ganha ainda mais significado. Vale a pena sublinhar que não surgiu de um gesto ocasional: foi, segundo foi partilhado, o resultado de uma petição subscrita por um grande número de académicos, professores e alunos, endereçada à Presidência da República Portuguesa e encaminhada pelas vias diplomáticas – um reconhecimento construído com base em mérito, impacto e testemunhos de quem acompanhou de perto o seu trabalho.
O Professor Doutor – hoje Vice-Reitor dos Assuntos Globais e Director do Instituto da Microelectrónica da Universidade de Macau – recordou também a coragem do começo: chegou a Macau com trinta e poucos anos, vindo de Moçambique, para um lugar então desconhecido, que até o obrigou a ir ver o mapa para saber onde ficava este pequeno território. Aceitou a aventura com a família – e aqui encontrou um caminho de serviço e de projecção internacional. E há ainda um pormenor revelador do seu percurso: tem hoje mais anos vividos em Macau do que em Portugal – e foi, em grande medida, a partir de Macau que começou a conhecer Portugal mais de perto, através das oportunidades, viagens e contactos proporcionados pela Universidade. É uma mensagem inspiradora sobre como Macau pode ser plataforma de crescimento, de ligação e de futuro.
Neste contexto, vale ainda registar que, em 30 de Setembro de 2025, Rui Martins, Vice-Reitor da Universidade de Macau e Director do Instituto da Microelectrónica, foi galardoado com o Chinese Government Friendship Award (友谊奖), no Grande Salão do Povo, em Pequim – a mais alta distinção nacional do Governo chinês para especialistas estrangeiros, pelos seus contributos e pela promoção da cooperação internacional.
Para terminar, deixo uma saudação festiva: ao entrarmos no Ano do Cavalo, desejo a todos saúde, paz e um ano de energia renovada, coragem e bons projectos – para Macau, para Portugal e para toda a comunidade.
* Antigo presidente do Instituto do Desporto



