Jorge A. H. Rangel*
Jorge A. H. Rangel*

“… tantos acontecimentos se têm dado, tão difíceis situações têm sido passadas, que com verdade se pode dizer que Macau tem vivido as horas mais graves da sua existência quadrissecular.”

Governador Gabriel Maurício Teixeira, 1942

 

Embora Macau, graças à neutralidade política portuguesa, tivesse sido bastante mais poupado do que os territórios vizinhos na fase mais intensa da guerra sino-japonesa, sobretudo a partir de 1937, e nos anos subsequentes, em plena Guerra do Pacífico, este foi um tempo de enorme sofrimento para a população local e de governação extremamente delicada, por falta de meios, pelas ameaças constantes e pelo número crescente de refugiados. Estes, de origens diversas, sabiam que, apesar de tudo, Macau se mantinha como porto de abrigo e confiável centro de acolhimento.

Pudemos ver, nos dois artigos anteriores, que a área da saúde pública foi bem liderada por Jacinto Vargas Moniz, com o total apoio do Governador Tamagnini Barbosa (1937-1940), que aqui exercia o cargo pela terceira e última vez, falecendo no Palacete de Santa Sancha em Julho de 1940. Assumiu, de imediato, as funções de Encarregado do Governo o Capitão de Engenharia José Rodrigues Moutinho, chefe da Repartição Técnica das Obras Públicas e vice-presidente do Conselho do Governo, até Outubro de 1940, quando tomou posse o Comandante Gabriel Maurício Teixeira, que aqui permaneceu durante todo o árduo período da II Grande Guerra, deixando as funções, em Outubro de 1946, para assumir idênticas responsabilidades em Moçambique.

 

Carências e dificuldades acrescidas

Escusado será dizer que os seis anos de Gabriel Maurício Teixeira em Macau exigiram ainda maior capacidade negocial e hábil empenhamento na manutenção dos equilíbrios necessários entre as partes beligerantes e na manutenção da normalidade possível, num enquadramento político marcado por crescente instabilidade, agravada pela ocupação nipónica de Hong Kong em Dezembro de 1941, pelas cedências irrecusáveis às exigências das autoridades japonesas, até para garantir a entrada de arroz e outros géneros essenciais em quantidade suficiente, e pela necessidade de continuar a apoiar a instalação de um número crescente de refugiados.

O estatuto de neutralidade era defendido com muito difíceis jogos de equilíbrio instável, num ambiente de inquietação permanente face às sempre dúbias posições japonesas. Ainda por cima, a aviação americana começara a bombardear, a partir de Julho de 1944, colunas militares nipónicas e aglomerados urbanos entre Cantão e Macau, não poupando sequer a nossa cidade, que foi quatro vezes atingida entre Janeiro e Junho de 1945.

A guerra fez multiplicar as carências, a ponto de Gabriel Maurício Teixeira ter dito, numa cerimónia pública realizada a 29 de Outubro de 1942, que “o Governador de Macau bem quisera fazer mais, bem quisera poder valer a toda a miséria, mitigar todas as dores, mas, como infelizmente o não pode fazer, sente e sofre com a população a dor e miséria que a afligem”.

O livro “Macau 1937-1945 – Os Anos da Guerra”, do investigador João Botas, que o Instituto Internacional de Macau publicou em 2012, oferece-nos relatos circunstanciados muito úteis e completos para o conhecimento da situação então vivida, que as frases seguintes resumiram com acentuado realismo: “O dia-a-dia da cidade era marcado pelos assaltos, tiroteios, homicídios e demais incidentes que infringiam a lei e punham em causa a ordem pública”. Além disso, eram constantes os fluxos de refugiados e os problemas de saúde tornavam algumas epidemias inevitáveis, como as de cólera e malária.

 

Porto de abrigo em crise

O mesmo livro recorda que “no seu fulgor invasor o exército japonês – em guerra não declarada com a China desde o início da década de 1930 – não fez distinção entre civis e militares e praticou a chacina espalhando o terror entre a população desde Xangai a Hong Kong, duas cidades onde na época viviam milhares de portugueses”. Assim, “chineses, portugueses, filipinos, holandeses, irlandeses, franceses e ingleses, entre outros, de todas as classes sociais e crenças religiosas, tiveram de fugir e procuraram refúgio no porto de abrigo mais óbvio (pela neutralidade) e mais próximo”. Na verdade “não era a primeira vez nem a última que tal facto iria suceder, mas nem antes nem depois, com tais dimensões”.

Quanto a números, o livro esclarece ainda que “a faceta peculiar de uma terra solidária teve um dos seus pontos mais altos entre 1941 e 1945 nas manifestações de caridade, solidariedade e espírito de entreajuda”. Nessa altura, “com cerca de 15 quilómetros quadrados de superfície a cidade passa a ter de comportar o triplo da sua população de 200 mil habitantes em 1937 para cerca de 600 mil (não existem números oficiais, apenas estimativas) em 1945, ou seja, o número de pessoas que procurou refúgio em Macau terá rondado os 400 mil”.

Claro que, de entre estes muitos milhares de “foragidos da guerra e enjeitados da sorte” estavam “bandidos, criminosos, mas também artistas (escritores, pintores), intelectuais e desportistas”, tendo transformado “uma pacata colónia com um ritmo de vida provinciano numa cidade cosmopolita com uma intensa actividade social e cultural, enquanto os desenvolvimentos do conflito o permitiram”. O Pe. Manuel Teixeira, prolífico historiador de Macau que testemunhou os horrores da guerra, deixou-nos esta nota positiva sobre os refugiados mais cultos e interventores: “Se o pão do corpo minguava, o pão do espírito nunca faltou na farta mesa da cultura macaense durantes esses trágicos anos da guerra”.

 

Capacidade de resposta

Durante os anos de duração do conflito bélico, “a vida no território foi marcada pela morte, fome, espionagem, traição, pirataria, assassínios, ataques aéreos, atentados à bomba, deserções, epidemias, artimanhas, humilhações”. Mas, o que é notável, é que a cidade foi, igualmente, um “oásis de paz num Oriente em chamas”, caracterizado pela solidariedade e pela generosidade. Multiplicaram-se as instituições da sociedade civil para, em articulação com as instituições públicas, darem resposta, até aos limites do quase impossível naquelas circunstâncias adversas, às exigências extraordinárias que desafiaram a própria sobrevivência de Macau.

Numa palestra radiofónica, proferida em 1943 através do Rádio Clube de Macau por Pedro José Lobo, muito influente personalidade local a quem foram conferidas especiais responsabilidades na coordenação e direcção das actividades económicas e como conselheiro privilegiado do Governador, ele salientou que “se não fôra tanta caridade a unir todos os que nesta terra vivem vinculados à gratidão que nasce do bem recebido, que inspira respeito pela autoridade, obediência às leis da Colónia e que obriga à manutenção da ordem pública, constituindo uma força moral capaz de enfrentar perigos e violências (pois o bem faz curvar até o maior facínora), dificilmente teria podido esta Colónia manter a sua posição, através de tantas vicissitudes”. Nessa palestra, foi destacado o contributo fundamental de entidades como a Santa Casa da Misericórdia, a Comissão de Assistência e Beneficência, as Irmãs de Caridade, a Casa dos Pobres, o Pão dos Pobres de Santo António, o Asilo dos Órfãos, a Casa de Beneficência, o Asilo, a Santa Infância, o Orfanato Salesiano, a Caixa Escolar e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, uma panóplia de instituições cuja acção concertada e consequente contribuiu para aliviar o imenso sofrimento da população e dos forasteiros aqui acolhidos, sempre à espera do retorno a uma paz duradoura.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.