As reacções ao artigo anterior confirmaram que este tema é, ao mesmo tempo, estratégico, institucional e humano. António Costa puxou a discussão para cima: um verdadeiro “pipeline macaense”, capaz de formar jovens para actuar internacionalmente como gestores, consultores e mediadores culturais – um instrumento geo-económico, não uma nostalgia. José Basto da Silva (e também Boscoquinho, à sua maneira) insistiu no essencial: sem política pública, metas e medição, tudo fica em símbolo. Anabela Ritchie resumiu a urgência com uma frase que dispensa rodeios: “só não vê quem não quer”. Rui Marcelo, em registo bem português, avisou que anda a atravessar o seu Cabo das Tormentas – mas à moda dos Lusíadas: com o espírito de Bartolomeu a segurar o leme, o Adamastor a tentar agarrar a armada, o Baco a preparar uma cilada no Concílio dos Deuses… e a esperança de que Vénus apareça a tempo de nos desviar do perigo. Traduzido em prosa: há fases difíceis e há bloqueios instalados, mas a travessia continua – e não precisamos de dramatizar para manter o rumo. Por fim, Diogo Calado trouxe o testemunho mais “pé no chão” de todos: escolheu Macau com a família pela promessa de encontro de culturas, abertura e melhores oportunidades, mas deixou um alerta sereno – fora da vantagem geográfica, algumas expectativas podem ficar por cumprir quando a cidade se torna demasiado proteccionista, com barreiras informais que atrasam quem quer contribuir com trabalho e resultados. A sugestão é simples: olhar para referências como Hong Kong e Singapura e aprender com os seus mecanismos de previsibilidade, integração de talento e execução. É precisamente por isso que este texto é prático: como passar da conversa à execução.

O contexto actual torna esta urgência ainda mais evidente. A RAEM quer aprofundar a cooperação com o espaço lusófono e captar mais investimento português. Isso é uma oportunidade real – mas não se esgota em capital: exige pessoas, redes e competência. Captação de investimento, sem captação de talento e sem canais de cooperação humana, fica coxa. Macau pode e deve afirmar-se como plataforma de acolhimento de profissionais qualificados – em áreas tecnológicas, médicas, business, gestão, educação e cultura, e também desporto e eventos – capazes de elevar padrões, criar pontes e acelerar projectos.

Como me foi lembrado, em palavras sábias de Leonel Alberto Alves, há uma marca que sempre nos definiu: o internacionalismo – não apenas no plano linguístico, mas na capacidade de adaptação a outros modos de vida e de trabalho. Isso deve ser valorizado e procurado pelas novas gerações: manter o português como ponte, sim, mas apostar também noutras línguas de circulação global e vocação comercial, reforçando a competitividade de Macau e a utilidade estratégica destes perfis.

É por isso que proponho um passo imediato e simples: um Encontro Aberto de Jovens e Profissionais da Diáspora Lusófona em Macau. Um encontro que junte macaenses jovens, portugueses, luso-descendentes e também quem é fruto das novas realidades de Macau: gente cruzada com outras etnias e culturas, incluindo chinesa, filipina, africana, brasileira, russa, mongol, e outras, reflectindo o mosaico vivo e multicultural da cidade. Não como slogan identitário, mas como realidade contemporânea de Macau – e como vantagem, se for bem organizada.

O objectivo é directo: criar rede, mapear competências e lançar 2–3 tarefas executáveis, com calendário, em áreas como negócios, tecnologia, saúde, educação, cultura, desporto e eventos. A regra de mobilização pode ser simples e eficaz: cada participante traz e convida mais um ou dois jovens predispostos a assumir este desafio. Em poucas semanas, cria-se massa crítica sem depender de máquinas pesadas.

E com uma condição essencial: sem protocolos. Sem palco, sem formalismos, sem discursos intermináveis e sem “cerimónias”. Uma sessão directa, de trabalho, centrada em pessoas e resultados. Macau já sabe que este modelo funciona: basta olhar para muitas comissões administrativas de condomínios. Quando há um núcleo voluntário com bom senso e existe um apoio mínimo de entidades competentes (regras claras, orientação técnica, um contacto para desbloquear o que encrava), as coisas andam – e ninguém precisa de um “ministro da garagem”. Com a comunidade é parecido: não precisamos de mais pompa; precisamos de núcleo, tarefas e continuidade.

Para garantir credibilidade e foco, o encontro pode ser preparado por uma comissão organizadora provisória, com liderança temporária e consensual; por exemplo, uma figura proeminente, socialmente respeitada e amplamente aceite, como o nosso conterrâneo Leonel Alberto Alves, se assim o entender e se houver convergência.

Quanto ao enquadramento, o ideal é que o encontro tenha apoio institucional plural e transparente, sem partidarizações: com convite e presença da RAEM, do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM e do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, na qualidade de entidades que podem facilitar contactos, abrir portas e dar sinal público de que este esforço é bem-vindo. “Apoio”, aqui, deve significar exactamente isto: facilitar, abrir caminhos, remover fricções – não capturar a agenda.

Depois do encontro, o essencial é não deixar a energia morrer. Para isso, basta uma coordenação leve: um Fórum anual (ou semestral) de cooperação macaense e luso, com 2–3 prioridades comuns, metas simples e avaliação – focado em projectos, não em “representação”. Dentro desse quadro, uma linha prática “Macau–Portugal: jovens e empresários” ajudaria a transformar intenção em parcerias, com menos fricção e mais resultados.

E para começar sem burocracia, pode existir uma comissão preparatória curta (por exemplo, 90 dias) apenas para mapear iniciativas, escolher prioridades e definir regras mínimas de rotatividade e transparência. Tudo com uma garantia: não substitui colectividades existentes; coordena o que for comum. E quando houver presença institucional, que seja de apoio técnico/observador – para facilitar e desbloquear, não para capturar a agenda.

No fundo, tudo isto exige uma verdadeira cultura de mudança: renovar com normalidade, sem reagir com defensiva a cada renovação. Não se trata de confronto; trata-se de método. Não se trata de substituir pessoas; trata-se de garantir que a experiência se transforma em mentoria e que a renovação se torna norma – não excepção.

Macau já tem história e muralhas suficientes. O que precisa agora é mais difícil e mais nobre: continuidade com coragem, convertida em iniciativas simples, regulares e avaliáveis. Menos excepção, mais caminho. Menos anúncio, mais obra. E sobretudo: mais missão – não só representação.

 

*Antigo Presidente da Assembleia Geral da ATFPM (Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau)