Da identidade ao activo geoeconómico: a ponte lusófona em modo operacional
Macau distingue-se por uma raridade que não se fabrica de um dia para o outro: a capacidade de viver entre línguas, códigos e culturas sem estranheza. Durante demasiado tempo, tratámos essa diferença como memória, como cerimónia, como património a preservar – o que é importante, mas insuficiente. A pergunta que agora importa fazer é outra: como transformar identidade em capacidade instalada? Como passar da “ponte” como metáfora para a ponte como mecanismo de trabalho, com equipas, competências, responsabilidades e resultados?
Quando falo de “ponte” e de perfis bilingues e biculturais, falo de um ecossistema humano mais amplo: macaenses, luso-descendentes, portugueses e outros lusófonos que vivem em Macau – todos os que, com competência e compromisso, ajudam Macau a ligar mundos.
A ideia é simples e exigente: se Macau quer ser plataforma, não pode limitar-se a celebrar a sua diferença; tem de operá-la. E operar significa tratar esta vantagem como infra-estrutura humana: formar, colocar, avaliar, dar continuidade. Ou, dito de forma mais directa: menos slogan, mais sistema.
Ponte, mas sem slogan
“Ponte lusófona” não pode ser apenas uma frase bonita. Tem de ser trabalho real: gente capaz de desbloquear projectos, reduzir fricção cultural, acelerar decisões e garantir que regras e expectativas não colidem à primeira curva. Tem também de ser credibilidade — a confiança que Macau ganha quando coloca quadros competentes a ligar instituições, empresas e mercados. E, por fim, tem de ser circulação de talento: sem prática, experiência e exposição, a ponte fica de cartão e a diferença vira apenas paisagem.
Responsabilidade repartida: não é só “das associações”
Se queremos continuidade, a responsabilidade não pode cair apenas sobre “as associações”, nem apenas sobre “os indivíduos”. Deve ser repartida, com clareza, entre três actores: o Governo Central (enquanto estratégia nacional e abertura de horizontes), a RAEM (enquanto desenho de políticas, canais e instrumentos), e a própria comunidade lusófona que vive em Macau (enquanto rede, mentoria e mobilização). A pergunta é simples, mas raramente é feita em voz alta: porque é que tantos jovens formados, trilingues ou não, estão cada vez mais longe desta multiculturalidade que é, talvez, a riqueza mais rara de Macau, o seu dom e o seu património mais valioso? Se a resposta for apenas “o tempo mudou”, então estamos a desistir. Se a resposta for “faltam caminhos”, então a solução é óbvia: criar percursos reais, missão útil e continuidade.
Há ainda um dado organizativo que também conta. Temos, por vezes, muitos dirigentes e muitos “presidentes”, mas nem sempre existe coordenação suficiente para uma acção concertada, com prioridades comuns, calendário e resultados medidos. Sem essa articulação mínima, o esforço dispersa-se: cada instituição faz o que pode, mas a soma não se transforma em massa crítica.
E há outra realidade, mais subtil: a identidade nem sempre é assumida de forma linear. Existem macaenses que preferem não ser reconhecidos como tal, outros que vivem essa pertença com discrição, e outros ainda que a assumem de forma plena. Isso não é uma falha moral; é um retrato de uma comunidade pequena e plural. Mas tem consequências práticas: quando a auto-identificação é frágil, torna-se mais difícil construir continuidade, porque a sucessão deixa de ser natural e passa a depender do acaso.
Quatro princípios seguros para uma comunidade mais madura
Sem apontar a ninguém, há quatro princípios que ajudam a perceber onde podemos melhorar – e que podem ser discutidos com espírito construtivo.
1. Comunidade também é sector privado.
Não podemos pensar apenas em quem está dentro das associações e instituições. Uma comunidade madura tem de pensar também em quem investe, arrisca, emprega, paga rendas de mercado e tenta abrir caminho com o próprio esforço. Sempre que existam apoios públicos a estruturas internas (o que pode ser legítimo), é importante garantir um princípio simples: transparência e proporcionalidade. A missão social deve ser protegida; o que se defende é que as regras sejam claras, para que não se crie, mesmo sem intenção, um ambiente que desincentive o investimento e o empreendedorismo local.
2. Participação com continuidade: energia e talento precisam de canal.
Macau tem mecanismos eleitorais, consultivos e associativos. O que muitas vezes falta é a continuidade: transformar energia, talento e legitimidade – onde quer que existam – em missões concretas, com calendário, responsabilidades e avaliação. Quando não há canal previsível, as pessoas reorganizam-se de forma pragmática e dispersa. O custo colectivo é evidente: perde-se massa crítica construtiva, perde-se unidade e perde-se sucessão.
Aqui, importa reconhecer um facto simples: os lugares de decisão são limitados e os sistemas tendem, por natureza, a privilegiar previsibilidade e continuidade. Num contexto assim, é natural que diferentes perfis – incluindo quadros que adquiriram competências relevantes em língua e cultura portuguesa através de percursos de formação em Macau e em Portugal – sejam chamados a desempenhar funções. O ponto essencial não é escolher “uns” contra “outros”, mas garantir que a vantagem específica de Macau – a capacidade de mediação e trabalho entre mundos – seja tratada como prioridade, com critérios claros, formação contínua e equipas mistas que produzam resultados e sucessão.
3. Património intangível é programa, não ornamento.
A cultura macaense – gastronomia, patuá, memória, humor, sociabilidade – e também expressões culturais que fazem parte do ADN histórico de Macau, como a dança folclórica portuguesa, não podem sobreviver apenas como cartão de visita ou presença ocasional. Há iniciativas valiosas que já acontecem, por exemplo através de instituições como a Casa de Portugal, que promovem actividades culturais, encontros, ciclos temáticos e formação. Mas, se isto é um activo de Macau, então tem de ser tratado como tal: com programas plurianuais, metas, programação regular, documentação e transmissão. E isso implica propostas estruturadas e apoio financeiro estável, porque cultura viva precisa de continuidade, não apenas aplauso.
4. Identificar quem está disponível e qualificável.
Existe gente com competências e vontade de contribuir – bilingues/trilingues, quadros com experiência, jovens com formação. Um passo prático e pouco polémico seria criar um mecanismo simples de mapeamento de competências e disponibilidade, e ligar esse mapa a projectos com tarefas e prazos. Isto reduz personalismos, torna a entrada mais normalizada e transforma “boa vontade” em execução.
Medir para não fantasiar
O debate sobre continuidade costuma morrer por falta de números. Se queremos ser sérios, precisamos de acompanhar dados agregados: quantos perfis bilingues existem, onde trabalham, como progridem, que formação têm, que rotação por projectos ocorreu, que resultados foram entregues. Sem isso, a discussão fica presa ao “acho”, ao “sinto” e ao “sempre foi assim”.
No fundo, tudo isto tem uma consequência política e cultural: Macau não deve limitar-se ao “parágrafo de Macau”. A integração no desenvolvimento nacional exige ler o quadro todo e perguntar onde Macau acrescenta valor. Ora, se Macau quer ser ponte, então tem de tratar a ponte como infra-estrutura humana – com formação, circulação, missão e avaliação.
E aqui volto ao essencial: a diferença de Macau não se preserva por decreto, nem por lógicas de sucessão automática e de fechamento, como se certos lugares fossem cativos; constrói-se com escolhas concretas – estudo, línguas, trabalho e compromisso – e, sobretudo, com transmissão para a geração seguinte. Mas essa transmissão não pode ser um acto de boa vontade ocasional; tem de ser um sistema.
Se fizermos isto com serenidade, sem guerras e sem vaidades, ganhamos todos. A comunidade deixa de ser apenas lembrada em cerimónias e passa a ser útil, presente e respeitada. Macau deixa de falar de “ponte” como slogan e passa a operar a ponte como capacidade. A alternativa é conhecida: continuar a elogiar a diferença, enquanto ela se vai apagando devagar – e isso seria uma perda estratégica, para Macau e para o País.
*Antigo Presidente da Assembleia Geral da ATFPM (Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau)



