António Aresta*
António Aresta*

A União Nacional foi criada em 1932 como suporte ideológico e político do Estado Novo. Pelo Decreto Nº 21 608, de 20 de Agosto de 1932, promulgado pelo Presidente Óscar Carmona, a natureza da União Nacional ficou assim definida: “é uma associação sem carácter de partido e independente do Estado, destinada a assegurar, na ordem cívica, pela colaboração dos seus filiados, sem distinção de escola política ou de confissão religiosa, a realização e a defesa dos princípios consignados nestes estatutos, com pleno acatamento das instituições vigentes”. Mudou de nome em 1970, por influência de Marcelo Caetano, passando a designar-se como Acção Nacional Popular.

Luís Gonzaga Gomes [1907-1976] era simpatizante da ordem política vigente e estava muito confortável com a sua actuação. Era Vogal da Comissão Executiva Provincial de Macau da União Nacional e é convocado “à última hora” para participar na campanha eleitoral, em 1949, para a eleição do deputado por Macau, que era António Maria da Silva, dizendo, “é esta a primeira vez que falo numa sessão de carácter político”. E confidencia, “sou por natureza avesso a falar em público e, assoberbado com os meus trabalhos profissionais e com os estudos aos quais dedico grande parte da minha atenção, e que me absorvem todo o tempo disponível”. Apesar de tudo, diz Luís Gonzaga Gomes [LGG], “acedi ao embaraçoso e quão difícil encargo de vir focar algumas obrigações morais que impendem sobre todos nós, principalmente neste momento de incertezas”.

Nesta rara intervenção política, pública, de LGG é possível conhecer um pouco do seu pensamento ideológico, as suas expectativas e as suas ansiedades em face do equilíbrio de forças na sociedade. E também a confiança inabalável na orientação pragmática e política do Estado Novo, até porque vivia numa longínqua província ultramarina, a fazer fronteira com um grande país comunista, com uma ideologia frequentemente diabolizada no jornal diocesano “O Clarim”.

LGG estava muito incomodado com a influência e ingerência internacional na condução do rumo político de Portugal, após a segunda guerra mundial: “em resultado duma guerra que aniquilou as forças e as energias, quer dos vencedores quer dos vencidos, acentuou-se no mundo, de modo angustioso, a desordem dos espíritos, originada por causas de todos conhecidas, portanto seria extemporâneo e fastidioso entediar agora V. Exas. Com a sua enumeração, num ambiente sórdido de corrupções, de soezes baixezas, de espantosos desmandos, de desvarios e ruins paixões e de perturbadora anarquia, propício à destruição do sentimento de nacionalidade e ao descalabro dos mais elementares princípios do respeito humano. É no meio deste inquietante e confrangedor ambiente que ameaça subverter o mundo e a maravilhosa civilização europeia que vão realizar-se as eleições dos componentes que constituirão a nova legislatura da Assembleia Nacional do nosso País”.

LGG era um homem de princípios e de valores e estava preocupado com a dimensão constitutiva e estruturante do ser humano, sobretudo com a qualidade, a força e a vulnerabilidade dessa matriz inspiradora, cívica e religiosa. Na década de quarenta, o moralismo conservador do Estado Novo ainda parecia ser um referencial de grande segurança para a sustentação da cidadania.

Ao elogiar a acção do Governador Albano Rodrigues de Oliveira, LGG destaca “a essência do Estado Novo” fazendo votos para que “não se altere o ritmo normal desta secular colónia, visto que, com as tempestuosas nuvens que se acastelam em horizontes tão próximos de nós, não podemos, de forma alguma, entregar-nos ao luxo de mostrar que a família portuguesa se encontra dividida ou apática”.

O desenvolvimento harmónico e progressivo de Macau é para LGG o objectivo supremo da actividade política: “o maior bem que podemos desfrutar é a paz interna, a par das realizações materiais, já efectuadas e por efectuar”. E para ele, só as políticas do Estado Novo é que poderiam garantir a estabilidade com a prosperidade.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau