“Luís Gomes foi o melhor e mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra…”
Pe. Manuel Teixeira, “Liceu de Macau”, 1986
“Foi um expoente autêntico da cultura de raiz macaense, e foi a sua terra a grande inspiradora dos seus escritos.”
Túlio Tomás, Revista de Cultura, n.º 23, 1995
A comemoração do cinquentenário do falecimento de Luís Gonzaga Gomes (11 de Julho de 1907 – 20 de Março de 1976), convoca-nos para uma reapreciação do seu valioso legado e para a reavaliação do relevantíssimo papel que o investigador e escritor macaense desempenhou no desenvolvimento cultural e na promoção de relações culturais.
Em 2007, quando foi assinalado o centenário do seu nascimento, dediquei-lhe vários artigos publicados na imprensa local e um opúsculo com 30 páginas que teve por título “No centenário de Luís Gonzaga Gomes – homenagem ao maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinês”, que o Instituto Internacional de Macau (IIM) editou e incluiu na sua colecção editorial “Mosaico”. Desse opúsculo, é agora oportuno reproduzir uma parte de um dos seus capítulos, após uma necessária revisão:
Na memória de algumas personalidades locais
“No prefácio do volume intitulado ‘Macau, Factos e Lendas’ (1.ª edição, 1979), Graciete Batalha, professora e filóloga, escreveu: ‘Luís Gonzaga Gomes foi talvez a personalidade macaense mais singular e mais curiosa dos últimos tempos. Não tendo constituído nunca uma família, ocupou os seus dias num labor sem tréguas e lançado para os campos mais diversos, desde o estudo à Administração Municipal, desde a política ao desporto. Mas as suas paixões mais constantes foram duas: a terra natal e a música. A Macau – pontinho de terra minúsculo, porém estuante de vida e carregado de História, dedicou Luís Gomes a maior parte das suas horas solitárias, numa devoção constante e criadora. Mais de 30 volumes publicados, mais de 20 jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês. Sob o signo deste intercâmbio, foi um dos fundadores e director do Boletim do Instituto Luís de Camões, do qual, em sua vida, se editaram nove volumes, com três ou quatro tomos cada, sendo raro o que não contenha um artigo seu. Com suas humanas limitações, deixou uma obra de valor incontestável para quem queira conhecer Macau.
A sua modéstia e a sua solidão eram, de facto, os traços mais visíveis da sua personalidade, contrastando com o reconhecido valor da sua obra. Nos dados biográficos que o Pe. Manuel Teixeira compilou para o Boletim do Instituto Luís de Camões (vol. X, n.º 1 e 2, 1976) e desenvolveu na 3.ª edição do livro ‘Liceu de Macau’ (Direcção dos Serviços de Educação, 1986), é referido que ‘Luís Gonzaga Gomes tomou parte em quase todas as iniciativas artísticas e culturais desta sua terra natal’ e ‘foi o melhor e mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento. Era um verdadeiro anacoreta’. O Pe. Manuel Teixeira, como tantos que acompanharam Luís Gomes até à última morada, emocionou-se no funeral: ‘vimo-lo, em 21 de Março de 1976, descer à sepultura; e quando a terra era padejada para cima do seu féretro, sentimos a enorme perda dum velho amigo de mais de 50 anos e que a cultura, em Macau, ficava desfalcada com o seu desaparecimento’.
Também Joaquim Morais Alves, no prefácio da 3.ª edição de ‘Chinesices’ (Instituto Cultural de Macau, 1984), lembrou ‘o homem de poucas palavras, procurando apagar-se e não dar nas vistas’ e cujos ‘méritos e serviços que prestou à sua terra e a Portugal só após a sua morte foram verdadeiramente reconhecidos’. Morais Alves, outra personalidade marcante de Macau, que recordamos sempre com profunda saudade, foi seu colega na vida profissional e vizinho no muito simpático bairro Governador Albano de Oliveira, onde apenas viviam dezasseis famílias em oito edifícios de dois pisos, o que lhe permitiu conhecê-lo bastante bem: ‘simples, modesto, despretensioso, era muito desprendido do dinheiro pois o que ganhava investia em discos e livros novos e velhos que procurava nos alfarrabistas. Foi alvo, por vezes, de invejas mesquinhas que, estóica e indiferentemente, suportava. (…) Deixou uma obra muito meritória, a sua vasta cultura foi reconhecida. Deixou uma riquíssima biblioteca pessoal que, felizmente, após o seu falecimento, foi adquirida pelo Governo de Macau e cá se encontra acessível aos estudiosos da História de Macau’. A circunstância de terem trabalhado juntos, primeiro no jornal ‘Notícias de Macau’ e posteriormente no Leal Senado, deu a Morais Alves o ‘ensejo de constatar as suas qualidades de trabalhador incansável, de pessoa muito recolhida sobre si própria, sempre agarrado aos livros, esforçando-se por aumentar o seu saber e registar memórias da vida e da História de Macau’, sendo ‘impossível, em poucas palavras, dar uma imagem completa e exacta da vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, tão multifacetada era a sua personalidade’.
O cronista Afonso Correia, contemporâneo e admirador de Luís Gomes, dedicou-lhe algumas páginas do seu livro ‘Macau, terra nossa’ (Macau, Imprensa Nacional, 1951), testemunhando que a preocupação constante de Gomes, ‘um bibliófilo de aturado estudo’ era ‘trabalhar sempre, cultivar-se cada vez mais’, não conhecendo ele, em Macau, ‘um intelectual que tanto se firmasse na ânsia de iluminar o cérebro, com o desejo de repartir pelas gentes largas somas da sua riqueza espiritual’. Afonso Correia também sublinhou a sobriedade e a modéstia de Luís Gomes e ‘o seu amor às coisas chinesas, aos costumes, à civilização, às lendas, às superstições, à mostra dos preconceitos, à arte, à literatura do povo chinês, através dos tempos’, elogiando-lhe o saber e as formas da sua transmissão ‘na sua cadeira de professor, através da rádio, da imprensa local, mormente nas colunas do ‘Notícias de Macau’, da palestra, da conferência, do ensaio ou do livro’.
Túlio Lopes Tomás, pedagogo cultíssimo, que foi Chefe dos Serviços de Educação do Governo de Macau e vice-reitor da Universidade da Ásia Oriental, deixou também um depoimento (Revista de Cultura n.º 23, 1995) sobre este ‘marco, e alto, na cultura de raiz local’, ‘um dos raros exemplos de pessoas que dedicam toda a sua actividade, desinteressadamente, a cultivarem-se a si próprias, e a procurarem repartir com outros as suas próprias experiências culturais, sem reservas de qualquer espécie’. Desfazendo a ideia de que Luís Gomes era excessivamente reservado, dele disse ainda Túlio Tomás, que foi seu amigo: ‘Era, aparentemente, um homem concentrado e de poucas falas. Pensava muito mais do que falava. Mas quando confiava no interlocutor e se sentia receptivo, abria as comportas do seu pensamento, e era um prazer escutá-lo. Observador finíssimo, sabia perfeitamente distinguir a mediocridade ou a vulgaridade do pensamento honesto dos outros. (…) Não fazia alarde da sua obra nem dos seus trabalhos nos lugares que ocupava: satisfazia-se com a consciência de ter feito algo de útil aos outros. (…) Dotado como era para as línguas, possuía um vocabulário rico, e empregava até, de quando em vez, vocábulos pouco em uso, alguns de especial sabor clássico. (…) Luís Gomes correspondia-se com gente grande do mundo cultural, e talvez fosse, até, mais conhecido em meios internacionais do que na sua própria terra, não porque esta o não prezasse ou não conhecesse a sua envergadura mental, mas porque a sua própria modéstia, isolamento e espírito sobretudo de estudioso, o afastavam das multidões e o faziam desinteressar-se da publicidade do seu próprio nome e feitos culturais’.
“Generoso, desinteressado, trabalhando infatigavelmente no silêncio e no recolhimento”, como bem referiu Graciete Batalha, Luís Gonzaga Gomes foi, na feliz síntese de Túlio Tomás, “um expoente autêntico da cultura macaense, e foi a sua terra a grande inspiradora dos seus escritos”.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



