António Aresta*
António Aresta*

Nos cinquenta anos da sua morte, vale a pena evocar, a traços largos, Luís Gonzaga Gomes [11 de Julho de 1907- 20 de Março de 1976], uma personalidade injustamente desconhecida em Portugal e no alargado mundo da lusofonia.

Luís Gonzaga Gomes é talvez a figura maior do intercâmbio cultural luso-chinês contemporâneo de Macau: professor, bibliotecário, sinólogo, historiador, director de publicações, melómano, tradutor e conferencista.

Oriundo de uma família culta e com sensibilidade para as artes, especialmente a música, Luís Gonzaga Gomes, solteiro e sem geração, tal como a irmã Margarida, dedicou-se monasticamente ao estudo da cultura e da história da sua terra.

No Liceu de Macau, foi aluno de Camilo Pessanha, de José da Costa Nunes, de Carlos Borges Delgado, de Mateus António de Lima e de Manuel da Silva Mendes e condiscípulo, entre outros, de António Maria da Conceição e de Joaquim Paço d’Arcos.

Enveredou depois pela Repartição Técnica do Expediente Sínico, seguiu a carreira do ensino primário, como professor, director da Escola Central, inspector e professor de língua chinesa no Liceu. Foi ainda conservador do Museu Luís de Camões, director da Biblioteca Pública [1962-1967], vice-presidente do Leal Senado e director da Emissora de Radiodifusão de Macau.

Luís Gonzaga Gomes deixou uma obra tão diversificada quanto extensa e sobre ela há vários estudos [Manuel Teixeira, Graciete Batalha, Jorge Rangel, António Aresta, Luís Sá Cunha, Jorge Arrimar, Celina Veiga de Oliveira, Túlio Tomaz, Han Lili, Teresa Sena, Vanessa Sérgio, Beatriz Basto da Silva, José Carlos Canoa, entre outros] que iluminam essas diversas facetas.

Os artigos que publicou nas Revistas Mosaico, Arquivos de Macau e Renascimento, no Boletim do Instituto Luís de Camões e no jornal Notícias de Macau, foram a base de sucessivos livros que foi editando.

O seu contributo é decisivo em vários campos do saber, nomeadamente estes: na Filosofia Chinesa [O Clássico da Piedade Filial, 1944; O Clássico Trimétrico, 1944; O Estudo de Mil Caracteres, 1944; As Quatro Obras: Discursos e Diálogos – Suprema Educação – Meio Constante – Mêncio 1945; O Livro da Via e da Virtude, de Laucio, 1952]; na História de Macau [Efemérides da História de Macau, 1954; Páginas de História de Macau, 1966; Catálogo dos Manuscritos de Macau, 6 volumes, 1960/66; Bibliografia Macaense, 1973; Macau: Factos e Lendas, 1979; Macau: um Município com História, 1997; A Derrota dos Holandeses em 1622, 2010]; na Cultura Chinesa [Lendas Chinesas de Macau, 1941; O Sistema de Adopção na China, 1945; Contos Chineses, 1950; Chinesices, 1952; Festividades Chinesas, 1953; Arte Chinesa, 1954]; na Linguística e Lexicografia [Vocabulário Cantonense-Português, 1941; Vocabulário Português-Cantonense, 1942; Vocabulário Português-Inglês-Cantonense, 1954; Noções Elementares da Língua Chinesa, 1958]; na Tradução do Português para a Língua Chinesa [História de Portugal: P’ou-Kuok Si-Leok, 1955; Os Lusíadas contados às crianças, de João de Barros, 1972]; na Tradução do Chinês para a Língua Portuguesa [Ou Mun Kei Leok – Monografia de Macau, 1950]; na Tradução do Italiano para a Língua Portuguesa [Relação da Grande Monarquia da China, de Álvaro Semedo, 2 volumes, 1956]; na Tradução do Francês para a Língua Portuguesa [Nova Relação da China, de Gabriel de Magalhães, 1957]; na Organização da Obra Completa de Manuel da Silva Mendes [Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, 3 volumes, 1949; Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, 4 volumes, 1963/64].

Luís Sá Cunha dizia com propriedade que “Luís Gonzaga Gomes trouxe o mundo para Macau”, tal a vastidão dos seus interesses, das suas pesquisas, dos seus conhecimentos ou dos seus contactos.

Todo este trabalho, intenso e assombroso, não o retirou do espaço público da sociabilidade e da convivialidade com os seus conterrâneos, participando na vida de inúmeras colectividades tais como o Círculo Cultural de Macau, o Círculo de Cultura Musical, a Associação Desportiva Macaense, a União Desportiva Macaense, o Rotary Clube de Macau, a Academia de Música de Macau, ou o Grupo de Amadores de Teatro e Música.

Foi ainda o correspondente em Macau de diversos jornais, por exemplo, O Primeiro de Janeiro, o Notícias de Lourenço Marques, o Diário de Coimbra, o Diário de Luanda ou o Novidades. Colaborou no Boletim da Agência Geral das Colónias e com a Agência Noticiosa de Informação. Desde 1966 foi vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos do Ministério do Ultramar.

Túlio Lopes Tomaz, professor e antigo director dos Serviços de Educação de Macau escreveu lapidarmente: “Luís Gomes, sozinho, representa uma fase da história cultural de Macau – por ele próprio e pelo que conseguiu realizar. E isto sem ter à disposição os meios de propaganda e enaltecimento de que se dispõe hoje. Por isso mesmo, a sua obra perdurará. Mas é preciso que alguém, de preferência entre os seus patrícios, faça reviver a parte não publicada da sua obra, a qual não é menos importante que os seus escritos”.

O seu nome está na toponímia, é o patrono de uma Escola Secundária Luso-Chinesa e também de um Cenáculo, fundado em 1991 e animado por Luís Sá Cunha, que funcionou como um think tank para pensar Macau. No Jardim de S. Francisco foi colocado o seu busto, uma peça escultórica de Oseo Acconci.

O Prémio Escolar Luís Gonzaga Gomes “é atribuído aos quatro alunos do 3º ciclo do ensino básico, dois do ensino em língua veicular chinesa e dois do ensino em língua veicular portuguesa, que apresentem o melhor texto sobre a intercomunicabilidade das culturas oriental e ocidental”.

O Governador José Manuel Nobre de Carvalho [1910-1988], que esteve ao leme da governação do Território entre 1966 e 1974, conferiu a Luís Gonzaga Gomes este justo louvor, no dia 18 de Outubro de 1968: “O bibliotecário da Biblioteca Nacional de Macau, Luís Gonzaga Gomes, por ter sido desligado do serviço para efeitos de aposentação, deixa o cargo que exerceu durante cerca de sete anos por forma inteiramente merecedora de referência especial. No uso da competência atribuída pelo artigo 155º da Constituição, o Governador manda: Louvo o bibliotecário da Biblioteca Nacional de Macau, Luís Gonzaga Gomes, pela grande competência e elevada dedicação largamente evidenciada no exercício daquele cargo, mesmo durante o período em que o seu estado de saúde foi precário. Estudioso incansável, profundo conhecedor de assuntos sínicos e investigador competente e erudito, Luís Gonzaga Gomes, ao longo de uma carreira de mais de quarenta anos de dedicado serviço prestado ao Estado, efectuou valiosos trabalhos de natureza diversa, devendo destacar-se a publicação da revista ‘Arquivos de Macau’ que tem merecido as mais elogiosas referências de organismos e pessoas devidamente qualificadas para o fazer. A província de Macau já deve, pois, serviços de grande relevância a Luís Gonzaga Gomes que não deixará de a continuar a servir, apesar da sua mudança de situação como funcionário, graças ao seu indiscutível espírito de artista, notável cultura e grande dedicação pela sua terra natal”.

Venho chamar a atenção, de novo, para a necessidade de se planear a edição da Obra Completa de Luís Gonzaga Gomes, incluindo uma fotobiografia. É importante recolher a colaboração dispersa na imprensa, as polémicas, as entrevistas e os inéditos. Por minha iniciativa, e sob a chancela da Fundação Macau, então presidida por António Rodrigues Júnior, promovi a reedição de dois títulos [O Livro da Via e da Virtude, de Lao Tse, 1995; O Clássico Trimétrico, 1997]. Em conjunto com Celina Veiga de Oliveira apresentamos, sob a égide do Leal Senado de Macau, presidido por José Luís Sales Marques, um conjunto de estudos de Luís Gonzaga Gomes, aglutinados sob o título, Macau, um Município com História, em 1997. A organização da Quinzena de Macau e o Instituto Cultural de Macau reeditaram outras obras, de resto muito apreciadas. Mas hoje, tudo está praticamente esgotado. Este é realmente um trabalho imperativo.

A identidade cultural de Macau, portuguesa e chinesa, encontra na obra de Luís Gonzaga Gomes uma saudável inquietação especulativa e por isso um sinal inequívoco de vitalidade.

Recoloco, pois, a questão, que marcas é que a sua acção de divulgação pedagógica da cultura chinesa deixou na sinologia e na cultura portuguesas? Em três áreas é visível a sua influência. Em primeiro lugar, na história da educação portuguesa, enriquecida com um património insuspeitado, para o estudo comparado das mentalidades, das ideologias e das práticas de ensino; em segundo lugar, manteve aceso o vivo interesse pelos estudos chineses, motivando a investigação dos eruditos; em terceiro lugar, cativou um público generalista, educando os seus gostos e as suas apetências porque, como ninguém, soube cruzar a história luso-chinesa com a divulgação da cultura chinesa.

Só um país com gente muito distraída ou desatenta é que se pode dar ao luxo de desaproveitar todo este fecundo intercâmbio cultural luso-chinês e sino-português, ancorado na personalidade ímpar de Luís Gonzaga Gomes.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau