Jorge A. H. Rangel*
Jorge A. H. Rangel*

 

 

JORGE A. H. RANGEL*

 

“Nos cinquenta anos da sua morte, vale a pena evocar, a traços largos, Luís Gonzaga Gomes (11 de Julho de 1907 – 20 de Março de 1976), uma personalidade injustamente desconhecida em Portugal e no alargado mundo da lusofonia. Luís Gonzaga Gomes é talvez a figura maior do intercâmbio cultural luso-chinês contemporâneo de Macau.”

António Aresta em “As Artes entre as Letras”

 

Foi com especial satisfação que recebi, no mês passado, das mãos do professor e investigador António Aresta, um exemplar da prestigiada publicação cultural “As Artes entre as Letras”, de 25 de Março de 2026, que contém um oportuno e muito bem concebido texto sobre Luís Gonzaga Gomes, a propósito do 50.º aniversário do seu falecimento (11 de Julho de 1907 – 20 de Março de 1976), lembrando que o professor e escritor macaense é uma personalidade “injustamente desconhecida em Portugal e no alargado mundo da lusofonia”. Na verdade, “professor, bibliotecário, sinólogo, historiador, director de publicações, melómano, tradutor e conferencista, oriundo de uma família culta e com sensibilidade para as artes, especialmente a música, Luís Gonzaga Gomes, solteiro e sem geração, tal como a irmã Margarida, dedicou-se monasticamente ao estudo da cultura e da história da sua terra.”

 

Percurso singular e obra incontornável

Com o propósito de promover a correcta divulgação desta notável figura da cultura macaense, António Aresta resumiu neste recente trabalho o seu intenso e multifacetado percurso, sublinhando que a “identidade cultural de Macau, portuguesa e chinesa, encontra na obra de Luís Gonzaga Gomes uma saudável inquietação especulativa e por isso um sinal inequívoco de vitalidade”, o que justifica que mais estudos sejam realizados, a par da “necessidade de se planear a edição da sua Obra Completa”, sendo importante recolher a colaboração dispersa na imprensa, as polémicas, as entrevistas e os inéditos”:

“No Liceu de Macau, foi aluno de Camilo Pessanha, de José da Costa Nunes, de Mateus António de Lima e de Manuel da Silva Mendes e condiscípulo de António Maria da Conceição e de Joaquim Paço d’Arcos. Enveredou depois pela Repartição Técnica do Expediente Sínico, seguiu a carreira do ensino primário, como professor, director da Escola Central, inspector e professor de língua chinesa no Liceu. Foi ainda conservador do Museu Luís de Camões, director da Biblioteca Pública (1962-1967), vice-presidente do Leal Senado e director da Emissora de Radiodifusão de Macau.

Luís Gonzaga Gomes deixou uma obra tão diversificada quanto extensa e sobre ela há vários estudos (Manuel Teixeira, Graciete Batalha, Jorge Rangel, António Aresta, Luís Sá Cunha, Jorge Arrimar, Túlio Tomaz, Han Lili, Teresa Sena, Vanessa Sérgio, José Carlos Canoa, entre outros) que iluminam essas diversas facetas. Os artigos que publicou nas Revistas Mosaico, Arquivos de Macau e Renascimento, no Boletim do Instituto Luís de Camões e no jornal Notícias de Macau foram a base de sucessivos livros que foi editando.”

António Aresta recordou ainda que o contributo de Luís Gonzaga Gomes foi decisivo em vários campos do saber: “na Filosofia Chinesa (O Clássico da Piedade Filial, 1944; O Clássico Trimétrico, 1944; O Estudo de Mil Caracteres, 1944; As Quatro Obras: Discursos e Diálogos – Suprema Educação – Meio Constante – Mêncio, 1945; O Livro da Via e da Virtude, de Laucio, 1952); na História de Macau (Efemérides da História de Macau, 1954; Páginas da História de Macau, 1966; Catálogo dos Manuscritos de Macau, 6 volumes, 1960/66; Bibliografia Macaense, 1973; Macau: Factos e Lendas, 1979; Macau: um Município com História, 1997; A Derrota dos Holandeses em 1622, 2010); na Cultura Chinesa (Lendas Chinesas de Macau, 1941; O Sistema de Adopção na China, 1945; Contos Chineses, 1950; Chinesices, 1952; Festividades Chinesas, 1953; Arte Chinesa, 1954); na Linguística e Lexicografia (Vocabulário Cantonense-Português, 1941; Vocabulário Português-Cantonense, 1942; Vocabulário Português-Inglês-Cantonense, 1954; Noções Elementares da Língua Chinesa, 1958); na Tradução do Português para a Língua Chinesa (História de Portugal: P’ou-Kuok Si-Leok, 1955; Os Lusíadas contados às crianças, de João de Barros, 1972); na Tradução do Chinês para a Língua Portuguesa (Ou Mun Kei Leok – Monografia de Macau, 1950); na Tradução do Italiano para a Língua Portuguesa (Relação da Grande Monarquia da China, de Álvaro Semedo, 2 volumes, 1956); na Tradução do Francês para a Língua Portuguesa (Nova Relação da China, de Gabriel de Magalhães, 1957); na Organização da Obra Completa de Manuel da Silva Mendes (Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, 3 volumes, 1949; Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, 4 volumes, 1963/64).”

Luís Gonzaga Gomes “foi ainda o correspondente em Macau de diversos jornais, por exemplo, O Primeiro de Janeiro, o Notícias de Lourenço Marques, o Diário de Coimbra, o Diário de Luanda ou o Novidades. E “colaborou no Boletim da Agência Geral das Colónias e com a Agência Nacional de Informação.” Também foi, “desde 1966 vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos do Ministério do Ultramar.”

O seu labor foi mesmo incansável: “Todo este trabalho, intenso e assombroso, não o retirou do espaço público da sociabilidade e da convivialidade com os seus conterrâneos, participando na vida de inúmeras colectividades tais como o Círculo Cultural de Macau, o Círculo de Cultura Musical, a Associação Desportiva Macaense, a União Desportiva Macaense, o Rotary Clube de Macau, a Academia de Música de Macau, ou o Grupo de Amadores de Teatro e Música.”

 

Um expressivo louvor oficial

António Aresta juntou a este seu texto o justíssimo louvor que foi atribuído a Luís Gonzaga Gomes, em Outubro de 1968, pelo Governador José Manuel Nobre de Carvalho (1910-1988), que durante oito anos (1966-1974) assumiu a governação de Macau, aqui vivendo períodos muito difíceis, entre “a revolução cultural chinesa” e a “revolução dos cravos” em Portugal:

“O bibliotecário da Biblioteca Nacional de Macau, Luís Gonzaga Gomes, por ter sido desligado do serviço para efeitos de aposentação, deixa o cargo que exerceu durante cerca de sete anos por forma inteiramente merecedora de referência especial. No uso da competência atribuída pelo artigo 155.º da Constituição, o Governador manda: Louvo o bibliotecário da Biblioteca Nacional de Macau, Luís Gonzaga Gomes, pela grande competência e elevada dedicação largamente evidenciada no exercício daquele cargo, mesmo durante o período em que o seu estado de saúde foi precário. Estudioso incansável, profundo conhecedor de assuntos sínicos e investigador competente e erudito, Luís Gonzaga Gomes, ao longo de uma carreira de mais de quarenta anos de dedicado serviço prestado ao Estado, efectuou valiosos trabalhos de natureza diversa, devendo destacar-se a publicação da revista ‘Arquivos de Macau’ que tem merecido as mais elogiosas referências de organismos e pessoas devidamente qualificadas para o fazer. A província de Macau já deve, pois, serviços de grande relevância a Luís Gonzaga Gomes que não deixará de a continuar a servir, apesar da sua mudança de situação como funcionário, graças ao seu indiscutível espírito de artista, notável cultura e grande dedicação pela sua terra natal.”

Há uma rua numa zona nova da cidade e um prémio escolar com o seu nome e ele é o patrono de uma escola secundária luso-chinesa. O Governador Vasco de Almeida e Costa (1981-1986) atribuiu-lhe, a título póstumo, a Medalha de Valor e foi colocado o seu busto, da autoria do escultor Oseo Acconci, num jardim público. Foi também criado um cenáculo, nele inspirado, para funcionar como um “think tank” cultural. E foram promovidas reedições das suas obras, com a intervenção de António Aresta e Celina Veiga de Oliveira e por iniciativa dos Serviços de Educação e Juventude, do Instituto Cultural de Macau e do Instituto Internacional de Macau. Mas é imperativo que se faça muito mais. Este é um tema que continuará a merecer o nosso adequado tratamento.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.