Carlos Frota *
Londres elegeu, como se sabe, recentemente o seu primeiro Mayor muçulmano.
A escolha pelos londrinos do presidente do seu município ficou profundamente marcada, assim, pela origem étnica do candidato vencedor, tendo sido muito menos discutida, ou não discutida de todo, a ascendência étnica e religiosa do opositor, Zacharias Goldsmith, que persistentemente acusou o seu rival de conluio com o extremismo islâmico.
Provavelmente não se questionou as credenciais britânicas de Goldsmith porque há muito a família faz parte do establishment. E porque, pelo menos desde Disraeli, as instituições britânicas, ao mais alto nível, abriram-se ao contributo judaico, estando agora a inaugurar idêntica experiência, com a participação de um crente da religião do Profeta.
É normal, é a democracia a funcionar – dirão uns. É – dirão outros – o primeiro passo para a conquista política da Europa pelos “infiéis”, usando expressão antiga com que quase todas as religiões historicamente brindaram os “adversários” das outras crenças. E que o Islão radical actualizou, com as conhecidas conotações políticas.
Como outros disseram ou poderão dizer, a propósito de Zac Goldsmith: é o lobby judeu a funcionar em pleno, na sua estratégia de domínio…
Sem entrar na teoria das forças ocultas, e colocando o debate no plano mais visível dos preconceitos, diria que nas democracias, ou melhor, na organização política das sociedades humanas em geral, há sempre um hiato entre princípios que se proclamam e a prática do quotidiano. Daí dizer-se que todas as constituições são uma mistura de direitos, deveres … e de boas intenções.
Isto para sublinhar que a realização, por exemplo, dos princípios da igualdade e não discriminação é, mais do que sucesso de um momento, um processo contínuo e uma batalha nunca definitivamente ganha.
O exemplo americano
Na história bicentenária dos Estados Unidos, por exemplo, foi preciso chegar a 1961 para que fosse eleito um presidente católico. Foi necessário aguardar mais cinco décadas (2008) para ser eleito para a Casa Branca o primeiro afro-americano. E a América está à beira de inaugurar um outro capítulo tardio da sua história, com a provável elevação ao cargo supremo da nação da primeira mulher.
E durante todo esse período – que cobre amplamente todo o pós-guerra e o início do século actual – morreu o Dr Martin Luther King sob as balas assassinas do racismo, com ou sem rosto; a famigerada irmandade dos três Ks escreveu com sangue numerosas páginas da história do país; enquanto a igualdade das mulheres ia sendo conquistada com lutas, fracassos, recuos, alguns progressos.
E em nenhum desses campos a vitória está definitivamente alcançada.
Vitórias tardias, como qualifiquei, ou batalhas ganhas com muito esforço, contra o conservadorismo de muitos grupos e contra os interesses instalados dos mesmos e de outros?
O melhor exemplo desse conservadorismo, tão actual e tão presente na sociedade americana desta segunda década do século XXI, é a dimensão impressionante da base de apoio popular de que desfruta o candidato republicado à eleição presidencial, com milhares e milhares de pessoas a sufragarem, pelo aplauso, nos comícios (e com o seu voto nas primárias), o discurso mais reaccionário, desde o tempo do macartismo.
Entretanto, grassa a rebelião no topo do Partido Republicano, a traduzir o mal-estar geral, pela vitória de Trump. Que desfecho para esse imbróglio, é o que veremos. Mas nunca os conservadores americanos tiveram tão divididos, nunca figuras-chave se distanciaram tão claramente das bases do partido.
E – ia eu acrescentar, mas talvez com falta de rigor – poucas vezes o retrato da América surgiu tão polarizado, em tempos mais recentes, fora talvez o trauma da guerra do Vietname.
Talvez não seja assim. O século XX americano foi prenhe de episódios contrastantes, desde movimentos sociais de grande virulência até ao impedimento de um presidente e à tentativa de impedir outro, que marcaram o século passado.
E na Europa?
E, mais precisamente, na Grã-Bretanha? Londres ficou diferente, depois da eleição do trabalhista Sadiq Khan?
Têm os britânicos só… britânicos (?) o receio de que o novo Mayor converta Hyde Park em novo lugar de culto, em cada sexta-feira? Que acelere a construção de mesquitas? Que institua o princípio da abolição de todos os outros símbolos religiosos que não o da sua Fé? Que imponha a obrigatoriedade do véu a todas as jovens londrinas ? Que obrigue as cantinas das escolas públicas da capital a servirem só refeições halal?
Viverá a suinicultura que serve Londres os seus últimos dias? E ver-se-ão o Bordeaux e o nosso (também o deles…) vinho do Porto, para não falar no gostoso uísque escocês, impedidos de entrar na City ou em Mayfair ?
Sadiq Khan “justificou” a sua candidatura com a criação de uma base política, donde combater o extremismo islâmico, numa grande capital europeia que, como outras, não conseguiu evitar guetos étnicos, onde quase a polícia não entra.
Pois bem, há que vincular o novo Mayor ao seu discurso, ao seu programa, ao seu compromisso. E disso se encarregarão os media e os opositores, a começar pelo governo conservador de David Cameron, o grande derrotado político desse pleito.
De qualquer modo, como Barack Hussein Obama numa América grandemente impreparada para o aceitar como presidente, Sadiq Khan continuará a ser objecto de todas as suspeitas até final do seu mandato. Será vítima de todas as desconfianças, e será vigiado pela sociedade londrina da “gente de bem” que vota tory e desconfia de quem desafia o establishment.
E ainda como Obama – cuja presença no poder não resolveu de uma penada o problema do racismo na América – também não resolverá Sadiq Khan o problema, hoje geral, do “receio do muçulmano”, ou da fobia do muçulmano, em cujo íntimo está escondido sempre, na visão dos demagogos, um potencial terrorista.
Integrar: o efeito Sadiq
Que efeito mais desejável desta eleição? O repensar do modelo de integração social dos muçulmanos – e das outras minorias, numa grande capital que se transformou num gigantesco laboratório de relacionamento inter-étnico, inter-religioso e inter-cultural.
E o Reino Unido, como o resto da Europa, precisam desse exercício. Porque só a eficácia das soluções encontradas constituirá antídoto ao sentimento de exclusão que se aponta como a razão decisiva do recrutamento de jovens candidatos ao terrorismo jiadista.
Novos desafios,pois, à própria sobrevivência dos regimes democráticos e das sociedades multi-culturais, onde as diferentes camadas da população vão saindo, simbolicamente, das periferias e ocupando lugares de relevo nas instituições do poder.
Pode dizer-se, após a eleição do Mayor de Londres que o longo caminho para a igualdade e não discriminação começa pelo baptismo de fogo do exercício de funções electivas, em domínios onde se é julgado, não pela religião que se perfilha, mas pelas soluções eficazes aos problemas concretos das comunidades. De toda a comunidade.
Problema conexo com este – mas afinal a antecipar resposta idêntica – é o de como gerir a crescente presença de refugiados na Europa, na sua esmagadora maioria proveniente de países muçulmanos.
Angela Merkel há duas semanas numa visita a Itália declarou sem ambiguidade que a Europa verá recrudescer o sentimento nacionalista através do continente, a menos que feche as fronteiras externas.
Não bastará, pois o mesmo desafio existirá intra-muros, se os refugiados não forem integrados.
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