No passado dia seis de Julho, estreou em Londres A Odisseia, o novo filme de Christopher Nolan, cujo orçamento foi de 250 milhões de dólares. Oppenheimer, o anterior blockbuster deste director, para além de ter levado para casa sete dos treze Óscares a que fora nomeado, facturou mais de nove vezes o seu orçamento original de 100 milhões de dólares. Poderá o novo projecto de Nolan, apesar de todas as críticas que o filme mereceu –e não são poucas nem triviais–, fazer outro tanto? Seja qual for o resultado final, a escolha do tema sugere que a poesia grega antiga ainda vende.
Para além dos muitos milhões que filmes sobre o mundo grego e romano antigo facturaram aos estúdios de Hollywood ao longo dos anos, há que acrescentar os milhões que todos os anos o Estado grego amealha nos seus cofres graças ao turismo, responsável por cerca de 35% do produto interno bruto –13% directamente e 22% indirectamente– e por cerca de 20% do mercado laboral grego. Ainda que muitos se desloquem à Grécia para fazer turismo de outro tipo que não o histórico, estes números nunca seriam os mesmos, não fossem a história da Grécia e a relação sociocultural que o Ocidente mantém com o mundo helénico.
Mas, apesar de tudo isto, de todo este valor monetário acrescentado, numa era em que tudo, incluindo o corpo, é visto como bem transaccionável, e o valor das coisas mede-se em dólares, ou, no caso da Grécia, em euros, ou evro, como eles o pronunciam, não é esse o valor da cultura clássica, valor esse que se expressa em grego. Muito pelo contrário, os valores cultivados pela cultura clássica vão na direcção completamente contrária aos desta nossa Idade do Ferro.
A democracia oligárquica
Muito se fala da democracia, seja de como é a melhor forma de governo que até hoje pudemos inventar, seja dos muitos benefícios que ela traz à vida dos indivíduos. Como o próprio nome demonstra, a democracia nasceu na Grécia Antiga, mais precisamente na pólis de Atenas, no século V a.C., não da busca pela melhor forma de governo ou da forma de governo que melhor beneficiasse os cidadãos, mas sim do desejo e da necessidade de evitar o surgimento de oligarquias e das revoltas que delas decorrem. Hoje, 25 séculos mais tarde, chegaram por aí uns senhores, não se sabe bem de onde, com a tarefa de salvar a democracia. Eleitos, que é para mais, instala(ra)m-se no poder, e, rodeados dos seus untuosos amigos multimilionários, tornaram-se aquilo que Sólon queria evitar, oligarcas que, graças à sua imensa fortuna e à deseducação de longa data das massas populares, com um discurso baseado no económico –ainda que o económico não lhes vá nada bem!– e na moralidade tradicional, alcançam o poder que exercem sem mesura para benefício próprio e exclusão e demonização daqueles que não aderem a essa ideia proprietária de democracia.
O narcisismo instagrâmico made in Dubai
O centralismo do económico não se dá apenas nas esferas mais altas, as dos multimilionários, ou já dos trilionários, chegou mesmo aos níveis mais baixos, os lá dos nossos bairros. Disso dá quase quotidianamente testemunho o Extremamente Desagradável da Joana Marques –programa que o autor deste texto segue religiosamente. Aí, com horror ou humor, dependendo de quem ouve, vemos passar em parada falanges de indivíduos, quase todos com pronúncia do Norte, e que supostamente vivem no Dubai onde conduzem Ferraris vermelhos que também supostamente possuem. Estas criaturas não são mais do que os cromos de cadernetas de novas ideologias narcisistas, na sua maior parte de cariz machista, baseadas no dinheiro e prontas a engolir qualquer coisa que confirme as baboseiras que já não se coíbem de verbalizar através de podcasts, sua principal fonte de receita, que podem durar horas.
Num português quebrado à mistura com palavras inglesas mal pronunciadas, vão debitando o seu hiperindividualismo que postula o indivíduo como único responsável pelo seu sucesso ou fracasso, sem qualquer consideração pelas condicionantes sociais ou económicas dos demais. Esta forma de individualismo vem acompanhada da crença de que se deve melhorar constantemente o corpo, a produtividade, a riqueza e o estatuto social. Tudo isto regado de uma subjectividade neoliberal, em que o indivíduo se concebe como um empreendedor cuja vida é um projecto pessoal e cujo valor próprio depende do desempenho, e uma positividade tóxica, em que qualquer problema pode ser ultrapassado através da atitude correcta, disciplina ou mentalidade. A consequência desta pretensa ideologia meritocrática em que o indivíduo está em controle de tudo é a conclusão de que, se o sucesso é conquistado por meio do talento e do esforço, a pobreza, o fracasso e até a doença são culpa do indivíduo. Através de plataformas como o Instagram, TikTok ou YouTube, estes indivíduos dedicam-se a exibir publicamente e de forma narcisista as suas pretensas conquistas, riqueza, aspecto físico ou estilo de vida, ao mesmo tempo que tentam captar seguidores para aumentar o seu capital. A verdade do que exibem –se o Ferrari é realmente seu ou se foi alugado à hora para a filmagem– está ainda por se estabelecer!
Esta nova mentalidade, totalmente alienada da realidade do mundo, em que a maioria das pessoas está à mercê das circunstâncias, contrasta fortemente com o pensamento grego, que sempre reflectiu sobre o carácter contingente e frágil da condição humana. Já em Homero, o autor da Odisseia, o azar da vida é personificado pelas decisões, muitas vezes irracionais, dos deuses olímpicos, controlados pelas suas paixões.
Num mundo em que a doença poderia facilmente ser vista como punição por “pecados” passados, a tragédia grega reflecte como os seres humanos são frágeis e como a doença, a desgraça e o fracasso nem sempre são merecidos. Para autores como Sófocles ou Eurípides, à luz da complexidade do mundo por eles descrita, a ideia de que os doentes são culpados da sua doença, como se ouve agora, seria considerada moralmente simplista e intelectualmente ingénua. Num plano menos literário, Aristóteles reconhecia que a felicidade depende não só da virtude, mas também das circunstâncias do mundo e até da sorte (τύχη, tychē).
Quando hoje assistimos à polarização política nos Estados Unidos, à consolidação de formas autoritárias de governo na Rússia, à indiferença em relação ao genocídio no Médio Oriente ou à influência crescente dos magnatas tecnológicos sobre a circulação global da informação, é difícil não recordar que os gregos já haviam reflectido longamente sobre os perigos do poder, da demagogia e da oligarquia.
O valor do grego não reside apenas no acesso directo a Homero, a Platão, a Aristóteles ou ao Novo Testamento, embora esse privilégio seja extraordinário. O seu verdadeiro valor reside no acesso que proporciona a uma das mais longas conversas intelectuais da História. Foi em grego que se formularam, pela primeira vez de forma sistemática, muitas das perguntas que continuam a definir a nossa existência colectiva: o que é a justiça, quem deve governar, o que significa ser livre, como devemos viver e de que modo podemos distinguir entre a verdade e a ilusão.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



