Nos dois artigos anteriores, vimos como a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, possivelmente o primeiro texto da história a ser traduzido de forma sistemática, e o Novo Testamento, uma produção de raiz em grego koiné, representam um marco na confluência sociocultural entre Oriente e Ocidente, alcançada por meio da simbiose cultural promovida pelo helenismo. Estas duas colectâneas de textos perfazem aquilo a que nós comumente chamamos a Bíblia, que, ao contrário do que se possa imaginar, não é igual em todas as comunidades cristãs; a Bíblia dos protestantes tem menos livros do que a Católica, e a Ortodoxa Etíope, mais.

A Bíblia resulta de um longo processo histórico de selecção em que se passaram séculos a discutir quais textos deveriam ser considerados autênticos e quais deveriam ser excluídos do cânone.

 

O cânone

A palavra cânone deriva do grego κανών /kanṓn/, que significa originalmente ‘régua’, ‘medida’ ou ‘norma’. Aplicada aos textos religiosos, passou a designar o conjunto de livros reconhecidos como autênticos por uma determinada comunidade.

Hoje, judeus e cristãos possuem colecções estáveis de livros ditos sagrados. No entanto, durante grande parte da Antiguidade, essa estabilidade simplesmente não existia.

No período em que a Septuaginta começou a ser traduzida, entre os séculos III e II a.C., o judaísmo ainda não possuía um cânone fixo; alguns dos livros que viriam a ser considerados canónicos ainda não tinham adquirido a sua forma final, como, por exemplo, os livros de Daniel ou de Judite. Dos diversos textos que circulavam entre as comunidades judaicas do Mediterrâneo, alguns viriam a integrar a colecção palestiniana, que configuraria o cânone judeu; outros fariam parte apenas da tradição Alexandrina, mais tarde adoptados pelo cânone católico e ortodoxo, enquanto outros desapareceriam quase por completo.

Os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran no século XX, oferecem um testemunho eloquente desta realidade. Copiados num tempo em que uma lista fechada de livros sagrados ainda não existia, neles encontramos cópias de livros que mais tarde seriam considerados canónicos ao lado de obras que nunca chegaram a integrar qualquer cânone oficial.

 

Deuterocanónicos e Apócrifos

É neste contexto que devemos compreender os chamados livros deuterocanónicos. Obras como Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc ou os livros dos Macabeus faziam parte da tradição religiosa de numerosas comunidades judaicas do período helenístico e, por isso, foram preservadas na Septuaginta.

Embora posteriormente não tenham sido incluídas no cânone do judaísmo rabínico, continuaram a ser utilizadas pelas igrejas cristãs que herdaram a Bíblia em grego. A sua existência demonstra que as fronteiras entre textos canónicos e não canónicos nem sempre foram tão nítidas como se esperaria.

A situação não era muito diferente entre os cristãos dos primeiros séculos. Os livros que hoje compõem o Novo Testamento coexistiam com numerosas outras obras religiosas escritas em grego.

Entre elas encontramos evangelhos, actos apostólicos, cartas e apocalipses que gozaram, em alguns lugares, de algum prestígio. O Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, o Proto-Evangelho de Tiago, os Actos de Paulo, o Apocalipse de Pedro ou o Pastor de Hermas são apenas alguns exemplos de textos antigos que não foram incluídos no cânone bíblico. Nem todos estes escritos foram rejeitados imediatamente, por exemplo, o Evangelho de Pedro, que viria a ser excluído pelas suas concepções heterodoxas em relação à materialidade do corpo, foi utilizado em algumas comunidades cristãs dos primeiros séculos.

Apenas gradualmente foi-se formando um consenso em torno dos livros que acabariam por integrar o cânone. As razões para a exclusão de textos são variadas: alguns foram considerados demasiado tardios para terem origem apostólica, pois tal como nos escritos canonizados, o nome do autor não é garantia de autenticidade –nada faz crer que o Evangelho de Pedro tenha sido escrito pelo apóstolo São Pedro. Outros continham ideias consideradas incompatíveis com os textos autênticos. Outros ainda tiveram apenas circulação local, sem jamais alcançar reconhecimento universal.

A exclusão de um texto do cânone não implica necessariamente que ele seja destituído de valor histórico, pois muitas destas obras continuam a ser fontes para o estudo do Cristianismo primitivo. Nos dias de hoje, estes textos têm ganhado alguma proeminência em vista da tendência generalizada de desafiar tudo o que é institucionalizado.

Mais fascinante ainda é a existência de obras que talvez tenham influenciado os próprios Evangelhos e que, no entanto, nunca chegaram até nós.

O exemplo mais conhecido é a chamada fonte Q, abreviatura da palavra alemã Quelle ‘fonte’. Muitos estudiosos defendem que Mateus e Lucas utilizaram, para além do Evangelho de Marcos, uma colecção anterior de ditos de Jesus. Esta hipótese procura explicar passagens comuns a Mateus e Lucas que não se encontram em Marcos e que, como tal, deveriam ser oriundas de um texto que não chegou até nós. A sua existência continua a ser objecto de debate, já que nenhum manuscrito ou fragmento desse suposto texto foi jamais descoberto.

 

A língua dos Apócrifos

Tal como aconteceu com a Septuaginta e com o Novo Testamento, a maior parte desta literatura foi escrita em grego. A koiné tornou-se não apenas a língua da administração e do comércio, mas também a língua de criação literário-religiosa do Mediterrâneo oriental.

Neste sentido, a história dos apócrifos constitui mais um capítulo da expansão do grego koiné, que criou um espaço cultural comum, permitindo a circulação de ideias religiosas entre povos de origens assaz diversas. O alcance da expansão do grego no Oriente torna-se evidente se tivermos em conta que alguns dos livros que originalmente faziam parte da colectânea bíblica alexandrina foram escritos tão somente em grego, tal como A Sabedoria de Salomão, o segundo livro dos Macabeus e os acrescentos a Daniel, enquanto que os livros de Judite, Tobias e o primeiro livro dos Macabeus, embora originalmente escritos em hebraico/aramaico, apenas a sua versão grega sobreviveu. Outros livros existem que, tendo sido compostos originalmente em grego, nunca entraram no cânone, tais como Macabeus III e IV –presentes na Septuaginta–, a Carta de Aristeias e José e Asenete. O caso do Testamento dos Doze Patriarcas, que apenas sobreviveu em grego, é problemático, pois não há consenso quanto à língua da sua composição original.

Estes textos dão testemunho da vitalidade que o helenismo alcançou no âmbito do judaísmo, ao mesmo tempo que mostram que, antes da composição do Novo Testamento, existia já uma tradição judaica de escrever em grego. As obras de Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.–50 d.C.) e, mais tarde, de Flávio Josefo (c. 37–100 d.C.), confirmam isso mesmo. Essa tradição continuou até tarde, quando os textos do Novo Testamento já tinham obtido a sua forma final; tal é o caso do Testamento de Abraão, apócrifo judaico em grego que terá sido escrito por volta do séc. II d.C.

Os apócrifos recordam-nos que o Novo Testamento é apenas a parte mais visível de um vasto oceano de literatura cristã antiga, quase toda ela escrita na língua que Alexandre Magno e o seu império ajudaram a universalizar.

* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas