A Septuaginta, como vimos, ainda que não represente a tradução do texto hebraico que serve de base ao texto massorético, é, no entanto, na sua maior parte, uma tradução em grego de um texto original semítico. Já o Novo Testamento constitui a redacção original de textos de um âmbito religioso e cultural semelhante, mas redigidos directamente em grego.
Isto levanta um problema: Jesus, os seus discípulos e o público-alvo da sua mensagem falavam aramaico. Como se explica, então, que os textos fundacionais do cristianismo tenham sido escritos em grego?
A resposta encontra-se na história do mundo helenístico e na expansão do grego após as conquistas de Alexandre Magno. O Novo Testamento é, em muitos sentidos, um produto da convergência entre tradições religiosas do Oriente e o mundo helenístico.
O Novo Testamento
Ao contrário do que por vezes se imagina, o Novo Testamento não é um único livro escrito de uma só vez. Trata-se de uma colecção de escritos produzidos ao longo do século I d.C. por diferentes autores e em diversos contextos. Entre eles encontramos os quatro Evangelhos, os Actos dos Apóstolos, as Epístolas atribuídas a Paulo e a outros autores cristãos e, por fim, o Apocalipse.
Estes textos circularam inicialmente de forma independente entre as várias comunidades cristãs espalhadas pelo Mediterrâneo. Só gradualmente foram reunidos num conjunto reconhecido como normativo pela Igreja. Durante os primeiros séculos coexistiram com outros escritos apócrifos: evangelhos, actos apostólicos, cartas e apocalipses que acabariam por ficar fora do cânone oficial da Igreja.
A definição dos livros considerados autênticos foi um processo demorado. Critérios como a antiguidade do texto, a sua ligação aos Apóstolos e a conformidade com a doutrina recebida desempenharam um papel importante na sua selecção. No século IV, a lista dos livros hoje reconhecidos pela maioria das Igrejas cristãs já se encontrava substancialmente estabilizada. Figuras como o Papa Dâmaso I e São Jerónimo contribuíram para consolidar uma tradição que viria a tornar-se dominante no Ocidente.
Os Evangelhos
A questão da autoria dos textos do Novo Testamento continua a ser objecto de debate. A tradição cristã atribui os quatro Evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e João, embora os textos em si não identifiquem explicitamente os seus autores.
Três dos Evangelhos –Mateus, Marcos e Lucas– apresentam tantas semelhanças entre si que são conhecidos como Evangelhos Sinópticos, isto é, podem ser lidos em paralelo. Já o Evangelho de João distingue-se claramente dos restantes, tanto na linguagem e na organização narrativa como no seu concentrado teor teológico.
As diferenças entre os textos levantam questões sobre as fontes utilizadas pelos seus autores. Embora muitas destas questões permaneçam em aberto, existe um consenso alargado de que os Evangelhos resultam de um longo processo de transmissão, primeiro oral e depois escrita, das tradições relativas à vida e aos ensinamentos de Jesus Cristo.
A Língua
A língua quotidiana da Palestina do século I era o aramaico, sendo essa a língua que Jesus utilizou durante a sua vida. Os próprios textos do Novo Testamento conservam algumas expressões aramaicas transcritas em grego e atribuídas a Jesus, como ṭəlīṯā qūmī ‘rapariga, levanta-te’ ou ʾabbā ‘pai’, entre outras.
Jesus, como iehudi que era, conheceria também o hebraico utilizado na liturgia e na leitura das Escrituras. Quanto ao grego, embora não seja impossível que tivesse algum conhecimento da língua, não dispomos de provas ou pistas suficientes para afirmar que, de facto, o soubesse. Os seus discípulos e seguidores pertenciam ao mesmo ambiente sociolinguístico e, como tal, seriam também eles falantes de aramaico e, sendo, na sua grande maioria, membros das classes mais baixas, seria pouco provável que soubessem grego.
É aqui que entra em cena a história linguística do Mediterrâneo oriental. Quando o cristianismo surgiu, o grego koiné desempenhava já o papel de língua franca na margem oriental do Grande Mar, servindo de língua comum para o comércio, a administração pública, a cultura e a educação.
Além disso, uma parte significativa da diáspora judaica, o primeiro alvo do cristianismo fora da Palestina, utilizava o grego como sua língua principal. As comunidades judaicas de Alexandria, Antioquia, Éfeso ou Corinto estavam plenamente integradas no mundo helenístico. Foi precisamente para elas que a Septuaginta havia sido traduzida nos séculos anteriores.
Os primeiros missionários cristãos dirigiram-se aos judeus, mas rapidamente passaram a evangelizar os gentios, entre os quais encontravam maior receptividade. As viagens de São Paulo ilustram perfeitamente esta realidade. As comunidades por ele fundadas em cidades como Filipos, Tessalónica, Corinto ou Éfeso eram constituídas por falantes de grego e, como tal, escrever-lhes em aramaico faria pouco sentido e limitaria o alcance da mensagem. Se o cristianismo nasceu em aramaico, cresceu em grego!
Uma tradição antiga, preservada por alguns autores dos primeiros séculos, afirma que Mateus teria escrito o seu evangelho em hebraico. No entanto, desse suposto texto em hebraico, ou talvez em aramaico, não há qualquer testemunho, nem sequer fragmentário, o que torna possível que esta tradição seja inexacta. Além disso, o texto grego de Mateus apresenta características que sugerem uma composição original nessa língua. A teoria da composição numa língua semita continua em aberto, no entanto, pois há estudiosos que se recusam a abandoná-la apesar da falta de provas factuais.
Alexandre, o Grande, e o Novo Testamento
É graças ao facto de o grego koiné ter sido a língua franca do espaço geográfico que o Império Romano herda de Alexandre, o Grande, que a mensagem cristã pôde ultrapassar as fronteiras linguísticas e culturais de povos de diferentes etnias, deixando assim de ser uma realidade autóctone à Palestina e vindo a transformar-se numa religião supra-étnica e pluricultural.
A própria língua do Novo Testamento reflecte essa pluralidade. Trata-se de uma koiné relativamente simples, acessível a um público amplo, mas fortemente influenciada por um substrato semita e pela linguagem da Septuaginta. O resultado é uma forma de grego singular, em que se cruzam a língua helénica e a herança cultural do Oriente Próximo.
Neste sentido, a história do Novo Testamento constitui também um capítulo da história da língua grega. Sem Alexandre Magno, sem o mundo helenístico, sem a expansão da koiné, sem os diádocos, dificilmente os textos fundacionais do Cristianismo teriam tido o alcance que tiveram.
Alexandre da Macedónia jamais poderia imaginar que a língua que levara até às margens do Indo se tornaria o veículo de uma nova religião destinada a ultrapassar as fronteiras do seu império e de todos os impérios que se seguiriam. Ao criar um espaço cultural comum no Mediterrâneo oriental, este tornou-se indirectamente um dos principais responsáveis pelo facto de o Novo Testamento ter sido escrito em grego. A história do Cristianismo primitivo é, assim, também uma consequência inesperada da história da língua grega e da sua expansão graças a Alexandre, o Grande.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



