O fim do período helenístico, com a queda dos últimos reinos dos diádocos, não determinou a morte do grego como língua franca na bacia oriental do Mediterrâneo. Após a inclusão de grande parte do Oriente Próximo nas estruturas do Império Romano, a língua grega continuou a gozar de um estatuto similar ao que tinha antes da conquista romana.
Os romanos conquistaram militarmente o mundo helénico, mas, do ponto de vista cultural, foram eles os conquistados. Os romanos, que já tinham entrado em contacto com o mundo grego na Magna Graecia – o sul de Itália e a Sicília -, adoptaram a religião, a arquitectura, a literatura e muitos outros aspectos culturais dos gregos. Em consequência, a educação das elites romanas incluía o estudo do grego, e um romano culto era frequentemente bilingue. Autores como Cícero, Horácio ou Marco Aurélio conheciam profundamente a literatura e a filosofia gregas, e não era raro que intelectuais romanos escrevessem directamente em grego.
Na parte oriental do Império Romano, o grego continuou a ser a principal língua da administração, do comércio e da cultura. Enquanto o latim dominava sobretudo nas províncias ocidentais, o Mediterrâneo oriental permanecia amplamente helenizado.
Esta situação tornou-se ainda mais evidente após a divisão do Império em 395, com a morte de Teodósio. Quando o centro de gravidade político se deslocou para Constantinopla, fundada por Constantino em 330 d.C., o Oriente romano tornou-se progressivamente um Estado de língua grega. Embora os imperadores continuassem, por algum tempo, a utilizar o latim em certos contextos oficiais, o grego afirmava-se cada vez mais como a verdadeira língua do Império Romano do Oriente.
Após o cisma entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente, em 1054, a língua grega passou a estar ainda mais intimamente ligada à tradição cristã no Levante. Enquanto o latim permanecia a língua litúrgica e intelectual da Igreja de Roma, o grego ocupava uma posição semelhante no Oriente cristão. Durante séculos, a cultura bizantina conservou e transmitiu uma parte significativa do legado da Antiguidade grega.
A queda de Constantinopla em 1453 marcou, contudo, uma profunda mudança histórica. O Império Bizantino desapareceu e os territórios gregos passaram a integrar o Império Otomano. O grego perdeu o seu papel como língua de um Estado independente e viu-se privado de grande parte das instituições políticas que o sustentavam. Ainda assim, não desapareceu. A Igreja Ortodoxa desempenhou um papel fundamental na preservação da língua e da identidade grega. Mosteiros, escolas e comunidades religiosas continuaram a transmitir a tradição linguística e literária herdada do período bizantino.
Ao mesmo tempo, no Ocidente, o grego conhecia uma nova forma de prestígio. A chegada de eruditos gregos à Itália, sobretudo após a queda de Constantinopla, contribuiu decisivamente para o Renascimento. O estudo do grego antigo tornou-se parte integrante da formação humanística europeia, permitindo o acesso directo a Homero, Platão, Aristóteles e aos textos do Novo Testamento.
Outra vez a Língua da Grécia
O século XIX trouxe uma nova transformação. A Guerra da Independência Grega, iniciada em 1821, levou à criação de um Estado grego moderno. Com a independência surgiu também uma questão fundamental: qual deveria ser a língua da nova nação?
A resposta estava longe de ser consensual. Por um lado, havia a língua falada pelo povo, conhecida como demótico (δημοτική). Por outro, muitos intelectuais defendiam uma forma mais próxima do grego antigo, forma essa conhecida como catarévussa (καθαρεύουσα), literalmente ‘língua purificada’. Esta última procurava eliminar muitos dos elementos populares considerados erróneos ou estrangeirismos, aproximando-se artificialmente dos modelos antigos.
Durante mais de um século, as duas variedades coexistiram numa situação de diglossia. A catarévussa, língua oficial do Estado, dominava a administração, a legislação, a imprensa e grande parte da educação, enquanto o demótico permanecia como a língua da vida quotidiana. Esta divisão gerou intensos debates políticos, culturais e até ideológicos sobre a identidade da Grécia moderna e a sua relação com o seu passado.
O triunfo do Demótico
A história da Grécia pós-otomana está cheia de convulsões. Durante a Guerra da Independência estabeleceu-se um governo republicano em 1827. Em 1832, as Grandes Potências (Grã-Bretanha, França e Rússia) determinaram que a Grécia se tornaria uma monarquia, subindo então ao trono grego o príncipe Otto da Baviera, que nunca aprendeu grego, recusou-se a converter-se à Igreja Ortodoxa e não teve filhos. Deposto em 1862, foi substituído por Jorge I, até então príncipe Guilherme da Dinamarca. Em 1924, com a derrota perante os turcos, a monarquia foi abolida e instaurou-se a Segunda República, que durou até ao regresso de Jorge II, em 1935.
Entre 1941 e 1944, o rei e o governo estão no exílio devido à ocupação durante a II Guerra Mundial. Após a libertação do país, estala uma guerra civil que termina em 1949 com a vitória dos monárquicos sobre os comunistas.
Em 1967, começa a Ditadura dos Coronéis, que, a princípio, mantém a monarquia, mas depõe o rei em 1973. Com a crise de Chipre em 1974, a junta militar cai, restaura-se a democracia e realiza-se um referendo que opta pela república, sendo a monarquia abolida pela última vez. Em 1981, a Grécia entra na União Europeia, então CEE.
Ao longo da história do Estado grego moderno, o demótico foi gradualmente ganhando terreno, sobretudo entre escritores e jornalistas. Em 1976, depois da restauração da democracia, o grego demótico tornou-se oficialmente a língua do Estado grego, ficando o uso da catarévussa progressivamente restrito a contextos eclesiásticos, jurídicos e mais conservadores.
Poucos anos depois, em 1982, foi introduzida uma importante reforma ortográfica. O tradicional sistema politónico, com vários acentos e sinais diacríticos herdados da Antiguidade, foi reformado: desapareceram os espíritos, o iota subscrito e os múltiplos tipos de acentos, simplificando significativamente a escrita.
Na altura, estas reformas foram controversas, já que os mais puristas as consideraram uma ruptura com a tradição clássica e bizantina.
Por volta de 1975, quando se discutia a adopção do demótico como língua nacional, chegou a propor-se que o alfabeto latino substituísse o grego. A ideia foi abandonada imediatamente, com vários ministros do governo de Konstantinos Karamanlis a ameaçarem demitir-se.
Hoje, o grego continua a ser a língua oficial da Grécia e de Chipre, ambos Estados-membros da União Europeia. Embora o número de falantes seja relativamente modesto –cerca de 10 milhões na Grécia, 900 mil no Chipre e entre 1 e 2 milhões na diáspora–, poucas línguas do mundo podem reivindicar uma história e uma tradição escrita comparáveis, que se estendem por mais de três mil anos. Das tabuinhas micénicas aos poemas homéricos, da filosofia de Platão aos Evangelhos, das tragédias à liturgia bizantina, o grego atravessou impérios, religiões e civilizações, adaptando-se sempre e sem jamais deixar de ser uma língua viva.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



