Se a emergência da koiné está ligada à unificação política da Grécia sob Filipe II, é com o seu filho, Alexandre, que essa língua comum ultrapassa definitivamente as fronteiras do mundo grego. Alexandre Magno não foi apenas um conquistador; foi o principal agente de transformação que fez do grego uma língua internacional, um veículo de comunicação, cultura e administração num espaço que se estendia do Mediterrâneo oriental até às fronteiras da Índia.
Para compreender o alcance desta transformação, é necessário situar Alexandre na longa sucessão de impérios que dominaram o Próximo Oriente. O poder assírio, que durante séculos havia exercido a sua hegemonia sobre a região, deu lugar ao Império Neobabilónico no século VII a.C.; este, por sua vez, foi absorvido pelo Império Persa aqueménida, que, sob Ciro, Dario e Xerxes, se tornou a maior potência do mundo antigo. Foi precisamente este vasto império que Alexandre viria a conquistar em pouco mais de uma década.
Alexandre da Macedónia
Alexandre nasceu em 356 a.C., filho de Filipe II da Macedónia. Educado por Aristóteles, recebeu uma formação que combinava a tradição grega com a visão política do seu pai. Quando sobe ao trono, em 336 a.C., herda não apenas o reino da Macedónia, que então exercia hegemonia sobre grande parte da Hélade, mas também o projecto de expansão para o Oriente, inicialmente concebido como uma campanha contra o Império Persa.
No entanto, aquilo que começou como uma guerra de vingança pelas invasões persas do século V a.C. rapidamente se transforma numa empresa de conquista de proporções inéditas. Alexandre não se limita a derrotar o poder persa; substitui-o, assumindo-se como herdeiro e continuador de uma estrutura imperial que ele próprio redefine.
Alexandre, o Conquistador
A campanha de Alexandre desenrola-se com uma rapidez impressionante. Após atravessar o Helesponto em 334 a.C., derrota os exércitos persas em batalhas decisivas, como Isso (333 a.C.) e Gaugamela (331 a.C.). Em poucos anos, controla a Ásia Menor, o Levante, o Egipto e o coração do Império Persa, incluindo a Babilónia e Persépolis.
No Egipto, é recebido como libertador do domínio persa e funda a cidade de Alexandria, que viria a tornar-se um dos maiores centros culturais e sede da maior e mais famosa biblioteca do mundo antigo. A partir daí, prossegue para oriente, avançando até às regiões da Ásia Central e, finalmente, ao noroeste do subcontinente indiano. A sua campanha termina apenas quando, em 326, o seu exército, exausto, se recusa a prosseguir para além do rio Hífasis (Ὑφάσις /hyphásis/), hoje rio Beas, situado no Punjab, no norte da Índia.
O império de Alexandre não era um conjunto homogéneo de territórios, mas uma vasta rede de regiões diversas, ligadas por uma administração relativamente flexível e por uma política deliberada de integração. O próprio Alexandre adopta elementos da realeza oriental, promovendo uma fusão cultural entre gregos e povos conquistados.
A língua do império
É neste contexto que o grego –na forma da koiné– se afirma como língua comum. A fundação de cidades, muitas delas chamadas Alexandria, a instalação de colonos gregos e macedónios e a necessidade de comunicação administrativa contribuíram para a difusão da língua grega em todo o império.
Importa sublinhar que esta difusão não implicou a substituição imediata das línguas locais. O aramaico, por exemplo, língua administrativa dos impérios anteriores, continuou a ser amplamente utilizado no Próximo Oriente, enquanto no Egipto as várias formas da língua e da escrita egípcia se mantiveram. No entanto, o grego tornou-se a língua da administração, do comércio e, progressivamente, da produção intelectual, passando a ser uma língua de prestígio, associada ao poder, à cultura e à mobilidade social.
Alexandre morre prematuramente em 323 a.C., na Babilónia, com apenas 32 anos. A sua morte abre um período de instabilidade, agravado pelo facto de não deixar um sucessor adulto capaz de assumir o controlo do império. O seu filho, nascido após a sua morte, não chegaria a governar e acabaria por ser assassinado.
Sem uma autoridade central forte, o império é dividido entre os generais de Alexandre, os chamados diádocos. Desta divisão emergem vários reinos helenísticos, entre os quais se destacam o Egipto dos Ptolemeus, a Ásia dos Selêucidas e a Macedónia dos Antigónidas.
Apesar da fragmentação política, há um elemento que permanece: a língua grega. A koiné continua a ser o principal meio de comunicação entre as elites destes reinos, funcionando como um elemento de unidade num mundo política e socialmente dividido.
A importância do grego não diminui com a conquista romana. Pelo contrário, no Mediterrâneo oriental, o grego mantém-se como língua dominante. Mesmo sob domínio romano, continua a ser a língua da cultura, da administração local e a língua franca da vida urbana e dos negócios.
É neste contexto que se desenvolvem alguns dos textos mais influentes da história, incluindo a tradução grega das Escrituras Hebraicas e o Novo Testamento. A koiné torna-se, assim, não apenas uma língua administrativa, mas também uma língua do domínio religioso e de transmissão cultural.
A presença do grego no Mediterrâneo oriental e no Próximo Oriente prolonga-se por séculos, sobrevivendo à queda do Império Romano do Ocidente e persistindo no Império Romano do Oriente –também chamado Império Bizantino. Só com o seu declínio progressivo e, finalmente, com a queda de Constantinopla em 1453, se encerra um ciclo iniciado, em grande medida, pelas conquistas de Alexandre.
Alexandre Magno ocupa, assim, um lugar destacado na história do idioma grego. O seu império foi efémero do ponto de vista político, mas profundamente duradouro no plano cultural. Ao levar a língua grega para além dos seus limites tradicionais, criou as condições para a formação de um espaço cultural comum que marcaria toda a Antiguidade tardia.
A koiné, que já existia como língua comum entre os gregos, torna-se, com Alexandre e os seus sucessores, uma língua verdadeiramente internacional. A sua difusão não foi apenas consequência da conquista, mas também da necessidade de comunicação num mundo cada vez mais interligado.
Assim, mais do que um conquistador, Alexandre foi um agente de transformação cultural. A sua herança não se mede apenas pelos territórios conquistados, mas também pela criação de um mundo em que a língua grega se tornou o meio privilegiado de expressão de uma civilização que ultrapassou, definitivamente, as fronteiras da Grécia.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



