Se quisermos identificar as origens da literatura grega e, em larga medida, da própria tradição literária ocidental, somos inevitavelmente conduzidos a dois nomes: Homero e Hesíodo. A estes dois poetas, situados pela tradição no limiar entre a lenda e a história, atribui-se a fundação não apenas da poesia grega, mas também de muitos dos temas, imagens e concepções que moldariam toda a cultura helénica e a civilização ocidental. A Homero são atribuídas as duas grandes obras basilares da cultura europeia: a Ilíada e a Odisseia, poemas épicos que constituem a certidão de nascimento da literatura grega, uma vez reintroduzida a escrita no mundo helénico por volta do séc. VIII a.C. Estes poemas fazem a ponte entre a Europa e as civilizações antigas do Crescente Fértil, trazendo para o universo cultural clássico a poesia épica que o poema de Gilgamesh inaugurara na Suméria e na Acádia, berços da civilização.
Diz-se de Homero que foi ele quem “inventou os deuses”. Esta hipérbole sugere que é ao poeta que devemos a forma como os deuses viriam a ser conhecidos ao longo da Antiguidade Clássica, não como meras figuras de culto religioso, mas como personagens dotadas de psicologia, de voz e de presença narrativa.
Segundo a tradição, Homero teria sido um poeta cego, oriundo da Jónia, talvez da ilha de Quios, e teria vivido por volta do século VIII a.C. A sua figura, no entanto, está envolta em incertezas e mitos.
Os Poemas Homéricos
A Ilíada tem como pano de fundo a guerra de Tróia, mas o seu foco é muito mais restrito e profundamente humano: centra-se na figura de Aquiles e na sua cólera, que constitui o verdadeiro motor da narrativa. É a ira de Aquiles, desencadeada por um conflito com Agamémnon, que dá origem aos acontecimentos principais do poema, afectando não apenas o herói, mas todo o desenrolar da guerra. A Ilíada é, assim, menos uma epopeia militar e mais uma reflexão sobre a honra, o orgulho, a mortalidade e os limites da condição humana.
A Odisseia, por sua vez, trata do regresso de Ulisses a Ítaca após o fim da guerra de Tróia. Este regresso, designado em grego de νόστος /nóstos/, que se prolonga por dez anos, está repleto de peripécias, encontros com seres fantásticos, provas e tentações que são o objecto da narrativa deste poema épico. [A palavra nostalgia foi cunhada em 1688 pelo suíço Johannes Hofer (1669-1752) na base de nóstos ‘regresso’ e ἄλγος /álgos/ ‘dor’ para descrever o sofrimento causado pelo desejo de regresso à casa dos soldados em tempos de guerra.]. Ao contrário da Ilíada, que se centra num herói egocêntrico dominado pela sua paixão, a Odisseia apresenta-nos um herói definido pela fidelidade familiar, cuja astúcia, resistência, e capacidade de adaptação estão ao serviço do seu desejo de voltar à pátria e aos deveres familiares. De certa forma, Ulisses aproxima-se mais de Heitor, o herói troiano derrotado por Aquiles, que, por sua vez, encarna melhor a figura do anti-herói.
O nome português do poema, Odisseia, deriva do nome original do seu herói em grego Ὀδυσσεύς /odysseús/; já Ulisses, a versão portuguesa de Ὀδυσσεύς deriva do latim Ulixēs, forma usada por Virgílio e Ovídio, mas cuja origem é difícil de explicar. De Ulixes ou Ulisses derivaria, segundo Estrabão, historiador grego da viragem do século I, o nome latino da cidade de Lisboa, ou seja, Ulissipo ou Olissipo, ou mesmo Olixipo. Segundo este historiador, Ulisses teria fundado a cidade de Lisboa ao passar pelo ponto mais extremo do mundo, tal como então era conhecido, no seu longo nóstos para casa. Do acusativo Olissiponem deriva a forma moderna Lisboa, com a queda ou aférese da vogal inicial por estar muito longe do acento tónico. A abreviatura de Lisboa, Lx, recorda ainda hoje o nome latino de Ulisses na sua grafia original romana. A forma erudita Odisseu, derivada directamente do grego, é de criação moderna.
Voltando a Homero, ambos os poemas são compostos numa língua artística artificial –uma Kunstsprache–, frequentemente designada como dialecto épico, às vezes também incorrectamente dito jónico antigo, que combina elementos de diferentes dialectos gregos, sobretudo jónicos e eólicos, e preserva formas arcaicas que já não eram de uso corrente na época em que os poemas foram fixados por escrito. Esta língua, adaptada às exigências do verso hexamétrico, revela uma longa tradição oral, na qual fórmulas fixas e expressões repetitivas desempenham um papel fundamental na composição e na transmissão dos poemas.
É precisamente esta natureza oral e formulaica que está na origem de um dos grandes problemas filológicos associados a Homero. Já na Antiguidade, alguns estudiosos interrogavam-se sobre a autoria dos poemas: dada a disparidade entre os dois, seriam ambos da mesma mão? Teria realmente existido um poeta chamado Homero? Ou seriam estes poemas o resultado de uma longa tradição colectiva, posteriormente fixada sob um nome particular? A diferença entre a Ilíada e a Odisseia é tão patente que levou a tradição a supor um intervalo de cerca de 50 anos entre a composição dos dois poemas.
Estes problemas deram origem, na época moderna, à chamada questão homérica que procura determinar a natureza, a unidade e a composição dos poemas. Hoje em dia, já quase ninguém acredita na existência de um autor individual responsável pela composição integral dos poemas; pelo contrário, considera-se que a Ilíada e a Odisseia são o produto de uma tradição oral progressiva e colectiva, tendo sido apenas mais tarde compiladas e organizadas na forma como as conhecemos hoje.
Hesíodo
Ao lado de Homero, a tradição coloca Hesíodo, um poeta de natureza muito distinta, mas igualmente fundamental. Se Homero é o poeta do mundo heróico, Hesíodo é o poeta do mundo dos deuses e dos homens comuns. A sua obra mais importante, a Teogonia, é uma tentativa de sistematização da genealogia divina: nela narra-se a origem do cosmos e o nascimento dos deuses, desde o Caos primordial até à afirmação do poder de Zeus. A Teogonia desempenha, assim, um papel semelhante ao de Homero na fixação do universo religioso grego, oferecendo uma visão coerente e estruturada do panteão helénico.
A outra grande obra de Hesíodo, os Trabalhos e Dias, apresenta um carácter muito diferente. Trata-se de um poema didáctico, dirigido ao irmão do poeta, no qual se abordam temas como o trabalho agrícola, a justiça, a moralidade e a condição humana. Aqui não encontramos heróis nem grandes feitos épicos, mas sim uma reflexão sobre a vida quotidiana e sobre a necessidade de esforço e de rectidão num mundo marcado pela dificuldade.
Se Homero e Hesíodo diferem profundamente no tom e nos temas, convergem, no entanto, na sua importância cultural. Ambos contribuíram decisivamente para a formação de uma identidade grega comum, fornecendo narrativas, valores e referências que seriam partilhados por comunidades politicamente fragmentadas. Por meio das suas obras, os gregos encontraram não apenas histórias para contar, mas também um modo de compreender o mundo, os deuses e a si próprios.
Homero e Hesíodo ocupam um lugar único na história da literatura: são, ao mesmo tempo, herdeiros de uma tradição oral e fundadores de uma tradição escrita. A sua influência estende-se muito para além da Grécia, atravessando séculos e culturas, e continua a fazer-se sentir até aos nossos dias.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



