Para compreender a génese do alfabeto grego, aquele que pela primeira vez introduziria um sistema de escrita verdadeiramente alfabético, é necessário começar por olhar brevemente para as formas de escrita que o precederam no espaço geocultural que viria a ser ocupado pelos gregos. Como já tivemos a oportunidade de ver, a forma mais antiga de grego escrito de que dispomos é o Linear B, sistema silábico utilizado pela civilização micénica entre os séculos XV e XII a.C. Este sistema, provavelmente herdado e adaptado a partir do Linear A minóico, servia essencialmente fins administrativos e não sobreviveu ao colapso da Idade do Bronze. Com o colapso da civilização palaciana dos micénicos, desaparece também a tradição escrita associada a esse sistema.
Durante os séculos que se seguem, frequentemente designados como Idade das Trevas, a escrita praticamente desaparece do mundo grego continental; apenas no Chipre se mantém uma tradição de escritura silábica, o chamado silabário cipriota, que continuaria a ser utilizado até ao período clássico. Contudo, este sistema permanece geográfica e linguisticamente limitado à variedade diatópica local e não influencia o desenvolvimento posterior da escrita grega.
A Escrita Alfabética Grega
É apenas por volta do século VIII a.C. que surge uma nova forma de escrita grega. Este novo sistema não é uma criação do nada, mas antes o resultado da adaptação de um modelo estrangeiro já existente, o alfabeto fenício ou semítico setentrional. Os fenícios, grandes comerciantes do Mediterrâneo, utilizavam um sistema consonântico, isto é, um sistema de escrita que representava apenas as consoantes. Ao adoptarem dos fenícios este sistema de escrita de tipo abjad, que representa apenas as consoantes, os gregos introduziram uma inovação decisiva: inseriram no sistema sinais específicos para denotar as vogais, transformando assim um sistema consonântico num verdadeiro alfabeto fonético. Pode-se assim dizer que o grego foi o primeiro alfabeto propriamente dito do mundo.
Contudo, esta adopção não se fez de forma uniforme. Tal como sucedia com os dialectos da língua grega, também a escrita passou por uma fase de diversidade regional. Diferentes comunidades adaptaram o modelo fenício de forma distinta, dando origem a vários alfabetos locais, sobretudo quando os sons do grego não se ajustavam aos sons e às respectivas letras da escrita fenícia. A tradição moderna, sobretudo desde o século XIX, agrupou essas variantes em três grandes conjuntos tipológicos, convencionalmente designados por alfabetos azuis, vermelhos e verdes dependendo da forma como representavam alguns sons gregos para os quais o alfabeto fenício não tinha correspondência.
Os chamados alfabetos azuis, ou orientais, estavam associados sobretudo às regiões onde o dialecto jónico era dominante e, mais tarde, também à Ática. Eram utilizados na Ásia Menor e nas ilhas do Egeu. Este sistema seria adoptado mais tarde por Atenas, o que acabaria por torná-lo padrão no mundo grego clássico. Nele encontramos já uma distinção clara entre vogais longas e breves, com o uso do eta η e do ómega ω para as vogais médias longas, ē e ō respectivamente, bem como um conjunto de sinais específicos para certos grupos consonânticos.
Os alfabetos vermelhos, ou ocidentais, eram utilizados na Grécia continental ocidental e, sobretudo, nas colónias gregas do sul da Itália e da Sicília, a chamada Magna Graecia. Estes alfabetos apresentam características diferentes e, como veremos, tiveram uma importância decisiva na história da escrita ocidental, uma vez que foram adoptados pelos etruscos e, através destes, pelos romanos.
Entre estes dois grupos encontramos os alfabetos verdes, ou intermédios, que combinam características dos sistemas orientais e ocidentais. Estes não formam um conjunto homogéneo, mas testemunham precisamente a fase de experimentação e adaptação que caracteriza o período arcaico da escrita grega.
As diferenças entre estes alfabetos tinham sobretudo que ver com sons que não eram contemplados no original fenício e para os quais, aquando da adaptação às necessidades gregas, as diferentes comunidades fizeram escolhas distintas. Um destes casos é o da representação do grupo consonântico /ks/. Nos alfabetos orientais, este som era representado por uma letra específica, Ξ. Já nos alfabetos intermédios (verdes) e em algumas versões dos ocidentais (vermelhos), tal letra não existia, sendo o som grafado como uma sequência de duas consoantes, ΚΣ, ou seja, k+s.
Também significativo é o caso das letras Φ, Χ e Ψ. No sistema jónico-ático, que se tornaria o padrão clássico, estas letras assumem os valores que hoje lhes atribuímos: Φ representa a aspirada /ph/, Χ a aspirada /kh/ e Ψ o grupo consonântico /ps/. Contudo, nos alfabetos ocidentais e verdes, a distribuição destes valores é diferente: Ψ era utilizada para a aspirada /kh/, sendo o grupo /ps/ frequentemente grafado como ΠΣ, ou seja, p+s, enquanto que a letra Χ podia representar em algumas versões dos alfabetos vermelhos o som /ks/. Esta variação mostra claramente que estava ainda em curso o processo de adaptação do sistema herdado dos fenícios às necessidades fonológicas das várias comunidades gregas.
Estas diferenças tornam-se ainda mais relevantes quando consideramos a transmissão do alfabeto grego para outras culturas. Os etruscos adoptaram uma forma do alfabeto grego ocidental e, ao fazê-lo, herdaram também os seus valores fonéticos. Foi através do alfabeto etrusco que os romanos desenvolveram o alfabeto latino, que ainda hoje utilizamos. Assim, o valor /ks/ da letra X do alfabeto latino deve-se ao uso que dela faziam os gregos ocidentais aos quais os etruscos foram buscar o seu alfabeto.
A diversidade dos alfabetos gregos arcaicos reflecte, assim, a mesma fragmentação que encontramos ao nível político e linguístico. Tal como não havia uma única Grécia, mas uma multiplicidade de póleis, também não havia um único alfabeto, mas uma série de sistemas locais em competição.
Esta situação começa a alterar-se no final do século V a.C. Em 403/402 a.C., após a restauração da democracia, Atenas adopta oficialmente o alfabeto jónico, abandonando a sua variante local. Dado o prestígio cultural e político de Atenas, esta decisão teve um impacto profundo, levando à difusão progressiva deste sistema por todo o mundo grego. É este alfabeto jónico que está na base do alfabeto grego clássico e, em última análise, do alfabeto grego que conhecemos hoje.
Não deixa de ser significativo que o alfabeto que se impõe no mundo grego seja precisamente o jónico, isto é, o mesmo grupo dialectal de que deriva o ático e, mais tarde, a koiné. A difusão desta variedade linguística no período helenístico contribuiu decisivamente para a consolidação desse modelo gráfico, criando pela primeira vez uma correspondência efectiva entre unidade linguística e unidade de escrita no espaço grego, às quais se junta a unidade política.
O alfabeto grego deriva de um processo complexo de adaptação, variação e selecção. A sua evolução reflecte não apenas as necessidades linguísticas dos gregos, mas também a sua história cultural e política. Da diversidade dos alfabetos arcaicos à unificação em torno do modelo jónico, o percurso do alfabeto grego acompanha, de forma exemplar, a passagem de um mundo fragmentado para uma cultura cada vez mais consciente da sua unidade.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas



