Para além da língua, o outro elemento que agregava os gregos à volta da sua identidade helénica eram os deuses. Os gregos eram politeístas e o seu panteão era composto por tantos deuses, que não é possível determinar o seu número exacto. Para além dos deuses mais importantes – os que todos nós conhecemos – existiam deidades de carácter regional e outras que os gregos adoptavam nas regiões onde estabeleciam colónias.

A Origem dos Deuses

Já na Grécia Antiga se costumava dizer que Homero fora quem inventara os deuses ainda que tenha sido um outro poeta, Hesíodo, quem escreveu a Teogonia, poema que trata da origem dos deuses. Ao contrário do que acontece nas mitologias do Oriente Próximo, entre as quais se encontra o mito da criação do mundo em sete dias que abre o livro do Génesis, a Terra não é criada pelos deuses, é a Terra, chamada Gaia, que, com Urano, o Céu, cria os Titânides, que viriam a ser os pais dos deuses.

Os mitos que contam as origens das várias divindades gregas contêm variações significativas, em alguns casos totalmente contraditórias.

Os principais deuses gregos eram Zeus, o Júpiter dos romanos, o rei dos deuses e, em princípio, garante da justiça, a sua esposa era Hera, em Roma Juno, deusa protectora do casamento, da família, e da maternidade e que era frequentemente traída pelo marido, Poseidon e Hades, ou Neptuno e Plutão, para os romanos, ambos irmãos de Zeus, o primeiro, o deus dos mares e o segundo o deus do reino dos mortos.

Para além destes deuses, são assaz famosas as filhas de Zeus, Atena, Ártemis e talvez também Afrodite, resultado das infidelidades de Zeus.

Comecemos por Atena, a protectora de Atenas, berço da democracia e capital das artes. Embora a padroeira da Universidade de Coimbra, nossa primeira alma mater, seja a Imaculada Conceição, é Atena, com o mocho que a simboliza, que aparece no selo da Universidade. Para os romanos Atena é Minerva, filha de Zeus e da titânide Métis, primeira esposa de Zeus, deusa da prudência, da inteligência e da astúcia.

Segundo uma profecia, Métis daria à luz dois filhos, uma filha, sábia e poderosa, e um filho, que seria mais forte que Zeus e que o viria a destronar. Zeus tornara-se o rei dos deuses ao depor o titânide Cronos que, por sua vez, derrotara Urano, o pai de todos os titânides e deuses. Ao saber que Métis estava grávida, com medo de sofrer o mesmo destino dos seus predecessores, decidiu engolir Métis viva, acreditando que assim não só impediria o nascimento do filho que, segundo a profecia, o destruiria como absorveria a sabedoria e a inteligência de Métis. De facto, esta, ao ser engolida, não morreu, continuou a aconselhá-lo viva dentro de Zeus.

Algum tempo depois da exótica refeição, Zeus começou a ter dores de cabeça insuportáveis e Hefesto, o deus dos vulcões, abriu-lhe a cabeça com uma machadada e eis que, já adulta, a deusa Atena sai da cabeça de Zeus totalmente armada de couraça, elmo, escudo e lança. Atena, a Minerva dos latinos, é a deusa tanto da sabedoria como da guerra, pois tendo nascido da cabeça de Zeus, simboliza o bom governo que necessariamente associa a guerra às decisões inteligentes, algo hoje em dia em grande falta.

Em algumas versões do mito, o nome da mãe de Atena não é mencionado, mas o alcance das diferenças entre os mitos teogónicos é mais claro no caso de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, a nossa deusa Vénus, de cujo nome nós derivamos a expressão doenças venéreas, ou seja, doenças do amor (nome com muito mais pedigree que o tecnicismo moderno doenças sexualmente transmissíveis). A tradição oferece duas versões diferentes do nascimento de Afrodite. A primeira versão vem da Teogonia de Hesíodo segundo a qual Afrodite nasce da espuma do mar. Cronos, ao derrotar Urano, seu pai, corta os órgãos genitais deste e atira-os ao mar; da espuma, em grego ἀφρός /aphrós/, que o seu esperma cria nas ondas, gera-se Afrodite. Já segundo Homero, Afrodite é produto de uma das muitas aventuras amorosas de Zeus, neste caso com Dione, titânide filha de Urano e Gaia.

A Ira de Hera

Hera não tem outro remédio senão aceitar as muitas infidelidades de Zeus, pois este, ao ser o rei dos deuses, faz o que bem lhe apetece. No entanto, o alvo dos desejos de Zeus são também o alvo da ira da sua esposa.

Os gémeos Ártemis e Apolo são filhos de Zeus, desta vez com Leto, outra titânide. Quando Hera descobre que Leto estava grávida de Zeus decide vingar-se proibindo qualquer terra firme de a receber para o parto. Como se tal não bastasse, envia a serpente Píton para a perseguir e tentar matar. Leto vai de terra em terra, mas não consegue guarida. Exausta e a ponto de dar à luz, Zeus decide finalmente intervir; promete a Delos, uma pequena ilha rochosa que, segundo o mito, vagueava sobre o mar, que a tornará sagrada e gloriosa se esta receber Leto para o parto dos seus filhos. Delos aceita acolher a titânide, pois ao não ser terra firme, não desobedecia à proibição de Hera.

Ártemis nasce primeiro e ajuda a mãe a dar à luz o irmão, tornando-se assim protectora das grávidas e dos recém-nascidos. Ártemis ficará conhecida em Roma como Diana, a deusa da caça e da natureza, enquanto que Apolo, seu irmão gémeo, é um dos poucos deuses que mantém em latim o mesmo nome que em grego.

Zeus não se limitava a confraternizar com deusas e titânides; de vez em quando também se deixava enamorar por mortais. Foi o que aconteceu quando Zeus viu pela primeira vez a jovem princesa Semele, filha do rei Cadmo de Tebas; apaixona-se por ela e, disfarçado de mortal, como muitas vezes fazia, inicia uma relação amorosa com a mortal em segredo. Semele, que sabe que o seu amante é Zeus, apesar de nunca o ter visto em forma divina, fica grávida. Hera descobre a relação e, disfarçada ela também de mortal, faz com que Semele duvide que o amante seja de facto Zeus. Persuadida por Hera a pedir a Zeus que este se revele na sua forma deífica, consegue que Zeus lhe prometa conceder um desejo. Quando esta exige que ele se mostre em toda a sua glória e esplendor divino, este não pode recusar o que prometera e, ao manifestar o seu poder divino com raios e fogo, a mortal Semele é consumida pelas chamas. Ao ver que o filho ainda não pode sobreviver fora do ventre materno, Zeus retira o feto de Semele e cose-o à coxa da sua perna. Uma vez finalizado o período da gestação, o deus Dionísio nasce da coxa de Zeus. Para escondê-lo de Hera, Dioniso, o deus duas-vezes-nascido – uma vez da barriga da mãe e outra da coxa do pai -, o único deus de gestação masculina, é educado na Trácia por ninfas, às vezes disfarçado de rapariga. É durante esse período que descobre a uva e aprende a fazer vinho, desenvolvendo assim o poder de alterar a consciência. Dionísio, o Baco dos romanos, é uma das divindades mais complexas do panteão clássico, responsável pelo vinho, o êxtase, o teatro, a loucura, a fertilidade, a libertinagem sexual, a devassidão e até a antropofagia.

Ao lado da língua, a religião, que se manifestava sobretudo no facto de terem os mesmos deuses, é o outro elemento aglutinador que define a identidade helénica das gentes gregas que se dispersavam geográfica e politicamente pelo Mediterrâneo central e oriental. Esse sentido de helenicidade tornava-se efectivo em certos momentos e eventos, como veremos na próxima vez.

* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas