É inevitável que ao olharmos para a realidade do mundo, seja ela de que natureza for, que o façamos à luz do nosso universo de referências e, como tal, imprimamos à nossa leitura elementos da nossa própria realidade. Tal como na Idade Média as iluminuras dos manuscritos ou as pinturas murais que decoravam as igrejas retratavam cenas da narrativa bíblica segundo os cânones artísticos da época –o templo de Jerusalém em arquitectura gótica ou as personagens bíblicas trajadas à moda medieval europeia, por exemplo– também nós, ao olharmos para o mundo antigo, apesar de todo o nosso conhecimento, temos a tendência de lê-lo, pelo menos parcialmente, à luz da realidade dos nossos dias. Assim, quando confrontados com o termo Grécia Antiga podemos ser levados a pensar, de forma quase inconsciente, que a Grécia teria sido um país no sentido hodierno da palavra. Não obstante, até à conquista da Grécia por Filipe II da Macedónia (382–336 a.C.), pai de Alexandre Magno (356–323 a.C.), em 338 a.C., aquilo a que costumamos chamar Grécia Antiga era constituída por uma série de cidades-Estados independentes, em grego πόλεις /póleis/, cujos tipos de governo iam da monarquia à diarquia ou da ditadura à democracia.

O próprio espaço geopolítico ocupado por essa Grécia feita de vários Estados não se confinava à geografia da Grécia que hoje conhecemos. Para além do espaço continental, os gregos ocupavam a costa ocidental da Anatólia, hoje Turquia, as ilhas gregas do Mar Egeu, o Chipre e Creta, a Sicília e o sul da Península Itálica, região que viria a ser conhecida em latim como a Magna Graecia, onde os romanos entraram em contacto pela primeira vez com aquela civilização que os viria a conquistar culturalmente.

Entre as cidades-Estados mais importantes estão Atenas, baluarte da cultura e da arte, conhecida como a mãe da democracia, Esparta, sociedade oligárquica altamente militarizada, governada por dois reis (arcontes), Tebas, na região da Beócia, famosa pelo seu mítico rei Édipo, Corinto, cidade rica graças ao seu poder comercial, Argos, grande rival de Esparta no Peloponeso, e Siracusa, na Sicília, uma monarquia ditatorial onde o nosso conceito de tirania começou a ser forjado.

Dialectos e outras formas de falar

Associado a estes grandes centros urbanos, está um determinado subtipo de cultura helénica e, quase sempre, uma variedade diatópica ou dialectal da língua grega. Os dialectos mais importantes do grego antigo são o Jónico, falado na Eubeia, nas ilhas do Egeu e na costa sudoeste da Anatólia, o Dórico, falado na península do Peloponeso, em Creta, nas ilhas gregas do sul do Egeu, na Magna Graecia e na Sicília, o Eólio, falado na Tessália, na Beócia, em Lesbos e na costa noroeste da Anatólia, e o Arcado-Cipriota, falado na Arcádia, a zona central do Peloponeso, e no Chipre.

Na zona noroeste da Grécia continental falava-se uma variedade de Dórico, chamado Grego do Noroeste e na Ática, onde se encontrava Atenas, falava-se o Ático, subdialecto do Jónico.

O facto de que no espaço sociocultural ocupado pelos gregos coexistissem diferentes falares de forma alguma põe em causa a integridade do idioma grego; a diversidade interna, não só do grego, mas de qualquer língua natural, não é mais do que o reflexo da pluralidade cultural dos povos que as falam. Nenhuma língua é totalmente uniforme e estática, se o fosse, exercícios como a poesia ou outras formas de literatura, ou mesmo usos particulares da linguagem oral, como a comédia ou o sarcasmo –a simples anedota brejeira– seriam praticamente impossíveis pois é o carácter multiforme da língua que lhe dá a plasticidade que a torna moldável às necessidades comunicativas ou artísticas de cada momento. Se assim não fosse, as línguas naturais não se diferenciariam da matemática, que é uma linguagem meramente formal, abstracta e vazia de conteúdos próprios. Tal como o grego, também o português goza de diversidade interna. Para além das diferentes variedades portuguesas faladas fora do território nacional, aquém-mar o português não é menos vário na sua natureza. Todos falamos diferente. Nas diferentes regiões de Portugal temos aquilo a que normalmente se chamam pronúncias. Estas não são mais do que formas locais de actualizar o português na sua vertente oral. Apesar destas diferenças regionais, que, note-se, não se esgotam na pronunciação, como reflecte Leite de Vasconcelos, pai da dialectologia portuguesa e autor que dá a conhecer ao mundo o dialecto mirandês, um português do Sul e um do Norte, expressando-se nas suas variedades locais do português, não teriam dificuldade alguma em se entender, algo que na altura em que o autor escrevia não aconteceria em países como a Itália ou a Alemanha onde as variações regionais eram, e em alguns casos ainda são, muitíssimo profundas.

Ao falarmos não actualizamos apenas a variedade regional da nossa língua, adaptamos também a nossa forma de falar ao ambiente em que nos encontramos; não falamos da mesma maneira na cozinha ao pequeno-almoço como o fazemos no tribunal em frente do juiz ou na Sexta à noite enquanto tomamos um copo com os amigos. Outra variação deve-se ao estatuto social dos falantes; uma pessoa com pouca escolaridade, por exemplo, em princípio não falará com a mesma proficiência que uma pessoa com formação académica, embora hoje em dia esta premissa seja algo mais ténue que noutros tempos.

Uma outra variação de que qualquer língua sofre é a questão cronológica, hoje não falamos da mesma maneira que no século XIX, nem um jovem fala da mesma forma que uma pessoa de certa idade; o hiato geracional faz-se sentir também na forma como se fala.

Todas essas variações no uso da língua, que linguistas e filólogos denominam de diatópica, diafásica, diastrática e diacrónica, respectivamente, funcionam de forma dinâmica, ou seja, região, contexto, classe social, idade moldam todas ao mesmo tempo o modo como cada um de nós usa a língua, sem, no entanto, pôr em causa o facto de que falamos todos o mesmo idioma, daí que, em princípio, tais variações não comprometam o acto comunicativo. No caso particular das línguas modernas, a escolaridade, os meios de comunicação social e o facto de que o desenvolvimento reduziu as distâncias funcionam como elementos niveladores das diferenças. Isto faz com que sejamos menos sensíveis a diferenças na produção linguística, que muitas vezes vêm mascaradas como opções de estilo pessoal.

O mesmo se passava com o grego, mas no caso da Grécia Antiga, ao ser esta um Estado não unitário, como é Portugal, a língua desempenhava um papel mais importante no que se refere à identidade helénica dos gregos; a língua constituía um dos dois elementos que definiam para os próprios gregos o que era ser grego. Como veremos na próxima vez, apesar da divisão geopolítica que caracterizava a nação grega, e que muitas vezes levou a conflitos entre diferentes póleis, os gregos tinham um entendimento da sua identidade que os agregava e que os opunha a forças externas, ou seja, aos bárbaros, palavra que usavam para definir aqueles que não falavam grego.

* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), filólogo especialista em línguas antigas