ROBERTO CEOLIN*
Na semana passada, vimos, de forma sumária, alguns dos interrogantes linguísticos relacionados com a narrativa do nascimento de Jesus. Obviamente, os problemas deste episódio começam, não na linguagem, mas no facto de uma mulher quase a dar à luz ter empreendido uma tal viagem.
Vimos também que os problemas linguísticos poderiam ser causados pelo facto de o grego koinê, ou comum, ter sido usado como língua franca na zona oriental do Império, o que podia comprometer a sua qualidade.
Ora, quando se diz que o Novo Testamento foi escrito originalmente em grego, é necessário precisar acerca de qual grego estamos a falar, já que, como em todas as línguas naturais, também o grego tinha variantes, e muitas! Vejamos as principais.
As origens
A história do grego começa com pequenas tabuinhas de barro, que apenas resistiram ao tempo, graças aos incêndios que destruíram as civilizações que as escreveram. Esse fogo destruidor, ao cozer o barro cru das tabuinhas, preservou-as intactas para nós, três mil anos mais tarde.
Essas tabuinhas de barro estão escritas num sistema que se veio a denominar Linear B. O Linear B não serve para escrever poesia ou filosofia grega, apenas para burocracia. As tabuinhas contêm, na sua maior parte, registos administrativos de produção, inventários de gado, listas de pessoal e de bens comprados e armazenados nas despensas dos palácios dos reis locais ou anaxes.
Foi no ano de 1900, durante escavações no palácio de Cnossos, na ilha de Creta, que estas tabuinhas foram trazidas de novo à luz do dia. Estiveram sepultadas ali, sem serem perturbadas, desde a queda da Idade do Bronze, por volta de 1200 a.C. Mas mesmo depois de acordadas do seu longo sono, mantiveram-se silentes até 1952, ano em que Michael Ventris, um arquitecto inglês com pretensões filológicas, e John Chadwick, um filólogo clássico, foram finalmente capazes de decifrar o seu sistema de escrita. A decifração do Linear B é um marco significativo na história da língua grega, pois antecipa para o segundo milénio a.C. os primeiros testemunhos da língua grega escrita, apesar de, a princípio, não se ter pensado que a língua das tabuinhas fosse o grego.
O Linear B é um sistema de escrita silábico que apenas denota sílabas abertas. Assim, a palavra grega ἄναξ /ánax/, que então era usada para ‘rei’, escrevia-se 𐀷𐀙𐀏 wa-na-ka, enquanto a palavra βασιλεύς /basileús/, que no grego clássico significa ‘rei’, mas em micénico refere-se a um líder local, nas tabuinhas aparece como 𐀣𐀯𐀩𐀄 qa-si-re-u.
Este sistema de escrita foi denominado Linear B porque também existe um Linear A, sistema que terá sido usado entre 1800 e 1450 a.C. pela civilização minóica. Juntamente com os lineares A e B foram encontradas também inscrições naquilo que ficou conhecido como escrita hieroglífica cretense e que é claramente de carácter pictográfico.
Ao contrário do Linear B, tanto a escrita hieroglífica cretense como o Linear A ainda não foram decifrados, não sendo assim possível determinar se a língua que se esconde sob estes sinais enigmáticos é indo-europeia, semítica ou de outra família.
Para além dos 87 signos silábicos que compõem o Linear B, existem também ideogramas para coisas como azeite, vinho, cavalos, armas, entre outros produtos inventariados nas tabuinhas. Muitos desses ideogramas e também alguns dos signos silábicos do Linear B são comuns ao Linear A, que parece ter entre 70 e 90 signos silábicos distintos. As semelhanças gráficas entre os dois lineares podem sugerir que as línguas escritas por esses dois sistemas possam ser estruturalmente semelhantes, mas, até que o Linear A seja decifrado, é impossível saber com certeza. O que sim podemos constatar é que ambos os sistemas são mistos, ou seja, combinam sinais silábicos, ideogramas e numerais.
O Linear B serviu de escrita à civilização micénica, cujo nome derivamos do palácio de Micenas, um dos seus mais importantes. Esta civilização desenvolveu-se na Grécia continental entre 1600 e 1200 a.C. Tal como a civilização minóica, também esta estava centrada em palácios onde viviam os anaxes, ou reis locais, e dedicava-se ao comércio marítimo no Egeu. Era uma sociedade altamente aristocrática e militar que, ao contrário dos minóicos, cercava os seus centros urbanos com muralhas. Muitos aspectos da sociedade micénica são reconhecíveis nos poemas homéricos. Terá colapsado, como muitas outras civilizações da zona oriental do Mediterrâneo, como o Império Hitita ou as antiquíssimas cidades do Levante, por volta de 1200 a.C., com o fim da Idade do Bronze, quando os palácios micénicos foram abandonados ou incendiados.
Para além dos seus palácios e do Linear B, os micénicos deixaram para trás túmulos monumentais.
Já o Linear A, escrita que antecede cronologicamente e que terá influenciado o Linear B, serviu de sistema de escrita à civilização minóica que se desenvolveu em Creta entre 2000 e 1450 a.C. Tratava-se de uma sociedade palaciana, menos militarizada do que a que a viria a suceder, e muitas vezes descrita como uma talassocracia, ou seja, cujo poder estava alicerçado no comércio marítimo. Era na zona do Egeu e, sobretudo, com o Egipto, de onde sofre grande influência, especialmente no âmbito artístico, que os minóicos se dedicavam ao comércio marítimo.
Por volta de 1450 a.C., os palácios minóicos entram em declínio, e sinais da presença micénica, que dominava até então a Grécia continental, tornam-se evidentes. O declínio e o desaparecimento da civilização minóica permanecem um mistério. Destacam-se entre as possíveis causas a erupção do Tera, por volta de 1600 a.C., que soterrou as populações de Acrotiri em Santorini e terá causado uma série de tsunamis, com consequências graves na actividade marítima comercial de então. Fosse por decadência interna progressiva, fosse por conquista militar micénica, o facto é que, por volta de 1450 a.C., ocorre a destruição dos grandes palácios minóicos, como o de Cnossos, o que marca o fim dessa antiga civilização que nós hoje baptizamos de minóica a partir do nome do mítico rei Minos.
O facto de que o Linear A e a escrita hieroglífica cretense permaneçam indecifrados impede-nos de saber qual a natureza da língua falada pelos minóicos –se semítica, se indo-europeia–, o que impede a possibilidade de conhecermos as suas origens étnicas.
O palácio de Cnossos, com os seus corredores labirínticos e frescos vibrantes com motivos naturalistas, marinhos e de tauromaquia, tornou-se símbolo por excelência dessa civilização enigmática, mais voltada para o Mediterrâneo oriental do que para a Grécia, e é precisamente nesse palácio monumental que, em 1900, o arqueólogo inglês Arthur Evans descobriu as tabuinhas de barro com essas escritas até então desconhecidas, que Evans denominou Linear A e Linear B.
Quando por volta de 1200 a.C., com o fim da Idade do Bronze, cai a civilização micénica que, de certa forma, substitui a minóica, começa aquilo que tradicionalmente se denomina a Idade das Trevas. Ou talvez não; mas isso veremos na próxima semana, se Deus quiser.
* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), Filólogo especialista em línguas antigas



