Jorge A. H. Rangel*
Jorge A. H. Rangel*

“Uma figura maior da engenharia portuguesa, bem como da vida académica e das instituições científicas nacionais.”

 

Professor universitário, com altos serviços prestados ao ensino superior, a academias científicas e à engenharia portuguesa, Eduardo Romano de Arantes e Oliveira deixou-nos definitivamente na semana passada (24 de Julho), com quase 93 anos de idade. Algumas universidades e outras entidades académicas referiram, em breves comunicados, alguns momentos relevantes do seu percurso, mas muito pouco foi mencionado sobre as relações antigas que ele desenvolveu com Macau, desde o mandato do Governador José Eduardo Garcia Leandro (1974-1979), o primeiro dos seis com quem trabalhei no território, no desempenho de cargos públicos.

Pude acompanhar de perto toda a colaboração prestada por aquele ilustre académico, que recordo com saudade, muita consideração, estima e amizade, consolidadas pelas longas conversas que mantivemos ao longo dos anos e pela forma como me recebeu no seio da sua família e nas instituições que liderou. É justo lembrar as relações muito positivas que ele quis ter com instituições locais, no âmbito das suas responsabilidades governativas e como académico, investigador e eficaz dinamizador de encontros científicos.

 

Um notabilíssimo percurso

Eduardo Romano de Arantes e Oliveira nasceu em Lisboa em Novembro de 1933. Formou-se em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico em 1956 e ingressou no Laboratório Nacional de Engenharia Civil em 1960, onde lhe foi atribuído o título de especialista em 1965. A partir de 1966, fez estudos pós-graduados no MIT – Massachusetts Institute of Technology, uma das mais prestigiadas escolas de Engenharia, Ciência e Tecnologia dos Estados Unidos da América e do Mundo. No desenvolvimento da sua carreira académica, chegou a professor catedrático do Instituto Superior Técnico, tendo sido vice-reitor (1972-1977) e reitor (1977-1985) da então Universidade Técnica de Lisboa.

 

Integrou o Governo da República Portuguesa, como Secretário de Estado: do Ensino Superior (1978-1979), da Investigação Científica (1985-1987) e da Ciência e Tecnologia (1987-1988). Assumiu depois as funções de director do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (1991-1998) e presidente da Academia das Ciências (2007, 2009 e 2011), de que foi também membro emérito, recebendo idênticas distinções da Academia Real das Ciências da Bélgica e da Academia do Reino de Marrocos. Também presidiu à Academia de Marinha, ao Conselho Científico das Ciências de Engenharia do Instituto Nacional de Investigação Científica e ao Conselho Geral da Universidade Nova de Lisboa.

 

Recebeu elevadas condecorações, como a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (Portugal, 2001), a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Civil (Espanha, 1989) e o grau de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra (França, 2019). E foi Doutor “honoris causa” pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, pela Universidade de Liége, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Universidade da Ásia Oriental (Macau). Em reconhecimento do seu mérito académico e científico, tornou-se conselheiro do director-geral da UNESCO, Frederico Mayor, numa fase de grande crescimento desta organização internacional vocacionada para a Educação, a Ciência e a Cultura.

 

Eduardo Romano de Arantes e Oliveira foi filho, sobrinho e neto de militares, alguns dos quais foram oficiais generais. O pai, que também se chamou Eduardo de Arantes e Oliveira (1907-1982), foi engenheiro militar, formado na Escola do Exército, onde foi depois professor. Personalidade destacada na vigência do Estado Novo, dirigiu o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, presidiu ao Conselho Superior do Fomento Ultramarino e foi Ministro das Obras Públicas de 1954 a 1967, coordenando e impulsionando a realização de grandes obras levadas a efeito nesse período da vida nacional.

 

Pela óbvia influência que exerceu nas opções académicas de Eduardo Romano de Arantes e Oliveira, como ele próprio muitas vezes reconheceu, pareceu-me apropriado referir o papel determinante do seu muito respeitado progenitor, que também foi Governador-Geral de Moçambique (1970-1972), deputado à Assembleia Nacional em quatro legislaturas e, ainda jovem, chefe do Serviço de Urbanização da Câmara Municipal de Lisboa, num tempo em que se planearam e construíram grandes bairros habitacionais na cidade.

 

A cooperação com Macau

Foram várias as áreas e situações em que Eduardo Romano de Arantes e Oliveira ofereceu valiosa e continuada colaboração a Macau, a qual foi iniciada com um convite que lhe foi dirigido pelo Governador José Eduardo Garcia Leandro para representar o território num importante encontro da Associação Científica do Pacífico, a que ele correspondeu pronta e positivamente, ficando para sempre ligado ao território. Num dos meus despachos semanais com o Governador, quando dirigia o serviço público responsável pela promoção turística e pelas relações com a comunicação social (o então Centro de Informação e Turismo que foi, pouco depois, reestruturado, subdividindo-se em Direcção dos Serviços de Turismo e Gabinete de Comunicação Social), tomei conhecimento da carta daquela associação científica e do programa do encontro.

Estando já a ser equacionada a criação duma universidade no território, foi entendido que todas as oportunidades para a afirmação de Macau deviam ser plenamente aproveitadas, após a aprovação e publicação, em Fevereiro de 1976, do Estatuto Orgânico, que lhe garantiu estabilidade, continuidade e desenvolvimento, depois de um período de dúvidas e incertezas (na sequência da revolução de Abril de 1974), que Garcia Leandro, com serenidade, sageza e determinação, soube enfrentar e, em larga medida, fazer dissipar. A competência, o prestígio e a disponibilidade daquele catedrático recomendava o seu envolvimento em projectos futuros que eram do maior interesse para o crescimento de Macau, com a autonomia administrativa e financeira que o Estatuto Orgânico, aprovado como Lei Constitucional, lhe assegurara.

 

As outras áreas em que pudemos contar com a sua colaboração foram o apoio ao desenvolvimento do ensino superior, quer como responsável pela gestão da Universidade Técnica de Lisboa, quer como membro do Governo da República, quando integrei o Executivo do Contra-Almirante Vasco de Almeida e Costa (1981 a 1986) e tutelei as áreas da Educação, Cultura e Turismo. E depois, na qualidade de presidente da Fundação Macau, na dependência directa do Governador Carlos Montez Melancia (1987-1990), quando fui incumbido de proceder a uma profunda transformação da Universidade da Ásia Oriental, de natureza privada e em funcionamento desde 1981, coordenando o grupo de trabalho que efectuou a sua conversão numa instituição pública (Universidade de Macau), ao mesmo tempo que presidi à comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, onde também fui professor.

 

Merece igualmente menção a colaboração que Macau recebeu do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que Arantes e Oliveira dirigiu na década final da Administração Portuguesa de Macau, e sobretudo a sua iniciativa pioneira de, com grande eficácia e consequência, lançar em Macau e com a participação de instituições científicas portuguesas e chinesas os Encontros EPMESC, que deram oportunidades de valorização e convívio académico e científico a dezenas de jovens investigadores que, ano após ano, se encontraram em Macau e em cidades chinesas para debaterem, apresentarem comunicações e revelarem os seus estudos sobre temas relacionados com os Métodos Computacionais em Engenharia.

 

Antes de Mariano Gago, o ministro português que mais atenção dedicou ao desenvolvimento da cooperação científica entre Portugal e a China, e com quem mantive estreitas relações durante o mandato do Governador Vasco Rocha Vieira (1991-1999), como Secretário para a Administração Pública, Educação e Juventude, foi Eduardo Romano de Arantes e Oliveira o verdadeiro responsável pelo lançamento e consolidação dessa relevantíssima cooperação.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.