O longo fascínio pela China tem-nos legado uma literatura riquíssima de sentidos, onde a arte, a religião e a espiritualidade, a filosofia e a educação reorganizaram o modo de pensar e uma interculturalidade que na sua raiz é um projecto vital. Vital porque está nos limites da utopia. O Ocidente e o Oriente interpenetram-se e protagonizam desencontros culturais, religiosos, científicos e tecnológicos, numa mesmidade situada e essencial.
Álvaro Semedo [1585-1658], alentejano de Nisa, é o clássico fundador da sinologia portuguesa e a sua obra Relação da Grande Monarquia da China transformou-se rapidamente numa referência internacional.
Mais de dois séculos volvidos, em 1956, em Macau, foi a Relação da Grande Monarquia da China pela primeira vez integralmente publicada na língua portuguesa, mercê do interesse e do labor de Luís Gonzaga Gomes [1907-1976], um dos grandes sinólogos portugueses contemporâneos.
A extraordinária difusão internacional desta obra, resultante de mais de duas décadas de errâncias chinesas, aliadas ao estudo e aos contactos pessoais, deve-se essencialmente à seriedade e ao rigor com que o Celeste Império é descrito e analisado, não obstante, aqui e além, ser indisfarçável a presença de uma ética cristã e de uma pedagogia moralizadora.
Para além do mais, introduz o Curso Conimbricense e a sua respectiva metodologia filosófica na China. E na história da sinologia é feita essa justiça a Álvaro Semedo que, embora tivesse estudado em Évora e em Goa, se pode classificar como um espírito estrangeirado.
A sinologia inscreve-se na filosofia e na filosofia da educação comparada, desde os alvores do século XIX, com o labor dos jesuítas e, depois, com uma indesmentível feição neotomista acentuada pelo magistério de Francisco Rondina [1827-1897], sem esquecer, também, a importante vertente burocrática, política, jurídica e diplomática da Procuratura dos Negócios Sínicos, da Repartição do Expediente Sínico e da Direcção de Serviços dos Assuntos Chineses. O esforço de compreensão poderia, no limite, apontar à salvação do outro, como o homo viator, pensado por Gabriel Marcel [1889-1973].
Pedro Nolasco da Silva [1842-1912], Manuel da Silva Mendes [1867-1931], oriundo do movimento anarquista e dos combates pela instauração da república, Luís Gonzaga Gomes [1907-1976] e Joaquim Guerra [1908-1993] serão, porventura, os autores mais representativos da difusão do universo axiológico neoconfuciano e neotaoísta na cultura portuguesa, cuja recepção está ainda por fazer.
Todos foram mestres sem discípulos, num porfiado e solitário trabalho individual de fecunda exegese, de traduções e versões ou de labor histórico, lexicográfico e de criação literária. Jamais foi possível, por motivos políticos e administrativos, um enquadramento institucional que permitisse a criação da escola sinológica portuguesa. Assim, a sinologia portuguesa foi sempre uma solitária aventura individual. Sempre a começar de novo. Sempre em perpétuo esquecimento. Ontem como hoje.
De resto, Macau parecia viver uma conspiração de infelicidade. Nas Cortes Constituintes, de 1821, o deputado Manuel Borges Carneiro propõe, com alguma insistência, que os espanhóis tomem posse de Macau por troca com a Galiza. Nada se concretizou, mas fica o registo da menoridade da inteligência por tamanho legado histórico.
A sinologia lega-nos uma reflexão crítica sobre um sistema codificado de preceitos sobre a problemática da piedade filial, sobre a compaixão, sobre a filantropia, sobre a sabedoria, sobre o corpo, sobre a hierarquia social, sobre o outro, sobre o amor, sobre o estudo, sobre a política ou sobre o culto dos antepassados.
Problemáticas, convenhamos, pouco sensibilizantes ao materialismo dominante numa sociedade técnica e dominada pela instrumentalidade. Para não falar da suspeição que impende sobre tudo quanto é exterior aos alicerces gregos da filosofia e do filosofar. Contudo, a sua instalação ôntica no ser traz novas formas de agir que se aprofundam na descontinuidade da condição humana.
Muito esquematicamente, poderemos fixar a genealogia da macaulogia e da sinologia portuguesas em quatro linhas de força [clássica, histórico-cultural, erudita e literária] que ganharam vida a partir desse microcosmos que é Macau, com estéticas, hermenêuticas, ideologias e filosofias interdependentes, mantendo em comum apenas o modus cogitandi típico dos valores cosmopolitas da erudita latinidade orientalizada.
O peso da linha histórico-cultural, quiçá excessivo, resulta essencialmente da fragilidade da linha erudita. Alinhados sem preocupação cronológica, num género de Quem é Quem?, sem esgotar todos os nomes, ficamos a fazer uma ideia da grandeza heterogénea desta pequena multidão, que muito pensou, escreveu, polemizou, editou e dialogou sobre Macau e sobre a China. A produção intelectual destes autores corresponde ao corpus maior da macaulogia e da sinologia portuguesas:
a) Linha clássica: Luís de Camões, Bento de Góis, António Vieira, António de Gouveia, João de Barros, Álvaro Semedo, Gabriel de Magalhães, Gaspar da Cruz, Galiote Pereira, Damião de Góis, Manuel de Faria e Sousa, José de Jesus Maria, António Francisco Cardim, António Bocarro e Fernão Mendes Pinto.
b) Linha histórico-cultural: José Miranda e Lima, Leôncio Ferreira, Bento da França, Francisco Rondina, José Gomes da Silva, Lourenço Marques, João Feliciano Marques Pereira, Manuel da Silva Mendes, José Inácio de Andrade, Conde de Arnoso, Artur Lobo d’Ávila, A. Pinto Basto, Carlos José Caldeira, Alberto Carvalho, Manuel Castro Sampaio, Óscar de Carvalho, José Augusto Correia, Joaquim Calado Crespo, J. A. Fernandes, Guilherme Ivens Ferraz, António Lopes, Adolfo Loureiro, Vasco Morgado, Álvaro Freitas Morna, José Morais Palha, João Paulino de Azevedo e Castro, Abílio Basto, José da Costa Nunes, Matias da Luz Soares, José Ferreira de Castro, Jaime do Inso, Jack Braga, Manuel Teixeira, Benjamim Videira Pires, Almerindo Lessa, Leonel Barros, Luís Esteves Fernandes, Francisco de Carvalho e Rêgo, Arquimínio Costa, Ana Costa Lopes, Celina Veiga de Oliveira, Graciete Batalha, Beatriz Basto da Silva, António Carmo, Jorge Rangel, Ana Maria Amaro, Albertino Matias, Eduardo Brasão, Danilo Barreiros, Raquel Soeiro de Brito, João de Deus Ramos, Cecília Jorge, Rogério Beltrão Coelho, José Rocha Diniz, António Caeiro, João Guedes, Carlos Morais José, Hélder Fernando, Rogério Puga, António Vasconcelos de Saldanha, Rui Simões, Aureliano Barata, Daniel Pires, Luís Sá Cunha, Carlos Marreiros, António Conceição Júnior, Ana Paula Laborinho, João Botas, Fernando Leal Maciel, Alfredo Gomes Dias, Júlio Massa, Rui Lourido, Cármen Mendes, Maria José Freitas, Isabel Pina, Teresa Sena, Arnaldo Gonçalves, Eduardo Ribeiro, José Rodrigues Guita, Carlos Piteira, Manuel Fernandes Rodrigues, José Manuel Villas-Boas, Pedro Catarino, Carlos Estorninho, Joaquim Magalhães Castro, Manuel Basílio, José Garcia Leandro, Vasco Rocha Vieira e Maria do Céu Saraiva Jorge.
c) Linha erudita: Joaquim Afonso Gonçalves, Pedro Nolasco da Silva, Carlos Rocha d’Assumpção, António Roliz, José Vicente Jorge, António André Ngan, António Maria da Silva, Luís Gonzaga Gomes, Joaquim Guerra, Daniel Carlier, Rui Cascais, António Graça de Abreu, Ana Cristina Alves e Paulo Maia e Carmo.
d) Linha literária: Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, José Agostinho de Macedo, António Patrício, Eça de Queiroz, Maria Anna Tamagnini, Maria Pacheco Borges, Joaquim Paço d’Arcos, Ernesto Leal, Deolinda da Conceição, José Joaquim Monteiro, António de Santa Clara, José Silveira Machado, Leonel Alves, José Santos Ferreira, Henrique de Senna Fernandes, Maria Ondina Braga, António Manuel Couto Viana, Fernanda Dias, Alberto Estima de Oliveira, Sales Lopes, António Correia, Altino Tojal, Pedro da Silveira, Natália Correia, Jorge Arrimar, Maria Helena do Carmo, Alice Vieira, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, José Augusto Seabra, José Valle de Figueiredo, Agustina Bessa-Luís, Miguel Real e Rodrigo Leal de Carvalho.
A filosofia comparada, com os arquétipos ocidentais e orientais, revê-se na sua radicalidade, na sua historicidade e na sua racionalidade para cimentar um discurso crítico divergente, porque centrífugo às ideologias, e promovendo uma sabedoria de vida cuja trajectória deve ser transmitida. A aliança das civilizações começa por este caminho.
O ideal de perfeição deve ser educado no espírito para repousar na conduta social.
Que grande síntese utópica não paira filosoficamente sob esse preceito?
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



